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Sprawling Void
"My ugliness your beauty"
Dizem que é a espera que que nos torna ansiosos. Dizem que é nessa antecipação que surgem as definições de eternidade, já que o tempo parece não se escoar. Não para mim. Eu gosto dessa espera lenta, quase imóvel, que sistematicamente gela o meu sangue de antecipação. Gosto desta "visão de túnel" que tanto parece fugir e desagradar à minha volta, porque estas são noites minhas, estes são os meus sons e aquelas vão ser as minhas palavras.
Falam desse misterioso sorriso que surge dissimulado no nosso rosto nos instantes antes, depois dessa espera lenta e desse gelar que parece atrasar as horas, como de um desconhecido elixir que brota da alma. Talvez seja assim. Também não lhe reconheço outro significado tão próximo que está do júbilo em estado puro. Intoxica os sentidos, apura a realidade como se fosse arrancado de um sonho longo. E talvez esse mesmo sorrir velado seja um assumir dessa alegria, que deixa os corpos em convulsão antes dos primeiros passos para as luzes e para os gritos ensurdecedores.
Pode muito bem ser essa a ideia de comunhão?
Será essa a outra margem que justifica o poder magnético da antecipação?
Talvez.
E gosto tanto desta palavra!
Pelos mundos que abre.
Pelos labirintos que assombra com a alquimia que parece brotar de dentro.
Da alma.
(Fleuma)

O Som Distante dos Mundos Vivos
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Existem locais onde eu gosto de regressar. Obrigatoriamente e numa espécie de fermentação secreta de recordações. É instintivo e muitas vezes sincronizado com os meus pensamentos. Aparentemente tais regressos sossegam os meus instintos de uma forma surpreendente para mim ainda nos dias de hoje. Rever um rosto é retocar as fracções de memória dessa pessoa, para que fiquem intactas e sem dano. Rever livros que fizeram e fazem ferver a minha alma é tão cruamente essencial como o silenciar desta necessidade de regresso a algo. Por isso a palavra é isto, toque nas ausências, principalmente para mim que sistematicamente me deixo arrebatar nas distâncias.
Aprecio locais de regresso como expressões subtis de catarse. Não apenas físicas e sólidas. Mas principalmente de consciência e conhecimento do que ali habita. Às vezes são apenas regressos e ecos. Nada mais. Ruínas que não pulsam e mesmo assim deixo inteiras num gesto cujo motivo desconheço, mas que insisto em preservar. Absurdo ao bom senso, mas teimosamente aceito que existam. Outras são o oposto. Pulsam como grimórios proibidos. São regressos que irradiam a beleza que certas recordações conservam em mim e são os instantes de reconhecimento de algo, como gestos ou palavras que bem poderiam ser para mim. Mesmo não o sendo, ainda assim gosto de passar junto a tudo isso com o desvelo dos que regressam para saciar a sede.
(Fleuma)
Ondas Delta
É pela inconsciência de um sono profundo que gosto de ser recordado. Pela passagem estreita dessa quase-morte. Mergulhado na doutrina dos que não querem fugir disso, enquanto vão embalando a alma nas recitações e encíclicas com títulos e nomes eternos. Tão antigos que muitos preferem deixar que se apaguem na manhã brilhante e nos raios de sol.
Nomes.
Tão primordiais. Muito antes da aurora dos Deuses e muito depois do crepúsculo distante, quando tudo ainda me parecia jovem e fresco.
Nomes ...
Tenebrae!
Doce, doce amante! Ainda mais antiga do que essa eternidade que tanto parecem desejar. Fiel compulsão cósmica de onde nasce a luz mas o regresso é marcado logo nos primeiros suspiros. Viajante imutável, proclamada no sussurrar - "Solve et coagula" - , amada geometria da entropia e sonhos profundos.
Umbra!
Antecâmara dos meus suspiros mais caprichosos. O distinto da minha reconciliação e pacificação antes da morte. Essa certeza, esse afirmar tão pessoal, arquétipo e emoção profunda, recordação a batimentos compassados no dormir mais solene.
Amo-te cegamente! Sem Ti estou incompleto. Em Ti bate a minha inevitabilidade e toda a minha luz. O Ego do meu orgulho e o repousar dos meus sonhos no Teu abraço e sono de esquecimento.
(Fleuma)