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Existe um preço para os momentos felizes, dizem; é preciso que continue a caminhada enquanto se calibram sentimentos e se adaptam as palavras. E afinal, reconheço que nada disso é verdade. Pior, nada disso interessa.

 

Reconheço também que existe, de maneira estranhamente visceral, quem consiga despertar em mim outros sonhos vistos por olhos que não apenas estes. Que a escuridão é tão obscenamente encantadora, tão gigante se propaga quando acompanhada por desejos íntimos de libertação e luz, que parece apenas ser posse de uma única pessoa.

 

Não sinto que seja louco. Ou então não muito mais louco do que antes. Mas este fogo inesquecível deixou de me atormentar os dias. As emoções reveladas a cru sempre foram as mais elásticas e difíceis de descrever, mas são um alimento tão portentoso de energia! Creio ser bem capaz de esmagar o universo em estilhas: pura e simplesmente porque o calor emanado é tão intenso; porque o meu lugar assenta junto a um sacrilégio esfomeado por mim. E eu tenho tanta e tanta ânsia. E tamanha é a fome dilaceradora.

 

 

Gostaria de escrever nas consciências o quanto me faz rir o sentimento de calor humano. Seria importante gravar a ferros que o vazio se torna imenso quando não existe o animal emocional; quando se perde o brilho de um olhar que nos despe e queima, imolando todas as certezas e definições.

 

 

 

 

 

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Eu já o sabia, sinceramente, mas por estes dias uma voz me confirmou:

 

" Não existe ressurreição! Desta vez, confirma-se! Ist tot!"

 

Remexer com as memórias é bastas vezes como o sinistro hábito dos que gostam de agarrar na roupa suja e sentir-lhe odores; revela-se um exercício maçador e inútil. Além de pateticamente semelhante a um bizarro fétiche de surdos tentando excitar-se com gemidos de prazer. Melhor seria não remexer o que não deveria ser remexido.

 

E no entanto ...

 

"Mas eu sempre disse que não existe ressurreição...", atirei  debilmente e sabendo como era fraca a afirmação. Rumino, amaldiçoando, entre dentes, a adorável criatura que alegremente acabara de escancarar a pequena porta do armário onde guardo rancores de purga e ódios de lamparina. Maldição!

 

Eu sou dos que acreditam em preferências pessoais. Devemos poder escolher. E eu, por exemplo, escolhi afastar-me das inutilidades que me rodeiam. Uma virtude desta escolha mora empoleirada no esquecimento e em certos casos, fico a pensar que essa inutilidade finalmente se desintegrou no pó dos dias; se remeteu ao silêncio da sua condição.

 

Claro que, por vezes, acabo por ser apanhado na desilusão e percebo que não se silenciara ainda. Que ainda restavam chispas de vida inútil. Embora fugaz, talvez por indelicada desatenção minha, havia suposta vida entre buracos existenciais. Dupla maldição!

 

Existe portanto quem escolha, porque tem esse privilégio, manter-se em vida artificial quando deveria escolher uma morte digna: não acreditando na ressurreição. A escolha seria a da procura do afastamento e silêncio absoluto. Aceitando o fim dos seus dias com um cêntimo de dignidade.

 

Permaneço céptico e de coração apertado. Apesar das boas noticias. Por muito que se alegrem os incautos prefiro esperar que o tempo me confirme a morte anunciada. Que, como me foi lembrado, ainda não se voltou a erguer o monumento aos temporais da vida. Pode ser que afinal, as estrelas se tenham alinhado, conjugando o momento perfeito para o fim de algo perfeitamente inútil para a humanidade.

 

Que o meu coração, sempre incrédulo, afaste esta nuvem de pó antigo que muito gosta de se

vestir de licença de nojo. Porque são muitas as vezes que um "até já " me irrita.

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 Eu

 

(999)

 

 

Ninguém na sua perfeita racionalidade deveria esperar retribuição de um olhar frio e distante. E portanto, existem os que persistem, teimosos de convicção. Incapazes eles próprios de aceitar o fracasso e suposta impossibilidade de transpor paredes e muros altos. Creio na minha incapacidade de partilha em larga escala. Não por arrogância  ou presunção Deus Ex Machina; é um facto penoso mas existe quem não consiga absorver tanta gente ao pé de si. Por absurdo que seja, consigo com dificuldade, reter um reduzido número de verdadeiros amigos. Impossível conceber rodeado de gente em festas. É sintomaticamente aterrador.

