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... ensina-me como caminhar para a tranquilidade,

porque eu só consigo falar-te de tempestades  ...

Fleuma,

Jim Harrison

 

... E é realmente disto que se trata, não é? Das vozes interiores e da nossa capacidade de escuta, com a clareza astuta dos que vergam aos seus ecos e decidem viver por elas. Quem leu Jim Harrison sabe disso: não aprende a escutar essas vozes, porque estão em nós, em muitos, dormentes, apagadas, por um medo infantil de loucura, e que tudo se revele num caos sem fuga, mas antes, reconhece caminhos, onde talvez nem todos sejam para a lenda, talvez sejam apenas o contentamento por uma certa loucura.

Não sei.

Harrison teve essa virtude em mim. 

Quando falo comigo, certamente deixo as minhas vozes graduarem as sombras, ocupando espaços. Tudo não passa de um ensaio metódico de reconhecimento dos caminhos que sempre ali estiveram, eu apenas estava cego para o recordar. E nunca é um processo finito. Eu nunca fico sossegado. Eu nunca aceito a satisfação do que escuto. Talvez seja a isto que Harrison chama loucura, esta incapacidade de ouvir e conseguir a química da lenda. Talvez a solução não se encontre nas palavras dos seus poemas ou da sua prosa. Talvez sejam antes luzes de inspiração para uma libertação que me deixa amedrontado pelo temor de não regressar. É algo em êxtase e em libertação. Algo maldito nas nossas vozes que não tem Deus nem necessidade de purificação ou danação.

Algumas vozes são a nossa profecia e caminho para o abismo. Outras são o consolo de quem saltou para um buraco escuro e fundo e regressou lacerado e ensanguentado, sabendo que não havia alternativa.

Não havia outra saída.

Fleuma,

 

 

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(999)

 

Na primeira vez em que deixamos o olhar vaguear indiferente ao nosso próprio pensamento, no exacto momento em que tudo parece estar alinhado numa qualquer conspiração, quando ficamos realmente perdidos e sós num espaço imenso, é perigosa a tentação de escutar o sussurrar das nossas próprias emoções. Há um principio arcaico, cósmico, em nós, nos silêncios de quem se deixa perder nestes instantes, um pulsar apaixonado por respirar em ciclos. Uma vontade quase suicida de desvanecimento nesse vaguear de pensamentos, um repentino desvendar de algo que verdadeiramente se ama nos batimentos ritmados das nossas emoções mais egoístas.

Porque eu sei que é verdade, o ódio tem a batida de um tambor de guerra, selvagem e venenoso, e o que chamam amor bate benevolente, turvando os sentidos num caos que não entendo.

E sabias que, ainda assim, deixar o olhar vaguear indiferente, por vezes tem o sabor da fruta mais ácida e o cheiro do néctar mais doce?

Fleuma,

 

 

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Dos nossos dias de glória ...

 

Nenhuma existência humana fica realmente completa na morte sem o percorrer, pelo menos uma única vez que seja, os caminhos solitários do Norte gelado. Creio eu, passageiro, ainda hoje, de tantos dias perdidos entre a floresta e as estradas que atravessam os meus sonhos de sempre. Podemos caminhar acompanhados, numa harmonia que transforma a neve fria e o nevoeiro das manhãs escondidas naquela doce tentação de quem se entrega a um pecado feito de suspiros partilhados, olhos brilhantes e enfeitiçados... A cumplicidade transformada em dádiva.

Mas,  dizem-me muitas vezes, os Deuses gostam de sorrir aos que se atrevem nestes caminhos sozinhos, concedendo-lhes a visão do fogo final, antes do sol se cobrir com os véus invernais. Alguns incautos, tornam-se loucos, perdidos nos ecos dos seus próprios passos, incapazes de suportarem o peso dos seus próprios pensamentos. Outros, aprenderam a transformar os ventos que assobiam numa canção que embala os sentidos durante horas! Não existe delírio como o dos encantados pelos caminhos do Grande Norte. Tudo o que resta repete a saudade e a necessidade de regressar uma e outra vez. Até que tudo termine.

Existe, nestes caminhos, um saciar de fome que consegue aplacar os ferimentos de morte, uma solidão tão intensamente vivida entre os pensamentos e os batimentos de um coração perdido naquele fulgor de quem sabe verdadeiramente onde pertence, um cego em transmutação dolorosa aprende pela saudade o sabor incalculável da saliva salgada de um beijo, o triunfo do regresso ao abraço de um corpo quente.

Salvação.

Fleuma,

Archie Battersbee

 

“O médico deve acalmar os sofrimentos e as dores não apenas quando este alívio possa trazer cura, mas também quando pode servir para procurar uma morte doce e tranquila.” - Sir Francis Bacon

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