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Por vezes lamento esta obsessão monolítica com tudo o que incorpora o meu fascínio por esse arquétipo de Sombras. Mas é apenas por vezes e esse lamento é breve como um suspiro de resignação. Não é um disfarce e não é uma personificação. É um espectro de alma - alguém escreveu num desses compêndios analíticos como um aviso para criaturas como eu. Tão próximas da entrega ao seu estertor obscuro.
(Fleuma)

Aquela beleza tão intensa por que se espera toda a vida e que nos arrasta para longe da margem da compreensão; essa cura aplicada sobre as feridas apenas sentidas. Esta ausência de Deus porque te tenho a Ti e ao teu respirar quente afagando o meu pescoço rígido; o teu sabor no meu e a escuridão que é nossa.
A noite é nossa.
Segredada no brilho dos nossos olhos abertos tornados jóias no silêncio. Este niilismo que deixo que me consuma e onde quero aniquilar o tempo pelo teu toque.
E onde tocas tudo explode!
Rebenta e floresce!
Ou então consome em brasa até ser cinza!
No nosso ofegar partilhado o meu desespero de uma vida que quer vida.
Tudo o que vejo em Ti e tudo o desejo possuir em Ti.
(Fleuma)

Reconheço a minha incapacidade de surpresa com os livros que se publicam nestes dias. Não me lembro das últimas páginas capazes de me espantar muito além daquele mero acenar da cabeça ou de uma satisfação arrefecida pelas repetições. Durante anos entre tantos livros, sempre a seguir um purgatório deslocado no tempo, apenas encontrando revelação numa espécie de "velha guarda" muitas vezes demasiado radical para estes tempos modernos, época que deveria ser a minha mas onde me sinto velho e deslocado, nunca deixei de procurar sem encontrar aquela ignição da alma que apenas certas palavras conseguem produzir em mim.
Até há poucas semanas.
Até "What the Silence Tried to Say " de Alira Sennel ter caído nas minhas mãos. Alguém que me conhece demasiado bem, deixou o livro em cima da mesa junto à cadeira onde gosto de me sentar antes de amanhecer, quando ainda faz muito frio e está escuro e onde gosto de beber o meu café silencioso. Bem no centro da mesa e meticulosamente alinhado com os meus pensamentos. O meu cinismo falou alto - mais um! Mas por ser quem é peguei nele e fiz o que sempre faço, cheirei o papel novo e a estrear nos meus dedos e pura e simplesmente comecei a ler. Não tinha sequer a intenção de escrever sobre isto. Raramente escrevo sobre um livro aqui ou noutros lugares, mas algo nestas páginas rasgou o cinismo e a dúvida em mim. Absorvi esta leitura numa manhã sem parar e ainda não consegui deixar de ruminar sobre isso. Porque sempre abominei os livros escritos com a intenção de motivar. Odeio-os! São inúteis e perversamente imbecis no que pretendem. "What the Silence Tried to Say " é um paradoxo em tudo o que tenho lido. Desconheço quem o escreveu e isso não importa porque é como se a conhecesse desde sempre, e nada absolutamente nada no que escreve visa motivar-me.
Não.
É algo mais visceral e violento.
Não acho sequer que o tenha lido realmente porque acordou memórias em mim, como se estivesse a ler a minha própria consciência sem se preocupar com factos ou razões, reflectindo uma imagem minha que insisto em esconder muito abaixo da superfície.
Não consigo olhar para estas páginas como um livro. Antes como um reflexo intimo que se recusa a provocar boas emoções em mim. Recusa e não me sinto confortável com isso porque consegue expor-me ao que tento evitar, esventra as minhas defesas e principalmente evoca instintos que ainda cintilam dentro da minha consciência. É estranhamente poético na forma como dispõe as minhas sombras mais adormecidas. Magoa como um golpe que rasga. E vai no entanto sarando ao mesmo tempo. Estranho e assustador. Não pretende sequer mostrar um caminho ou a solucionar com princípios imbecis de auto motivação e auto estima. Nada disso.
Obriga ao confronto pessoal. Ao reflexo olhos nos olhos. Eu e Eu. A procurar inflexões nos silêncios forçados que mantenho.
Não existem conselhos nem garantias de que tudo acabará bem.
É absurdamente realista porque reflecte a imagem do sufoco de tudo o que escondemos com as nossas máscaras.
"What the Silence Tried to Say " pontifica o silêncio com as minhas questões, as minhas hesitações e é neste pausar que algo se alterou em mim. Fui repetindo uma e outra vez a leitura das frases não por me sentir perdido mas porque poderiam ter sido escritas pelo meu punho - como se retalhadas da minha alma. É dolorosamente real para mim. Não me atira conselhos nem pontos de apoio mas algo muito maior. É um entoar intimo e muito escondido lido no silêncio mais absoluto que não responde, antes questiona e relembra o que sou e nunca deveria deixar de ser. E no entanto é neste silêncio que encontro o que este livro pretende, um espelhar de trauma enterrado que não insinua qualquer cura ou caminho a seguir. É tão aterrador o que um silêncio me pode oferecer! Acabamos por descobrir como se torna dolorosa a façanha de retirar a máscara e a decisão de permanecer em escuta o que diz a nossa própria consciência, sem conselhos ou luzes no fim do túnel.
Para mim não revela soluções. Antes portas de fuga e sobrevivência nas agonias pessoais que tento calar.
Não foi escrito para me pacificar com a ilusão de que tudo ficará bem.
Não ajuda a mastigar a minha comiseração mais profunda.
Magoa porque me despe dentro de mim mesmo.
É escrito como um espelho silencioso de realidade para quem deixou de acreditar em terapias.
(Fleuma)