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... para ti.

Hoje choveu durante toda a noite. Ríspido e arrogantemente, choveu neve. Hoje, até o vento foi mais violento e inquieto na voz, insistindo na presença sibilante das minhas insónias.

E hoje alguém me falou de saudades. Alguém me chamou para dizer que tinha saudades de mim. Assim, sem me avisar - sentiu a minha falta. Esta coisa estranha emaranhada na minha insónia, este simples artefacto transformado em algo que consegue preencher outros vazios. Algo quase desconhecido para mim que sei  despertar essa saudade apenas a alguns. E no entanto, longe destes, bem mais distante de mim, traçado por dias passados, alguém reteve algo de mim, uma lembrança que deixou poisar uma saudade e uma falta.

Estranho. 

Porque acabou por acordar uma saborosa nostalgia passada. Estranho. Esse sereno apertar de memórias que se consuma numa vontade de regresso e voltar a encontrar outro. Estranho, porque nem sempre os limites pertencem aos mais próximos de nós, os que nos acompanham todos os dias. 

Senti a fraqueza que parece consumir a minha respiração quando algo semelhante a um rasgo de felicidade cintila.

Mesmo com a chuva de neve e o vento agreste consegui deixar entrar a saudade de outro.

Adormeci muito antes de amanhecer. O sono foi de horas. Solto. Livre.

(Fleuma)

 

É amargo o sabor que permanece quando alguém se despede com as palavras " vou para casa", e acabamos por descobrir que nunca mais voltam para nós. Quando descobrimos que afinal esse "vou para casa" é um fim total, o testemunho de um Nada tão vazio como inundado pela desilusão. 

Somos cegos ao ponto de uma ignorância estúpida - esta é uma primeira chicotada para nós, os que ainda permanecem no caminho de casa. Depois? Muitas outras vergastadas, cada fustigar um novo corte para relembrar, cada recordação, uma  nova forma de punição que sabemos, é merecida. Não existe maior inferno do que aquele que nos revela em carne crua e sem piedade, a nossa mais estúpida e profunda cegueira perante o que está em rota de colisão com a nossa própria face.

Este "vou para casa" sem um regresso nunca me consolou como despedida, sempre serviu apenas para retalhar em culpas e remorsos escuros. Sempre envenenou os meus sentidos com aquele ódio cego e intolerante a todas as tentativas de sossego pessoal, a qualquer ideia, por mais distante que seja, de consolo sem culpa. Como se neste "vou para casa" houvesse aquele suspirar irónico perante uma piada sem graça. Talvez fosse bem melhor aceitar que foi uma decisão forjada nas minhas costas por quem também já se afogava e decidiu não resistir. 

Pura e simplesmente isto. 

Pura e simplesmente a maior libertação que raramente conseguimos vislumbrar. Apenas quando é tarde de mais. 

O inferno é exatamente o nosso. Pessoal. Criado pela nossa vontade de manter vivo,  a cintilar como um pequeno verme, que com o assobiar dos anos, vai consumindo e crescendo como um colosso, nunca desaparecendo realmente. Está presente nas manhãs mais claras e de brisa suave; naquelas tardes, entre tragos de café negro e na memória do primeiro sabor de uma bolacha com morango e canela; e nas noites, principalmente na insónia mais perene, quando a solidão nos esbofeteia a arrogância e a cegueira. 

Este "vou para casa"é uma chave que abre a porta para uma saudade dolorosa e uma nostalgia invencível. 

Tudo, rigorosamente tudo, se esfuma neste ódio intimo em frente a este espelho de mim próprio. A esta falta de vontade de aceitar onde falhei.

(Fleuma!)

 

A viagem pode ser interminável para o viajante insaciável, mesmo neste mundo onde tudo parece ligado; onde todos parecem pensar no mesmo; todos parecem querer seguir pelos mesmos caminhos. E onde as distâncias parecem atemorizar muito mais do que resplandecer o sentimento de liberdade.

Alguns. Uns poucos. Seguem sempre mais longe.

Não é sequer um sentimento de lobo solitário. Não, claro que não. Nada tem de romântica esta necessidade de viajar muito mais longe. O poeta que anseia pela descrição do viajar raramente conhece o Viajante, porque nem sempre lhe reconhece aquele odor de loucura a vaguear, ali, um pouco mais abaixo da margem que se avista. Não consegue realmente descrever a surdina do pensamento dos que sistematicamente se recusam a aceitar a pacatez dessa imobilidade, que muitos reclamam como felicidade e vida. É como uma fome incandescente que devora o espaço. As horas e os dias.

Eu partiria contigo muito antes do sol nascer. Quando a noite ainda segredava outros encantos. Como gosto de o fazer. Desde que me recordo de mim como criatura caminhante que anseio por começar a Viagem antes da luz do sol.

Partilharíamos as estradas e as montanhas como dois companheiros incansáveis. Os nossos olhos seriam os espelhos da nossa própria salvação. A neve dessas encostas a nossa amante possessiva com o beijo gelado dos ventos a sussurrar sobre outras encostas e outras escarpas.

Caminharíamos pelo calor com panos na cabeça e a face tapada. E sei que esses olhos iriam cintilar com as tempestades de areia.

Mergulharíamos nos mares gelados do Norte até conseguires tocar, nadar, deslumbrada, entre os seus grandes fjords num silêncio astral. Nunca mais desejarias voltar a olhar para trás. 

