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Reservo para mim e apenas para mim a possibilidade de escolher a minha estrada, as minhas escarpas e os meus labirintos.

Não é absurdo, este intoxicar, esta sensação de poder mal contido?

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Não há nas farmácias nada específico contra a existência; só pequenos remédios para os fanfarrões. Mas onde está o antídoto do desespero claro, infinitamente articulado, orgulhoso e seguro? Todos os seres são desgraçados, mas quantos o sabem? A consciência da infelicidade é uma doença grave demais para figurar em uma aritmética das agonias ou nos registos do Incurável.

- Breviário de Decomposição, Emil Cioran

 

Eu jamais conseguiria encontrar um sentido para a minha existência sem a capacidade de testemunhar o que é magnânimo nos mais pequenos pormenores deste universo indiferente. Isto. Precisamente isto de quem se assume muitas vezes incrédulo, pejado de um cinismo - sempre este! - agreste, que apenas se submete quando o peso dos pormenores se torna tão insuportável, que tudo o que me resta é a cedência. É nesta tempestade perfeita que, e isto aprendi, de uma forma penosamente dolorosa, se formam certas bestas perfeitas, intocáveis, plasmadas naquela sublime beleza violenta dos momentos certos, perfeitos, de certas revelações.

Gosto, com aquele pudor quase incandescente de puritanismo, do testemunho magnânimo daqueles que rasgam em farrapos a linha ténue entre o verdadeiro desespero e a alquimia sublime da compaixão. É uma paixão minha, visceral, impossível, conseguir distinguir o verdadeiro desespero de quem apenas encontra muros sem saída e entender ( finalmente perceber!), que é possível mergulhar o nosso dia mais negro no oceano de compaixão de outros, por vezes também desesperados.

Esta é a minha fórmula inquestionável de humilhação pessoal. Da minha crença na imbecilidade dos reinos dos reis e das rainhas, do meu escárnio ao pensamento de quem se acha nobre de linhagem superior. A raça humana não é igual entre si. Eu consigo dividir este amontoado de criaturas pela sua generosidade e compaixão mesmo no desespero. E aqui, nesta pequena constelação de estrelas Maiores, está a Elite superior.

Se calhar é aqui que encontramos realmente algo divino, neste vergar do pensamento mais descrente da alma humana, insuportavelmente real quando confronta os dias da nossa parcimónia indiferente, uma lição cirurgicamente administrada no ego, a humilhação final. 

Se, ao menos, eu conseguisse decifrar essa química ...

Fleuma,

 

Sorri ...

E brinda a esta minha alma ...

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Creio, sinceramente, que aos teus olhos, me assemelho a uma criatura estranha: fechada, orgulhosa e arrogante. Creio que é esse o principio mais básico: o meu julgamento. Porque também eu sou juiz e não apenas julgado. E creio, para minha admiração, que tu vais deixando a porta entreaberta em ti, como se  necessário para deixar aparecer algum azul nos dias de chuva e trovoada cinzenta. Um gesto de bravura cautelosa mas imensamente corajoso. É como se, por breves, raros instantes, destapasses o pescoço numa demonstração de fragilidade que, sistematicamente, nos outros dias, tentas ocultar.

E sinto-me humano, sabes? Saber-te capaz de escrever a ausência de empatia e remorso, enquanto vais, devagarinho, juntando as emoções, deixas mais uma janela aberta para um mundo que não conheço. Talvez seja exactamente isso que eu vejo, algo humano, capaz de sentir ódio e desprezo, bem como amor por algo. Isso. E não apenas a capa dourada das boas intenções.

Sou julgado muitas vezes. Demasiadas, mesmo para mim. Sou culpado, muitas vezes, porque me recuso a perdoar o que deveria ser perdoado e a esquecer o deveria ser enterrado na memória do tempo. Pouco me importam os que que não perdoam os meus pecados, os que não esquecem as minhas dentadas, mas gostaria de colocar um joelho na terra e assegurar-te que por vezes, estranhamente, consegues fazer-me sentir humano, capaz de algo muito para além da solidão e vontade de partir. É quase uma porta que se entreabre, fresca e mesmo assim, um brandir de recordações luminosas, sempre acompanhadas por sombras.

