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"Oração das cinzas ..."

Memórias que alimento ...

(999)

"Caminhos: são os meus caminhos, escolhidos por mim."

 

Escolhidos por mim. Que estranhas parecem estas palavras. Como se nesta possibilidade algo de maligno existisse; e escolher não fosse próprio da liberdade pessoal. Algo meu. Muito meu. E escolho diferente, sempre escolhi como quis e quero, apropriando-me das minhas decisões e capacidade de me arrepender delas, negando-as mesmo,  regressando a pontos de entrada para refazer tudo. Muitas vezes, metodicamente lambendo feridas.

Gosto de beber nas escolhas os meus caminhos. Fascinam-me os passos e as sombras deles porque são vastas em nós. Adoro-as! Diferentes da consciência diária, essa ponta de gelo que flutua ao alcance dos olhos. Não. Vivo para essa imensa escuridão de emoções, paixões, instintos cegos que habitam o universo abaixo da superfície como se estivesse  de mãos esticadas e  tocando. Sentindo. Ouvindo em silêncio as suas notas.

São caminhos que tantas vezes me levam a regressar ao refúgio de outros cúmplices de braços abertos, porque sim,  são companheiros de outras atmosferas e mundos. Meus e eu deles. Assim. Mesmo em saudades amargas ensinaram-me a perseguir escarpas e labirintos. A voltar sempre. A cantar algo maldito que alimenta. A verter as notas nas noites em que muitos dormem num sono solto mas sem sonhos.  A deixar (ansiar!) que tudo se apague para que apenas permaneçam sombras amadas.

Apaixonadas.

Não são os caminhos de outros. Eu sei. É onde está o vento e bate forte o coração porque as noites são longas, quase eternamente voluptuosas, e nem sempre silenciosas como gosto. Mas acredito nos que fecham os olhos, e no escuro, se entregam a uma liberdade sem preço.

Mesmo que aterrorizados com o seu sabor.

 

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Aquele preciso momento de iluminação cravado nos olhos como uma visão dos Deuses que incendeia os sonhos, que engana a  razão e transforma as longas semanas de escuridão numa porta para um paraíso. Deixo que a magia exista nos breves instantes em que respiro sonhos e uma estranha loucura entre com passos mansos dentro do meu espanto. Volto a acreditar em mundos secretos inexplorados pelos meus sentidos ciumentos e esfomeados. Inspiro um sonhar nocturno que misturo com outros sonhos porque não existem noutros locais, são reais naqueles momentos mesmo não sendo matéria nem partículas, são verdadeiros abrigos naqueles instantes, porque são imagens, memórias, esperanças conquistadas mas também perdidas irremediavelmente.

Fico silencioso. Absorto com uma dança de estrelas infinitas. Incapaz de mover um músculo mesmo debaixo de um frio tirano. Quieto, de olhos fixos no céu, uma paixão a correr no meu sangue, uma imensa certeza de pertencer a algo. Todo o amanhã poderia começar naquelas luzes e encantos. Estes são instantes em que o Céu nunca me pareceu mais Céu; o Mundo nunca me pareceu mais Mundo. São os minutos em que recuso o instinto de abrir os braços e deixar que me absorvam luzes, as luzes e o espanto infantil, porque sei que dançaria como um bobo incapaz numa dança ridícula e desajeitada. 

E é isto a felicidade? Frágeis instantes, tão imensos que me provocam medo e recuso a ceder a emoções tintas de sombras e portentos de luz. Quando o discurso se apaga e o coração bate intenso contra o peito sei que as recordações nunca se extinguirão, que talvez ceda a um abraço no escuro, mesmo sabendo que esse escuro não se afastará, que os pesadelos ainda caminham, que outros braços não me farão sentir salvo mas mais acompanhado. Se calhar escutar um suave sussurrar " estou contigo e nunca te deixarei" e por instantes acreditar. Mesmo sabendo que todos mentimos acreditar que se calhar é verdade.

 

 

 

 

 

 

As palavras escritas na pele são a recordação permanente de algo. Quando pensadas nos momentos mais obscuros gravitam como sombras nossas. Dançam no nosso corpo como menções, como epitáfios em batalhas vencidas. Os pensamentos têm uma cadência nos traços desenhados apenas possível a quem se submete a esse estranho profanar pessoal, a essa transmutação que transforma o corpo num diário de memórias.

