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Essa é uma violência extrema e pessoal, quase a transbordar para aquela franja muito próxima da submissão absoluta. Essa incapacidade de reagir à violência do outro, começa sempre e sistematicamente na ausência de orgulho e amor por si próprio, no receio de uma reacção despoletar outra ainda mais violenta. E essa subjugação que envenena a auto estima durante anos nem sequer é um acto de amor pelo outro. Essa tolerância à violência de outra criatura é antes uma covardia contra a nossa própria pessoa, um ajoelhar a algo que assassina irremediavelmente o nosso orgulho pessoal e a capacidade de luta.
É nesse primeiro gesto brusco, naquelas primeiras palavras duras, naquele tolerar de ciúme que se associa ao amor que tudo começa. Essa capacidade de aceitar o primeiro bofetão, o silenciar perante o insulto e a imposição da lei do mais forte, sempre me foram estranhas e obscenas. Creio piamente que a minha crença no individualismo me tornou incapaz de aceitar a violência de outro. Mesmo quando pensava que o mundo iria desabar em cima de mim e já tinha aceite a minha solução final.
Ser amado não é aceitar o primeiro soco como algo que não voltará a suceder e como um gesto irreflectido ( palavra que me irrita solenemente! ).
Ser amado não é aceitar o primeiro insulto ou as primeiras palavras chave de uma tirania travestida na boa intenção de quem acha poder proteger-nos de nós próprios.
Ser amado não é ceder à ausência de algo tão precioso como o nosso orgulho e amor próprio, em nome de uma farsa banhada na tirania emocional de outra criatura asquerosa e apenas merecedora da nossa raiva e desprezo.
É isso que torna tão perigosas certas pessoas: preferem morrer de pancada a ceder um milímetro àquela mão, e recusam silenciar a sua raiva e ódio ao insulto por mais suave que seja.
E acredito piamente que é neste sentimento que realmente sabemos o que é verdadeiramente amar e ser amado.
(Fleuma)
“O que vale mais: realizar-se na ordem literária ou na ordem espiritual, ter talento ou força interior? Parece a segunda fórmula a preferível, pois mais rara e enriquecedora. O talento destina-se ao olvido, em contrapartida a força interior aumenta com os anos, podendo atingir o seu apogeu no momento em que a pessoa expira.”
( Emil Cioran )

Nunca teve essa percepção exacta da preciosidade que é a quase - morte dos que adormecem quando libertos das mãos da insónia. O escuro mais absoluto na ausência de combate ao cansaço. Esse bater lento do coração na rendição enquanto a mente ainda cintila labirintos e a alma repousa.
Dispersa.
Sem sonhos.
(Fleuma)

O primeiro artefacto encontrado pelos que se entregam ao encantamento de um silêncio isolado é esse apego ao calor humano. Não é um aconchego de quem estende os braços e anseia agarrar o mundo à volta. Esse é um calor que não aquece. Apenas alguns fenómenos que respiram conseguem quebrar estes silêncios com o seu calor, como fissuras por onde algo insiste em crescer e aceitar o som das palavras que sibilam.
São demasiadas as vezes que a porção mais preciosa e humana que o encantamento de um silêncio pode oferecer se espelha na combinação da solidão da floresta enevoada, onde cada sopro do vento parece carregar os suspiros do que lamentamos e pareceu esquecido, quando as paredes brancas se transformam em momentos de melancolia sossegada e abraço a uma certa escuridão, enquanto vai descobrindo a beleza que se esconde dentro dela. Esta emoção tão crua e desfigurada pelo apuramento dos sentidos, desperta uma crueldade interior carnívora e viciante, como uma membrana interna de salvação, mas é uma preciosidade oferecida em troca da raridade desse calor humano único. Inconfundível. Que tresanda ao odor de um porto de salvação no meio do caos silencioso.
É um presságio de vida humana que aquece sem incendiar mas que assombra as saudades e quase asfixia as certezas desse encantamento e silêncio isolado.
(Fleuma)