Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Uma forma estrita de inferno e paraíso pessoal subsiste na memória e na incapacidade de esquecimento. Na persistência do pensamento que nunca nos abandona, um porto de abrigo que consola os dias nas recordações ou um tormento existencial corrosivo e venenoso. Este paraíso tem outros nomes, todos eles em luzes abundantes e longe de ruas escuras e desertas. Esse inferno que memoriza e não esquece é um antro de demónios todos eles com um nome próprio - rancor, ódio, imbecilidade, tacanhice ... numa lista infindável. Mas também tem outros nomes divinos que habitam labirintos de tempestade mas onde vagueiam outras auroras - coragem, comunhão de sombras, conhecimento, reconciliação ... uma imensa legião! 

Alguns escolhem descrever em si mesmos essas memórias e são como um purgatório, habitam escarpas próximas, demasiado próximas do céu; outros insistem no afogamento das recordações num ajoelhar intimo de devoção a um inferno muito pessoal. Tudo isto rebate em algo que escutei há muitos anos, "somos forjados pela dor, existimos por ela e para ela, nada se lhe compara!". E creio que é a mais pura verdade. Na nossa capacidade em recriar o nosso próprio sistema de punição pessoal. Na nossa capacidade de exercitar repetições que apenas provocam o renascer dos mesmos efeitos - a própria definição de loucura. 

(Fleuma)

Tags:

Consigo encontrar o mais ínfimo detalhe de uma partícula do Universo naquela primeira chávena de café quente nas auroras geladas quando o sol brilha frágil e submisso. Nos silêncios mais espessos e na falta de palavras, as expressões mais violentas do meu amor mais intenso, a mais crua desfiguração dos meus instintos mais íntimos, a minha maior obsessão por tudo o que cresce dessas manhãs prematuras. O primeiro pedaço de pão escuro toscamente partido pela mão, o intenso crispar do meu sabor no primeiro pedaço de queijo forte e de cheiro ancestral, enquanto vai estalando o fogo que aquece a casa. O bolo em cima da mesa, mesmo agora acabado de sair do forno, a escaldar entre o chocolate negro, as amoras silvestres e a canela mais pura que alguma vez senti! É como uma justificação para conseguir respirar outro dia, entre aquele ligeiro estremecer de antecipação premeditado e o doce silenciar da alma neste amanhecer. 

Mergulho profundamente nos movimentos sinuosos do corpo que gravita junto a mim, perdido nessa beleza surreal, tacteando cego, enquanto vai percorrendo a sombra e a luz, leve e felina, cheirando a desejo - a minha própria bestialidade. Morreria neste preciso instante sem mágoa enquanto escuto a sua respiração suave, ruminando na impossibilidade dos seus olhos celestes, do sorriso lascivo e de promessa, da melodia das palavras de um dialecto que sibila, na preciosidade da companhia como amantes. 

Silencio a minha alma atrás da enorme janela de vidro, descansando os olhos matinais nas árvores da floresta gelada à minha frente. Sei deste privilégio. Sei da virtude de uma solidão partilhada no caminho da floresta; a extravagância de percorrer esta ausência de ruídos que talvez seja um novo estado de quase loucura em mim.

Sou um mestre na arte de habitar nos pormenores. Creio que esta é uma virtude de alguns animais. Mas não a aprendi sozinho.

Não. 

(Fleuma)






topo | Blogs

Layout - Gaffe