Mas quando vi a palavra escrita naquela pele não consegui reter a torrente de sensações numa intermitência de raiva, frustração, desassossego e recordações malignas. Apenas porque sou estupidamente orgulhoso é que não coloquei um joelho no chão e inclinei a cabeça, no mais sincero gesto de cedência perante aquela palavra. Talvez porque já há muito lhe reconheci o panteão máximo me recusei a qualquer lágrima. Ou talvez tudo já tenha secado durante as suas batalhas. Sei que ambos ficámos destroçados. Sei que ainda estamos feridos.

E não será o tempo que remediar isso.

Mas a palavra escrita numa pele tão clara e jovem transforma-se pela intensidade e significado. Absorve o mundo e martela a mente como algo mais do que uma mera decoração. Voltou a agarrar-me pela face e a mergulhar  os meus pensamentos nas noites de vigília contadas pelos minutos de um pesadelo. Nas palavras segredadas ao seu ouvido afastando o monstro da sua face. Nas promessas feitas. Na minha ignorante incapacidade de lhe reconhecer tanta força! Uma palavra que me  relembra um ódio a mim próprio por não ter reconhecido isso. Ódio por ter deixado que a descrença por vezes me consumisse.

E também será uma salvação para mim. Dizem que segue os meus instintos e caminhos agora. Que traçamos os mesmos orgulhos, os mesmos sintomas de superação  e a mesma vontade de partida.

Uma senhora velha, muito velha, que diz nunca ter mentido na sua vida, afirma desdentada, que somos a sombra um do outro, que a nossa beleza é estranha e que eu nunca consigo deixar de rir ao seu lado.

Talvez a velhota não esteja enganada. Talvez pressinta a minha capacidade de morrer por esta criatura. Talvez encontre a beleza nisso.

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O  verdadeiro fascínio dos erros é quando nos despertam outros caminhos, coisas novas, pensamentos diferentes, mudanças e estados de alma por vezes tão intensos que conseguem transformar algo que sonhávamos imutável. Às vezes, errar torna-se glorioso, extraordinário, de repente, uma certeza , mesmo que não seja perfeita.

Nos erros, muitas vezes, existem artes que conspiram para outros mundos que desconhecemos - talvez outros universos inimagináveis, magníficos, maravilhosamente sombrios, estupidamente desconhecidos a quem se apressa sem um olhar atento. E se errar é realmente humano talvez também sejam uma porta para a fragilidade da substância dos sonhos. 

Pode ser.

Senão, porque continuamos a cometer o erro de amar? Persistir nesse mundo bizarro e encharcado de sombras e dúvidas. Amar é horrível, creio eu. Deixa-me vulnerável e de peito aberto - significando que alguém conseguiu entrar e obliterar as minhas defesas, construidas com tanta perfeição, de armadura tão sólida, com uma sabedoria astuta, numa estúpida distracção minha, num dia  estúpido da minha estúpida vida, recebe um pedaço de mim. E nem sequer isso me foi pedido! Apenas entrou e recebeu. Apenas cometeu a simples imprudência de um beijo, um sorriso que rasgou a minha estúpida existência,  e a minha vida deixa de ser só minha.

Um erro grave e consentido porque esta coisa desperta-me paixões e fico refém. Deixo que entre e devore a minha escuridão tão escondida. E não quero nunca que chore por mim nesta escuridão, que simples frases consigam estilhaçar um outro coração que parece bater ao mesmo ritmo.

Estranho. Um erro estranho aceitar como verdadeiro, olhos com olhos, quando dizem que me amam. Porque me causa dor e sofrimento sentir a saudade de alguém como se me faltassem faculdades que sempre tive. Não é só doloroso na minha imaginação. Não é só no meu pensamento. Pode ser um erro que consegue esmagar a alma. Rasga de dentro para fora.

É um erro pago caro. Que me faz odiar esse amor. Mas que me faz sentir estranhamente extraordinário. Como se estivesse doente e não sei porquê.

Dizem que certas canções encantam porque são caminhos para Abismos. Ouvidas apenas por alguns. E dizem que estas canções nascem de estranhas melodias, entoadas como encantamentos aos ouvidos de quem delas se apaixona, sussurradas, jamais elevadas por gritos, que conhecem a alma despida. Nua. Sem defesa.

Recitam sobre sombras e paixões sombrias com sabedoria, desfiando nos batimentos do coração, promessas. E respostas. Finalmente respostas, que apenas surgem a quem esteve cego, dobrado em si próprio, a sentir o odor de um fim de chama.