 

 

A palavra "amo-te", exprimida com brilho no olhar e por quem consegue descarregar doses letais de certeza emocional, funciona como a destruição do ferrolho; mesmo prevalecendo a minha noção do quanto distorcida e vulgarizada tem sido esta expressão. Ainda que insista no questionar da sua importância, alguém persiste e afirma claramente a noção de excepção que confirma a regra.

 

Eu nunca imaginei qualquer tipo de imunidade a ser amado. Sei por análise frequente que existe uma dualidade na primeira observação de quem me encontra. Uma nuvem de incerteza muitas vezes extremamente visível; e receio, que acredito ser causado pelo aspecto físico. Não me parece que haja um meio-termo ou outra possível comparação. A minha irritação inicial pelo facto desta reacção ser tão estupidamente comum foi sendo progressivamente substituída por um certo divertimento pessoal; é fácil despertar comportamentos embaraçados a quem receia ou está incerto. Basta que mostre de forma bastante suave os dentes num sorriso afável. Observam que afinal, as presas do urso até parecem inofensivas e se calhar houve precipitação. Mesmo desconhecendo que sou criatura apaixonada pelas artes da mordidela dada e principalmente recebida.

 

Por um qualquer desvairo existencial, entre tantos "amo-te" atirados ao vento de forma banal e absolutamente asquerosa, existe um, segredado nas horas mais escuras, quando o pensamento se tornou numa massa turva e nebulosa, que possui alquimia de salvação.

 

Alguém insistiu.

 

Falta agora que me habitue a aceitar uma derrota.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 Sou uma criatura absolutamente convicta da importância dos sentidos. Quanto mais eu conheço pessoas mais me deprimo pela perda de uma faculdade como a observação, o cheiro, ouvir e o saborear. Abusa-se do toque. Apenas isso.

 

Creio ser irritantemente observador. Pequenos pormenores, tantas vezes executados todos os dias, são uma fonte de precisão matemática para os meus olhos. Gestos e expressões executados sem pensamento revestem-se de preciosidades paradigmáticas para vampiros observadores.

 

O erguer de um corpo do outro lado da cama banhado pela luz exterior dos dias cinzentos; as mãos delicadas levadas atrás apanham os cabelos longos e fartos, como se propositado para que as costas sejam admiradas em todas a suas saliências que se precipitam numa cintura assassina; antes de se erguer da cama, sempre e invariavelmente sem ruído porque criaturas existem que são panteras em excelência, provoca o espasmo de adrenalina máximo, rodando o pescoço branco e esguio, emitindo estalidos apenas escutados por ouvidos privilegiados. Nada se compara a este momento. Eu não teria remorsos e mataria por este momento apenas.

 

Tudo se revela compulsivo para os meus olhos admirados. A capacidade felina de movimento sem ruídos desnecessários, como se o chão não fosse seu. O cheiro a ervas nórdicas que resistentes crescem entre os blocos de gelo e que lembram os raros dias de sol, emana do cabelo lavado, provoca um ardor requintado nas narinas. Existem personificações que muito bem poderiam justificar existências onde a criação de mitos foi beber inspiração. Equinócios de energia bruta e perfeitamente capazes de ferir bestas rudes como eu.

 

Os esboços criados por criaturas passionalmente vorazes por atmosferas, experimentados na alquimia de fogo primário e franjas normalmente ignoradas pelo olhar comum, não conseguem prevenir o portento de observar na distância de um braço esticado, um corpo absurdamente ágil apanhando um copo de vidro em pleno ar e antes que este rebente em mil farpas no chão, sem que uma pinga de líquido precioso se derrame; que termine este rasgar de sentidos com o respectivo depositar do objecto em cima da mesa, de novo, com um ínfimo som, enquanto vai inconscientemente, atirando um grosso fio de cabelo para a nuca. Neste preciso momento, orgástico e aterrador para criaturas de sentidos apurados, as leis da física são ao mais baixo possível. Zero absoluto. Um fluir estético e inconsciente desta envergadura carboniza de maneira impiedosa qualquer outra forma de arte dançante. É como se eu fosse um grande urso impotente perante a destreza desmoralizante de uma pantera que se revela desconhecedora do martírio causado nos meus sentidos.

