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Talvez eu não saiba dos anos dos outros.

Creio que sim. Não sei nada.

Nunca pretendi que assim fosse, por essa impossibilidade de desejar "um feliz ano" sem  estar em frente ao outro, sem cravar os meus olhos nos do outro. O que não deixa de ser paradoxal nesta vaga de redes sociais onde o calor de um abraço, a leveza de um beijo, são servidos por algoritmos disfarçados pela distância e aborrecimento de mais um ano que passou.

Estranho em mim.

Talvez assim seja porque sempre fui isso mesmo: animal de labirintos e atmosferas a desejar ardentemente confiar em algo ou alguém. 

Os anos foram passando com a intermitência corrupta e escura daqueles pensamentos venenosos de quem sai de um labirinto para entrar na sombra de outro. E é estranha, esta pulsão por labirintos e sombras que nunca me irá abandonar, este ritmo quase carnal que não me deixa descansar sem imaginar como poderiam ter sido os outros anos. Antes deste.

Compreendo. Não consigo imaginar o ano dos outros sem sentir aquela fome voraz de absorver os seus dias e as suas noites. Arrastar outros para os meus tempos e os meus pensamentos. Agarrar nas suas cabeças e baixar os seus olhos com os meus.

Terrível e egoísta. Eu sei. E não me envergonho; os meus anos que desejo são o que eu sou e no que os vou transformando até ao meu último suspiro.

Porquê Outubro? Porque não outro mês? Existem tantos!

Porque foi no Outubro de um Ano onde não foram desejadas boas entradas nem boas festas que consegui, lenta e dolorosamente, paulatinamente, dar um nome próprio a Sombras e Labirintos. Beber de outras Atmosferas.

Creio que sim.

Foi num Outubro que deixei de olhar um Ano como mais um tempo que passou. E apenas isso.

Como se em cada ano que que vou deixando para trás ficasse um pedaço que me pertence e o qual recuso perder.

(Fleuma,)

 

(999)

 

Lá fora 10 graus negativos. Dentro da sala, pelos recantos de sombras atravessados pelas luzes artificiais, entre o calor ameno do som das palavras amigas, antes estranhas e desconhecidas, num torpor cansado, sentado entre isto, deliciosamente rendido ao sono que se aproximava...

Tu.

Entre tudo isto: Tu.

Nos passos serenos e felinos em direcção a mim. Em frente a mim. Tudo se silenciou naqueles instantes. Esta memória que nunca me abandonará. A respiração selada num aperto. Os olhos abertos apenas num sentido. O peito congestionado num bater estranho, disperso, mínimo. A incapacidade de uma palavra. Um idiota desajeitado e subitamente lançado em águas desconhecidas.

Tu és uma Chave.

Os teus olhos brilhantes nos meus. O sorriso na cor dos lábios grossos. A tua pele alva entre a sombra, recordou-me as minhas primeiras auroras do Norte, lancinantes de espanto e vigor. 

Algo animalesco cresceu naquele dia em mim. Algo que ficou sangrento e violento. Uma fome de possuir e nunca mais soltar. Um tremer quase demoníaco que nunca mais me abandonou na tua presença. Um prostrar frágil. Uma incapacidade de conseguir ver algo mais belo, um cismar silencioso de predador encarcerado numa escuridão de instintos proibidos, dormentes durante outros abismos.

Tu és uma Chave...

E eu, ainda hoje, não sei o que isto é. Não consigo regressar a mim. Sinto este corpo enorme e maciço, incompleto, junto ao teu - sinuoso e assustadoramente silencioso. Sem ruído. Como uma brisa.

Não sei o que isto é. 

Nas palavras saídas como encantamentos pela noite fora. No brilho de uma inteligência inata mergulhada nos olhos cristalinos. Nos cabelos longos. No sussurrar onde tudo se consuma. O meu corpo duro e sólido recebido pelo teu. Demasiado belo para ser meu.

Tu és a Chave.

(Fleuma,)

 

 

A mente é uma sequência de armadilhas colocadas com uma precisão sinistra nas emoções, cantos escondidos do mundo, dispostas como armas de corte onde o rasgar se torna impossível evitar. É como uma suprema ironia esta faculdade da mente - a faculdade de pensar e assim sonhar, assim mesmo decidir, engendrar, arrogantemente vai criando a sua própria antítese nas armadilhas que ela mesmo fabrica, cinicamente colocando uma aqui e uma outra ali, escolhendo ignorar uma gota de pacificação, um descanso sem temores. Não existem dias iluminados sem o  golpe do que virá depois. O pensamento absorto em si próprio não aceita o descanso a não ser pela Morte. Nada mais importa.

Para aqueles que já estiveram próximos do passo final antes da queda no abismo e conseguiram resistir ao seu encanto, ficou a cicatriz profunda da tirania do pensamento. Uma chicotada permanente que recorda ao escravo uma armadilha solta e uma próxima ainda por descobrir. Um golpe agora por suturar não sabendo se na próxima haverá retorno.

A mente, essa deliciosa coisa com o sabor do infinito, cria os seus próprios esporos e metástases, florescendo numa escuridão venenosa com nomes que deveriam ser silenciados, um arrastar obsessivo que coloca o seu pé niilista no nosso pescoço, e lentamente, vai esmagando a existência até ao desespero absoluto.

Quem sabe desse quase completo niilismo sabe quantas vezes esteve para morrer. Aprendeu a temer a mente enquanto vai suturando uma e outra laceração, nunca adormecendo a sono solto.

Sempre a esconder o desejo de sonhar porque sabe que a mente não gosta de desejos e sonhos.

(Fleuma)




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