Escutar as suas notas justifica a nossa própria lição: eu sei que posso destruir tudo o que consigo construir. Tanta força! Tanta raiva e veneno e as fronteiras tão ténues. Mas são ainda mais do que isto. São como escrever sem a luz do sol, com a claridade de uma vela ou até na maior escuridão. E se não conseguir escrever essas notas com tinta e papel, existirá sempre o sangue e muitas paredes esquecidas.

Não importa. Cada Abismo tem a sua canção e rendição.

As minhas notas são escutadas porque quero todas as noites deste mundo em cima dos meus ombros. Sou assim : ávido

E talvez a melodia seja a mesma quando passo por alguém e um sorriso impossível ocupe os seus lábios dizendo;

- " Hoje está tudo bem, senhor? Sinto-me bem! Sim, hoje é um bom dia para viver..." , talvez escute a mesma canção com outros abismos. Talvez também saiba o que escondem as luzes no fundo dos labirintos - umas vezes Abismos outras não.

 

 

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"Se houvesse um deus da tristeza, ele não poderia deixar de ter asas negras e pesadas para voar não na direção dos céus, mas na do inferno." -  CIORAN, Emil, Nos cumes do desespero

 

Doce é o seu suspiro ...

 

Já alguma vez sentiste o sabor da submissão? No pescoço oferecido em subjugação ao toque do beijo. À carícia da língua. Ao  extâse da primeira dentada suave como a mais deslumbrante ousadia. Um sacrificar consentido, exposto e entregue, numa sinuosa manobra felina abraçando músculos tensos e dolorosos.

Como numa peça de paixão, pescoço entregue a mãos trémulas, incapazes nesse instante de magoar, numa submissão de respiração saboreada pelos meus suspiros. 

Olhos cerrados numa beleza frágil, protegida contra um corpo denso, de pele reluzente mesmo na meia-luz, enquanto o vento ciumento, descendo pela montanha branca, uiva contra as janelas - uma morte nesta entrega sem temores seria o fim sem mágoas: a minha morte por outras mãos.

Esmagado pelo esforço de uma rendição, retendo a respiração para aprisionar um silêncio cúmplice da minha paixão, em gestos lentos e temerosos para não rasgar uma obra de arte, fecho todas as portas para fora com cadeados forjados por fogos desconhecidos e aguardo a minha morte feliz ...

... No verdadeiro sabor da submissão, apenas entregue por uma criatura demasiado impossível para a minha luxúria primária, partilha, entre suspiros arquejantes, um suave mas firme abraço, e um sussurrado "amo-te" no ouvido, cravado depois por uma dentada capaz, por vontade própria, de criar uma nova Estrela.

E sei que a morte seria tão bela nesse momento, na suavidade do seu choro tranquilo - sei que morreria feliz.

Silencioso. Porque as palavras devem ser ocultadas de uma voz incapaz.

Os Deuses seriam então generosos comigo.

Gosto do sabor intenso do riso fácil. Da sensação quase profana que me consome quando consigo observar essas estranhas criaturas que dominam esta arte tão arcaica, aquela inefável luz que parece banhar todo o rosto com os traços, marcas, de uma alegria que me fascina intensamente. É como observar uma outra margem mais distante. Hipnotizado pela raridade do riso sonoro coroado pelo brilho intenso e sonhador no olhar. 

É então a minha prepotência que me cobre de ciúme porque estas não são artes minhas. Arrogantemente, embaraçado, vou consumindo essa virtude como uma quimera pessoal, intermitente nos pequenos golpes ao canto dos lábios, assaltando o semicerrar dos olhos e a dança das mãos que se agitam no ar - talvez expulsando demónios.

Uma virtude da consciência para mim: uma refracção detalhada na expressão tão primorosa quando o sorriso surge tímido, quase sem descerrar os lábios, deixando apenas antever um ligeiro brilho dos dentes, mas que transforma um rosto num perfeito arquétipo de culto - chega a tornar-se tão dolorosa esta potência. Tão magnifica!

Este não é o sorriso sóbrio do embaraço sem palavras. Tem o ruído de quem se rende sem pudores a esta emoção. Cintila, aparentemente fácil, mas é mais do que isso. É um portento único. Antigo. Universal. Impossível para certas criaturas.

Impossível para mim. Infelizmente.

 

 




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