Saberias de Runas e conhecerias os teus próprios passos na Grande Floresta. Onde viaja o corvo da montanha. Porque somos criaturas desmedidamente pequenas a construir Grandes Muralhas, apenas para manter aceso o sonho de grandeza.

Conhecerias os Meus. Os Meus Salvadores. Provarias do vinho do Seu Orgulho. Do Seu Rir. Da Sua Força tão imensa. Cantarias as Nossas Canções junto ao grande Fogo. Dançarias nas brumas enquanto os céus se queimam nas auroras. Brindarias entre Amigos. Irias rir e chorar porque nada se compara a estas preciosidades únicas e tão distantes da tua vida agora.

E sei que quando voltasses aos teus dias de agora saberias porque sempre te falo de Saudade e Nostalgia. 

Sei que os teus olhos iriam brilhar distantes. 

Que irias traçar lembranças a negro no teu corpo, num recordar que apenas sossega quando se despe, e pelo olhar sereno e intimo, pela ponta de um dedo que segue por esses esquissos, afoga um pouco a 

vontade de voltar a partir para junto Deles.

E nunca mais regressar.

(Fleuma,)

"Valhöll"

É uma forma de redenção entender, finalmente, a voz que murmurava esta melodia nas noites em que a cama era um labirinto sem saída.

Compreender, finalmente, esse rosto,

e esse amor.

Sou um fantasma.

Este tempo não é o meu.

"Só é saudável em nós aquilo pelo qual não somos especificamente nós mesmos: são as nossas aversões que nos individualizam; as nossas tristezas que nos concedem um nome; as nossas perdas que nos fazem possuidores do nosso Eu. Só somos nós mesmos pela soma dos nossos fracassos.“

—  Emil Mihai Cioran (Breviário de Decomposição)


A consciência da escuridão,

Os traços que deixamos são o nosso único consolo perante a falta de eternidade, uma espécie de febre sem idade que alimenta muitas vezes a esperança na ausência, um templo de abrigo nos dias mais dolorosos. 

São sinais de passagem. Um argumento nosso para justificar algo breve que cruzou o nosso caminho. Uma artimanha que justifique a morte. O fim. E para que consiga dominar a insanidade de um absoluto "Nada", preciso de traços que foram deixados em mim. 

Porque é raro em mim, o som do sorriso de outra criatura tem o prodígio de uma lei matemática, um paradoxo que encerra algo estranhamente precioso. A virtude dos que libertam um riso com aquela facilidade que humilha uma certa melancolia, fica, sistematicamente, agarrada à minha memória como se fosse uma cruel piada à minha falta de humor. Mas talvez se trate de uma redenção minha, porque lhe conheço todos os sabores, todas as suas tonalidades, o assombro do seu ópio. O som de um sorriso suave, quase invisível, mas onde os olhos brilham numa cosmologia própria, e é apenas traído por leves rugas de expressão no canto dos lábios, é um traço que nunca me abandonará. É um som etéreo que assombra os sentidos e as noites de insónia.

Se calhar tão etéreo e assombroso como oferecer o peito ao consolo de um rosto em lágrimas no preciso instante em que o silêncio pesa uma galáxia.

E talvez eu não consiga sorrir com aquela suavidade que me deixa em reverência.

Mas sei algo sobre a tristeza de um rosto encostado ao peito.

Fleuma,

 

 

Assim como o Outono chama ...

999

A verdadeira razão porque tento manter, nos raros momentos onde tudo o que ocupa os meus últimos instantes de insónia em estilhaços, é alguma consciência racional e puramente egoísta. São aqueles minutos sagrados para mim. Um estado onde tento que se conservem as reservas finais de energia física. É uma pequena maquinação mental - o derradeiro toque enquanto me sento na mesa com a última chávena de café, junto à janela aberta no primeiro raiar do dia, no que seria a mais absoluta escuridão, não fosse pela meia-luz, onde consigo ler. Um encerrar voluntário num silêncio quase palpável. Nestes minutos finais, no local onde me encontro, porque tenho o privilégio de invocar este silenciar, leio num estranho turbilhão. Umas vezes uns outras vezes outros.

Por vezes bebo das tuas palavras.

Alguns estranham esta rotina que tenho. Quando consigo descansar. 

Mas preciso desta obscuridade e silêncio. Este forçar, ao terminar de tantas horas acordado, de um último canto de cisne que pode passar perfeitamente por ler uns e outros. Por ler-te, entre pequenos tragos de café. Por insistir demasiadas vezes, que mesmo o que muitas vezes jorra de ti em estado obscuro, ainda assim consegue ser o mais próximo para mim de uma canção da manhã tantas vezes proclamada por bardos e outras lendas.

Reconheço-te essa fascinante obscuridade. Mesmo se as tuas sombras não são as minhas. Acho que as tuas sabem bem menos a condenação - bem mais a uma redenção que pareces ter atingido.

Invejo-te, sabes?

Sou egoísta porque insisto em vampirizar a energia vital de uma certa escrita que pulsa sem corrupção do teu pensamento, nestes instantes finais, antes de me render ao silêncio que alguns chamam  sepulcral e a um escuro pacificador. Consigo caminhar ao teu lado sem que me pressintas porque afinal esta é uma arte minha. 

Comungar contigo sobre fantasmas. As minhas sombras. A tua sombreada sobriedade a encher labirintos.

Dédalo orgulhoso.

Fleuma,

Hoje, dorme serena.

Fecha os olhos.

Sossega.

Hoje não existem monstros.






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