Não escreverei sobre a música que venero. Aqui vou deixando apenas partículas de um princípio. O que está profundamente enterrado, essa música que oculto, essa minha doutrina que também toco e canto, sei que me tornaria irreconhecível e tu não voltarias a descerrar portas.

 

Fleuma, 

 

Certas palavras são como canções que não nos pertencem no tempo, são um ressoar de surpresa, um rugido silencioso nas sombras. Proferidas, rasgam os sentidos destruindo a distância.

Escritas?

São estranhamente belas, impossíveis, e podem pertencer a qualquer imprudente afortunado que nelas encontre um porto de abrigo. Por vezes, são escritas com aquele vigor imponente que nos arrasta pela sua força sinuosa e sonhadora. São raras estas palavras, traçadas com aquele dignificar proibido que consome a nossa chama primordial. Gosto de dobrar a minha cabeça sobre elas e sorver alimento pontificado, sentir-lhes os ventos escuros e frios dos seus dias, deixar latejar o meu coração fantasma na certeza de que mesmo não sendo para mim, por alguns instantes, estive presente. Lado a lado.

E quando as sinto como minhas?

São como canções que sempre me pertenceram. Porque é assim que desejo. Que sejam canções por mim conhecidas, fustigadas por forças que tantas e tantas vezes chamo e de quem conheço todos os nomes. E gosto de nomes. Gosto de saber nomes como se fosse necessário para justificar a minha necessidade de as tornar minhas.

Olhadas da sombra, certas palavras são tão belas como tentações para os malditos.

E cintilam. Como os fogos primordiais em pergaminhos proibidos.

 

Fleuma,

 

Ómega ...

 

Não é realmente tristeza. É antes o pensamento de quem se encontra perdido. Não é sequer a solidão forçada, a incapacidade de comunicar emoções, é o fascínio de procurar, caminhar e procurar. É não esperar ser compreendido por mãos maternas de piedade, como se fossem bondosas em tempos agrestes.

Não é realmente dormir ao relento nos dias mais soturnos, quando as manhãs não brilham, as tardes não cheiram a café e a  chocolate, e as noites são a companhia mais fiel. É não compreender porque insistem tantos na inútil fatalidade que continua a travestir a sua ignorância com a ironia incapaz e o humor forçado.

Não é nada disso realmente.

É uma intensa necessidade de Pertencer. Ousar chamar Casa a um local. Conseguir, mesmo perdido e ausente, recordar o caminho para regressar mesmo que a estrada seja outra todos os dias. É como respirar finalmente, esta vontade de pertencer a algo que aquece, acarinha, protege. Uma outra voz que chama uma e outra vez.

Creio profundamente que este é o sentimento mais verdadeiro, mais visceral e pessoal que algum dia tive o privilégio de deixar correr dentro de mim: consentir o pertencer a algo e a alguém. Mergulhar nessa torrente enquanto corre o meu tempo, que acho sempre, será breve mas finalmente, Pertenço. 

Por isso se torna impossível pertencer ao mundo, abrir os braços para todas as vidas e deixar o Universo indolente aos meus pensamentos, decidir por mim - como muitos parecem acreditar. E nunca conseguirei deixar de rir com a ideia de abrir os braços ao mundo que me rodeia, como se pertencer realmente, ser uma célula verdadeiramente de algo, fosse apenas como respirar. É demasiado precioso este sentimento. Único. Egoísta e carregado de um peso tão individual que todo o resto são migalhas ridículas, sem importância.

Sou arrogante ao ponto de saber que Pertenço. Imprudente o suficiente para virar o rosto para o outro lado quando alguém acha viver numa Casa.

 

Fleuma,

 

 






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