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"Yeah, you waited on Satan's call"
Ozzy Osbourne

É preciso não deixar que os ouvidos nos enganem enquanto caminhamos pela orla da floresta, onde a névoa da manhã repousa sossegadamente. O pensamento deve permanecer silencioso. A boca cerrada sem deixar entrar a aragem gelada do amanhecer. É apenas e só nos olhos que neste instante tão precoce e sumptuoso, fica a certeza de que este mundo existe envolto numa riqueza arrebatada e cósmica. O olhar é esse túnel de viagens distantes, essa lupa que acorrenta à nossa alma a visão daquele raio de luz solar madrugador, que perfura cirurgicamente a névoa entre a vegetação densa. Primeiro longo e estreito, fino como os fios dourados no pescoço dos amantes. Depois estica-se e parece conter a respiração, espesso, emaranhado numa luminosidade ancestral radiante e mal contida. O olhar acompanha a luz, agora um imenso e grosso braço que varre as copas das árvores, a humidade da atmosfera, esmorecendo o cinzento baço do nevoeiro, acordando a vida contida das aves adormecidas. Por instantes breves os olhos são a centelha divina que esquecemos, o nosso sangue afoga as agonias da existência e é quase possível escutar o Universo a respirar. Uma eternidade ténue no nosso tempo. Apenas assim se consegue manter a sanidade daqueles momentos de caminho.
Quando esse jorro de luz se afasta espalhando a claridade por todos os cantos, cerro os olhos em liquido transparente, forço a respiração para resgatar os batimentos do coração, guardando a canção deste testemunho de criação dos mitos que há muito assombram a minha alma.
(Fleuma)
"Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor."
Samuel Beckett
O "perdão" é o estado emocional mais extremo em mim. Nunca consegui compreender realmente este sentimento sem a violência de uma cedência pessoal, demasiado intima. Nem sequer pela virtude das religiões. Muito menos pela presunção de que sem perdoar tudo o que me resta é a vingança ou o rancor. Creio antes que se trata da assunção da nossa falta de perfeição. Creio que essa dificuldade com a noção de "perdão" é tão primária e visceral que perdoar se torna numa espécie da acto de auto mutilação pessoal, porque só deveria existir perante algo violento e arrasador para mim. E nunca será fácil perdoar esses instantes ou gestos. Não existe qualquer candura neste vergar pessoal e nesta concessão valiosa a outros. Um pedaço imensurável da minha confiança é devorado e sei que não a voltarei a recuperar. Estes são rigores de quem perdoa realmente e sem falhas. Fica essa compulsão de fragilidade que nunca consegui compreender porquê. Porque não apenas amansar o fardo e aceitar?
Custa.
É isto que custa. Substituir uma traição pelo "perdão" e restar o remorso do que vai desaparecer.
E sei também que me exponho ao "perdão" de alguns - a outra grande maioria nunca me importou. Esse esperar o "perdão de alguns" tem para mim o som dos tambores de guerra. Escuto-os sem falsas esperanças. Orgulho? Talvez. Ou então compreensão. Sei que tenho a necessidade de ser perdoado da mesma forma que devo perdoar. Essa é uma consequência minha que não deve ser culpa de ninguém. Apenas minha. Mas também sei que morrerei sem ser perdoado por alguns.
E sem perdoar.
Em minha defesa apenas posso descansar na gentileza do sabor dos que realmente me concederam o seu "perdão". São esses que me importam porque guardo em mim os seus pedaços como memórias e flagelos no meu orgulho. Estes sabem também o que lhes ofereci.
(Fleuma)

(LEE GRIGGS)
Tributo às Cinzas
Rasgou a sua própria Carne, lançou as sementes da Peste interna,
Assim vestiu essa sagrada Escritura de Flagelo e Cicatriz,
Acariciou a gangrena da Alma em Amargura,
Forjado na Decadência, alimentado no desastre,
Em Podridão, Devora Corrupção,
Alimento de Ruínas, Rastejando entre Abismos,
olha os céus Cinzentos em arrebatamento,
Com o Ardor da Cinza Engolida,
Arranca o olhar, afasta a Pele,
Enrola o Corpo numa escultura que respira, ensurdecedora ao toque
Um Chicote Pálido acusador, em vassalagem ao Declínio
O Arauto do Fim chega em Silêncio,
Revelado nos manuscritos do estremecer da História,
Novos templos erguidos por Si,
Com paredes pintadas de Sujo refinado, e tijolos enegrecidos pela Morte
Pavimentando a estrada com o esquecimento do Perdão,
Chega sem fanfarra,
As cinzas dos impérios debaixo dos Seus pés,
Os ossos dos que caíram, Esmagados em pó,
Unidos com a saliva dos Virtuosos,
Endurecido no ferver do fel dos homens Santos,
Mergulhado no Desconhecido,
Temperado na bruma dos fumos sulfurosos, vai sangrando entre as campas e as rochas
O Arauto do Fim chega com uma promessa,
Que o crente ardente deseje a mudança,
Ele irá espalhar a sua Luz e a sua Sombra,
Numa Terra árida, entre os destroços de uma Graça perdida,
Anima, quase morta de sede, em Cinzas dormente,
Estática, em inúteis confissões,
Sem Redenção.
(Fleuma)