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... fez de mim um idiota sem abrigo

 

É estranho que eu não tenha saudades da minha infância. Estranho... Como se algo demasiado importante se esfumasse nesses dias. Estranho, como se as urgências desses tempos nunca fossem necessárias - ou sentidas.

E no entanto sinto a falta do prazer que assumiam as pequenas coisas, os pequenos detalhes, mesmo quando algo enorme parecia desmoronar-se. Mesmo na impossibilidade de controlar o mundo, não conseguir afastar-me de situações, pessoas e momentos, ainda assim conseguia observar um brilhar feliz  nas mais pequenas coisas. Começava pela procura de desejos e terminava, tão rapidamente como começou, com o esquecimento, com a minha incapacidade de prolongar algo tão simples como um desejo.

O inicio de uma carta escrita, talvez um prelúdio para um qualquer encontro, às vezes formal, como uma declaração, escrita em letra sóbria, cuidadosa e de outros tempos: Gosto de ti. Pequenas coisas, detalhes onde a atenção acaba por morar enfeitiçada. Mesmo não conhecendo o punho dessa escrita, era possível imaginar um sorriso - se calhar partilhado sem conhecimento. Talvez até desejar por carta e por letras estar junto de alguém nas manhãs em que os olhos se abrem e aceitar a rendição a um rir seguro, como se o paraíso nada mais fosse do que isso mesmo: uma confissão com caneta e papel. 

Sempre me pareceram frágeis, esses breves tempos, quando o sol desaparecia, e sentia o cheiro do bolo carinhosamente colocado junto ao copo de sumo - não porque não seria delicioso, mais do que isso. Porque eram instantes que nunca se repetiam, mesmo que acontecessem todos os dias. Eu sabia que aquele final de dia, quando a claridade se transformava em tons dourados sublimes, aquele cheiro de canela e chocolate e o sabor do sumo de laranja,  nunca seriam iguais. Haveria sempre uma pequena linha turva no tempo que faria uma mudança - uma alteração na luz e na sombra. Um sabor a nostalgia.

Essa maldita nostalgia.

 

 

 

 

 

 

Hoje...

... é necessária a reverência para quem não está sentado ao meu lado. Deixar que a memória se apague - enquanto sossego nas palavras. Enquanto volto a colocar os pensamentos nas gavetas mais distantes.

Hoje, escuto as palavras entre os lábios prometidos. 

Enquanto espero.  Enquanto deixo que as saudades fiquem. Sentadas aos meu lado.

 

 

Às vezes deixo que os sentidos adormeçam nos braços da ilusão das promessas. Por vezes... Aceito a promessa de um "para sempre" com a mesma insensatez daqueles momentos em que algo apunhala a minha atenção, e deixo que se abram portas e janelas - entram os traços levemente deixados como partículas de luzes para um outro caminho, sinais, cores em cada esquina dos labirintos. 

Como se  fosse possível segredar algo para sempre num mundo que se aproxima do fim. Como se a eternidade não fosse tão vaga como as promessas de amor eterno. Como se aquele beijo final não pudesse ser o fim: o último.

Mas, às vezes, gosto dessa doce mistura, necessária para gravar na alma os sintomas de uma doença que promete algo para sempre, sem pensar nas ilusões, sem imaginar a maldição de cair do céu para o abismo profundo. Como se fossem naturais, ainda que dolorosas, as cicatrizes de mais uma queda.

Gosto. 

E, estranhamente,"para sempre", encerra portentos na alma -  consegue fazer vibrar emoções escondidas nas sombras. 

Tão doce, a ilusão da companhia eterna. Como o vinho mais saboroso que turva os sentidos. Como o último cigarro de um condenado antes de cair. 