 

Uma arte aprimorada por quem não tenta destruir muros forjados na solidão e desconfiança de anos. Antes prefere saltar por cima destes. Que conhece a cor do individualista e mesmo assim prefere vestir as minhas camisolas, tirando prazer em sentir nelas o meu cheiro. Uma absoluta invasora que sistematicamente usa os meus óculos escuros preferidos, troca o borrifo do seu perfume pelo meu e impunemente prefere beber pelo meu copo e comer do meu prato, enquanto se senta em cima das minhas pernas.

 

São demasiadas as vezes que recolho as minhas mãos, acho-as demasiado grandes e agressivas, escondo braços grossos e densos, tremendo no receio de quebrar uma preciosidade única. Sei não existir outra assim no mundo. E eu não tenho espaço para muito mais.

 

 

 

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" The litle shadow of you ..."

 

 (999)

 

 

Não concedo a mim mesmo aceitar a transformação forçada pela existência de outra criatura que se converteu numa chama demasiado brilhante. Recuso-me a aceitar a minha incapacidade de poder sonhar com um futuro sem que toda a soma e diminuição envolva o respirar com ela; que se tornem amargos todos os dias de viagem outrora solitária, perdidos nesta fome estranha e debilitante.

 

Todos os dias são de batalha contra este fogo lento. Questiono como foi possível permitir este assombrar por quem se veste de fragilidades? Como pode o que é rochoso evaporar-se ao riso branco e cristalino. Onde reside realmente o propósito de me render a esta devastação? Que incapacidade humilhante é esta de resistir a uma sensualidade tão carnívora e real? Como se podem baixar os braços sem questionar? Como se já a esperasse há muito tempo.

 

Quando não somos nós a encontrar mas a ser encontrados tudo se transforma em sentimentos pardos. A língua que toca na face é a demonstração cabal de uma animalidade intrínseca que se revela mais uma das suas artes escondidas. As mãos suaves, desmedidamente suaves, tantas vezes conseguem espairecer o fluxo sanguíneo de um corpo sistematicamente tenso, pressionando o pescoço rígido, descomprimindo a alma; relembrando-me com uma mestria absurda que também existe em mim ossos e carne.

 

Existe uma persistente analogia que perfura sem retiro a minha consciência desde os primeiros momentos em que estou acordado até aos últimos segundos antes de adormecer. Estranhamente, reduz a nada tudo o que aparece cantado por bardos e poetas. Não cheira a rosas ou traz consigo o amanhecer dos recantos amorosos. Tem a potência de um manifesto venenoso para criaturas como eu. Uma necessidade de repetição; como um último desejo antes da morte. Torna-se absolutamente essencial que volte a escutar uma única voz. Uma gargalhada que consegue dissolver ácido e ódio. Um círculo de braços em volta do meu pescoço enorme, pernas cercando a minha cintura, seios contra as minhas costas e um perfumado respirar na minha nuca, enquanto carrego o seu peso de anjo: para que os seus pés não percam o calor no chão gelado. Porque as minhas botas são sempre mais pesadas e grossas do que as suas.

 

Recuso aceitar uma criatura que me salva pela mera força de existir. Não aceito que seja tão ténue a linha do prazer e dor. Recuso a vitalidade que devolve ao que perco. E no entanto, eu sei que tenho mais do que mereço. E alguém sabe, advinha, como bate a minha alma. Sabe que daria a minha miserável existência por ela. Nada tem de dramático ou romântico, esta morte. Seria apenas a mais valiosa oferta  da minha posse.

 

E seria pouco. Nada.

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Parafraseando a insanável Isa, vou "ahahahahazar",

 

"AHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!"

 

 

 Como óbvio se torna, venero este senhor.

 

De alguma maneira consegue desestabilizar-me ...