 

Eu conto os passos enquanto caminho entre os enormes ciprestes. Um artifício meu que ajuda a silenciar os pensamentos, enquanto me aproximo da imensa casa, cravada em pedra, sistematicamente banhada por um sol que parece não desaparecer. Conto cada um desses passos numa estranha forma - quase uma oração - de antecipação, tentando animar um espírito que tantas vezes se comporta como um velho bêbado sem regra, quando se aproxima da maciça porta da entrada, com o vento a assobiar nas costas, apressado em forçar a minha entrada. O coração aos pontapés no meu peito, apenas pacificado por memórias vitais -  uma saudade carnívora em cima dos meus ombros; como se eu fosse pródigo em algo e estivesse de regresso a quem sentiu a minha ausência.

E as sombras só abandonam os meus pensamentos quando escuto o ladrar do cão enorme. São uma voz rouca que soa como as janelas abertas pelo receio, - " um dia destes não ouvirei nada e um pouco de mim acabará aqui," - por isso os passos devem ser perfeitamente contados até que a imensa casa se erga na minha frente. Até que o enorme cão uive, sentindo o meu cheiro. Sei - porque o cão fala comigo - que ainda tudo está bem. Os seus olhos são os olhos do homem que me abraça com força, cerrando o olhar azul baço onde não entram luzes, uma lágrima grossa escorrendo pela face coberta de uma enorme barba branca - alva como os dias sem tempestade e o brilho do sol entorpece os sentidos embriagados.

E solta gargalhadas sonoras que enchem todas as salas iluminadas enquanto o cão salta pesadamente e ladra com uma brutalidade meiga. O que cintila em mim é algo raro e demasiado precioso: pertencer a algo. Ser uma parte do contentamento de alguém. Deixar que o coração se torne num oceano - por instantes fugazes permitir o meu afogamento sem resistir. Não só entre as estantes e os livros. Não apenas debaixo da luz que se estica pela entrada do tecto. Também pela reverência do seu trajar e até do seu caminhar direito. Por outras cores sem toques negros - ainda que cinzentas mais belas - pintadas pela voz suave de uma idade que parece não ceder ao tempo. Porque se conjugam e alinham  estrelas num perfeito momento quando o canzarrão fiel se une a nós num trio inexplicável mas perfeitamente harmonioso.

Sei muito bem que sim.

O Universo escuta naqueles instantes. Respira-nos sem raiva. Viaja connosco invisível e descansando nas páginas de livros que gosto de ler em voz alta mas não demasiado firme. Conta os nossos batimentos de vida em silêncio - não vá o guardião falar e partir os céus! Dobra-se até ao fim para escutar e sonhar connosco.

Um pouco mais de saudades para encher ainda mais os meus dias. Um pouco mais dolorosas - quando eu pensava que pior seria impossível.

 

Desafio aceite.Espero ter correspondido?....*

 

Eu penso que ele se apaixonou por ela. Talvez demasiado. Mas sim. Foi isso. E não é idiota? Mas era como se a conhecesse de um outro lado. Como uma velha e querida amiga. O género de criatura a quem podia contar tudo, por pior que fosse, que nunca lhe voltaria as costas, continuaria a gostar dele - porque parecia que o conhecia como as palmas das mãos. Queria ir com ela e que ela reparasse nele mesmo quando se afastava naqueles passos que ele achava encantadores.

Recordo-me de os ver parados debaixo de um céu cor de chumbo numa manhã que convidava a pensamentos e fugas. Estavam os dois juntos e por instantes eu achei que ele tentava dizer-lhe algo; mas não sei. Nos olhos dele havia aquele brilho raro de quem parece amar algo profundamente e para toda a vida. No entanto,  sempre fiquei com a bizarra sensação de que ela nem sequer parecia estar ciente da sua presença.

 

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Existe quem siga por caminhos. Existe quem explore. Alguns estão contentes por caminharem sempre da mesma forma, centenas, milhares de vezes; talvez nunca tenham sequer imaginado fugir desses caminhos, para vaguear entre noites e encontrar outros nomes. Rastejar por labirintos como demónios que conhecem dúzias de artimanhas para escaparem.

É como gostar das Estrelas. Dessa ilusão de permanência.

Quero dizer: se  calhar sou eu que imagino isso.

Fico sempre com a ideia de que as estrelas brilham e esmorecem. Cintilam e apagam-se. No entanto, deste lado eu posso sempre sonhar - imaginar a eternidade. Eu consigo imaginar que certas vidas conseguem ser para sempre. Os Deuses nascem e os Deuses morrem. O que é mortal desliga-se para voltar a ligar-se. Consigo fechar os meus olhos e aceitar  a existência de mundos que terminam; mas as estrelas, as galáxias, são transcendentes,  momentos de passagem que piscam como pirilampos, acabando por se desvanecer no pó e no frio.

Eu consigo imaginar que mesmo o Nada não dura para sempre.

 

 

 

 

Existe uma percepção da paixão que sempre me perturbou intensamente, pela forma como sempre conseguiu deixar-me indeciso e em terreno escorregadio. Na existência de uma química deslumbrante em quem consegue, sem remorsos de culpa secreta, uma entrega em abandono total, quase violento. Que rasga as emoções em farrapos. 

Por vezes, naquele principio quase solene em que o pensamento se retrai mudo entre o turbilhão da lógica fria e o mais intenso instinto animal, livre das correntes, inconsciente de si próprio, incapaz de se domesticar, é nessa capacidade de abandono que segredos são elevados, insónias glorificadas.

A arte de quem se abandona perante instintos primários é ainda de caminhos que não são os meus. É ainda alquimia de outra criatura, pacientemente terna, zelando para que a minha capitulação não seja a humilhação da derrota. Subtilmente sábia perante  mãos trémulas, por instantes impotentes.

Quem se entrega em abandono escreve pelo seu próprio tracejar um domínio que muito  raramente consigo quebrar. Reconheço-lhe as virtudes do mito porque é exactamente disso que se trata: sintoma de lenda encantada cantada por bardos poetas, dançada nas noites mais longas da memória.

Que alguém respire junto a mim sem temor, de olhos cerrados e em quase perfeita sintonia, nunca deixará de me espantar. Decidir isto, pelo seu próprio abandonar de defesas,  diluindo-se comigo, será sempre uma das mais perfeitas e verdadeiras provas de fogo. E amor. Todas as minhas defesas em fragmentos. Toda a minha capacidade de lutar em cinzas.

Este abandono. Falso abandono que tantas vezes veste o traje da submissão. Um engano que se torna caro para o incauto que se embala na sua canção.

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Para ti ...

 

Não tenho este hábito, sabes? Nem sequer acho que seja necessário que o faça porque, de alguma estranha forma, acho que tu pouco te importas com isso, mas gosto da tua companhia, e mesmo não sendo minha a  rotina das palavras para o expressar, sei do teu silêncio que é uma companhia sempre presente, creio eu. Talvez  penses que sou demasiado distante.  E talvez tenhas razão. Mas distante não será indiferença em mim. Não. Porque me sinto bem também nas tuas palavras. Porque não tentas fazer um esforço para entender o que sou, nem verter absurdos sobre os "meus demónios" pessoais. É algo mais raro e precioso vindo de ti: ficas comigo enquanto navego nos meus abismos. Admiro isso intensamente. Essa capacidade de caminhares ao meu lado silenciosa  e persistente. 

Talvez estas até sejam palavras a mais. Se calhar a música é suficiente para te abraçar mesmo sem a beleza das notas que preferes, mas quero que tenhas a certeza de que não me esquecerei  de ti  e da tua presença. Serão pálidas as saudades das poucas palavras que viajaram entre nós. Que retenho em mim a certeza  da preciosidade que seria partilhar contigo  labirintos e sombras.

Que quero assegurar-te  que o filósofo se enganou nas histórias: não é preciso escolher porque  por vezes  são vividas para serem contadas.

 




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