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(999)

 

 

A redenção tem um preço. Escorre com um sabor acre. A mim sempre me pareceu. Só os conscientes do naufrágio procuram a redenção, como se de uma amante infiel se tratasse. Vamos desfiando os dias no falso sossego da salvação; talvez dentro de horas anoiteça e consigamos dormir.

 

Sono.

O verdadeiro pathos para a redenção. Ironicamente, dormir é rendição. Redimir sem batalhar. Nem sequer será o afago terno do abraço transformado em caricia. É não lutar. É descansar. Dormir.

 

Eu tenho visto tentativas de redenção em poucos rostos. Mentiria se afirmasse acreditar nas faces que sorriem, tentado a salvação. É meu descrédito, mas quem respira uma vontade de redenção não consegue sorrir. Sei antes que vamos apodrecendo um pouco mais em cada tentativa. Temo que um sorriso se revelaria demasiado penoso pela consequência.

 

Não tenho a certeza mas numa espécie de arremesso deixei de procurar a redenção nas cápsulas e pequenas substâncias redondas como ilusões de esperança, e reconheci a necessidade de vagar sem a doce certeza de que o que foi deixado seria sempre uma garantia de pacificação. Sintética juíza da minha incapacidade de salvação.

 

Estranhamente, não existe deus na redenção. Apenas uma monstruosa noção de vazio e da sua necessidade de preenchimento. Um brilho intenso nos olhos como numa permanente vontade de devorar. E uma certeza, clara como uma manhã de verão, de que não existe uma cura. Apenas se vive entre mundos.

 

Nós, procurando um redimir, vamos pontuado o nosso corpo com cicatrizes e imagens, numa vertigem quase messiânica de aviso e arrependimento. Dolorosamente convencidos dos traços deixados transformados em cinzas.

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(999)

 

 

A martelada final, a que é dada em excesso e sem necessidade de ser executada porque inevitavelmente irá destroçar a madeira, é sempre desferida pela pequena criatura compacta. O golpe é sempre aplicado depois de muitas outras criaturas; serve apenas para tentar demonstrar que está viva e desesperada por atenção.

 

A criatura pequena envolta em maneirismos compactos absorve o pó das atmosferas alheias. Sem vergonha, imita. Clonando palavras e gestos desfeitos na acidez de um temperamento misturado. Impuro. Regressa quando os outros, seus espelhos distantes, já se afastam. Mendiga sem compreender que os outros já são ricos.

 

Ao que se transformou não aceita e permanece de joelhos, inculta aos ferimentos e cega ao seu próprio adormecimento. Os fenómenos, acampados pelas monções, que lhe fustigam as ideias, são sempre expostos até ao nojo absolutista; oscila pela corrente de uma maré que não entende. Se é necessário fornecer o rebanho com as armas de guerra assim será feito. Se rasgar todas as normas biológicas for a nova paranóia e propagar a existência de um número infindável de termos absurdos, segue em fila e disposta a cumprir. Se usar a a cor da pele como artefacto para justificar uma imbecil noção de privilégio e ilusório domínio vier dar ao seu consciente retardado, depressa será exposto. Por imitação de macaco porco e idiota.

 

Mas o que mais me fascina de maneira tristemente decadente é a execução sobriamente técnica do compactar destas criaturas. Injectam em si próprias, qual escorpião estropiando-se para morrer, o sinistro soro que dissemina o erro do pensamento: compreendem política, filosofam noções e mistérios existenciais sem alguma vez destilarem a constatação de que todos possuem opiniões, mas a matraca deve ser fechada porque raramente são merecedores de verdadeira atenção. 

 

É o compacto passivo que prova o caviar e afirma adorar pensando nos ovos salgados com nojo. Na atitude prepotente e ameaçadora da outrora querida que descarrega a crescente menopausa em mais uma imagem de aplauso na rede social. Na obscenidade compacta, gorda e arruaceira, colada ao sofá de pele borrifando insultos a bonecos que correm atrás de uma bola.

 

É o compacto que na derrota profere abortos na forma de escrita e assume conhecimento. Que na maior das desonras fala sobre o que nunca entendeu para quem assiste. Como se imitar e clonar fossem atributos a justificar a tirania de idiotice.

 

 

 

 

 

 

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(The Principle of Evil Made Flesh)

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