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Cada noite passada contigo justifica a minha necessidade de solidão. Justifica que me afaste de todas as outras criaturas e permaneça apenas contigo e por ti. É quase uma pulsão para devorar a minha carne e não ficar louco. Maníaco. Porque nada do que me fazes justifica esta solidão. Antes conspira para engolir este quarto. Sem remorsos ou justificações. Retorno do fundo do poço enquanto vejo as folhas secas que se arrastam na superfície, enquanto adormeço uma e outra vez. E em cada toque teu eu procuro desesperadamente algo que me possa mutilar porque só assim consigo compensar a nossa distância tão tragicamente cósmica. Apenas desta maneira consigo que a dor se torne igualmente cruel. Talvez até consiga preencher o vazio que fica e sempre me corrói. Noites em que duas vidas se fundem e me fazem descobrir o quanto estranho sou à minha própria carne. Onde não existe um lar ou uma chama que me abrigue da tua partida.

 

 

 

 

Como se já não tivéssemos a noção do que significa perder. A grande ironia que é questionar e indagar sobre uma

verdade única e descobrir  que não existe. E que após esta conclusão nada melhora. Piora.

Recuso-me ao falso odor da santidade. Não aceito que nada disto seja mais do que um jogo de dados com o destino. Uma predisposição em que não acredito. Porque não aceito e não quero! E pelo menos ainda retenho dignidade para me levantar todos os dias. Como é possível que assim não seja? Ou isto ou a aceitação de uma vida como tantas outras: a unir os pontos preenchendo um padrão definido. Talvez por isto, alguns de nós prefiram os ganchos na carne das costas. Um meio de sentir algo. Antes desta maneira, creio. Afinal, marcho num mundo dos que se auto crucificam falhando a árvore perfeita. Dos que arrancam o olho errado e dizem escutar o assobio do fogo eterno.

Como se tudo fosse ficar certo e justo um destes dias. Como se os sonhos fossem uma realidade um dia destes. Acreditando em deuses solenemente aborrecidos, com dedos em formigueiro e disposição de nos retirar do universo. Como se alguma vez fosse possível dormir em paz entre destroços queimados!

Como se, caminhando como vagabundos embriagados entre montanhas, nos tornasse melhores. Entre purgatórios escritos em latim.

Como se isto fosse muito mais do que é. Uma pequena nota escrita na margem de uma existência insignificante.

 

Escuro,

 

Quando se torna mais fácil aceitar a minha própria natureza. Antes direi, a minha própria forma de existir. Há muito adormecido por falsas afirmações, acordado perante vozes que de tão raras serem se tornam pequenos rastos feitos por estilhaços e cuja a única função reside no meu despertar. E do que falo eu? Pouco sei. Pelo menos algo muito para além do último trago de álcool ou muito mais distante da nuvem de fumo do cigarro apagado a meio.

 

Sei que a prostração é a maior causa e consequência dos meus humores pelo absolutismo ( tirano e exigente, sei-o..) da escuridão. E não peço desculpa ou absolvição a quem seja por sistematicamente insistir nesta palavra: escuridão. Porque cheguei aquela encruzilhada onde nada resta a não ser um olhar ou outro. A vossa luz ou a minha escuridão de sombras que apenas "vê" salvação muito longe. 

 

Gosto de me sentar em frente a ela e ficar em silêncio. Mas, de forma progressiva e à medida que executo este ritual, vou percebendo como este silêncio me corrói a como a deixa triste. Até porque só as mãos cruzadas e os olhos que se fitam já não chega. As separações são cada vez mais dolorosas, as saudades dos ventos do norte e os passeios pela floresta consomem a minha alma de uma forma absolutamente trágica. Substituo tudo pela indiferença até voltar a ela.

Eu insisto  e confirmo em cada dia destes que não faço parte desta terra. Deste mundo sequer. Sei que não morrerei aqui. Sei.

 

 " The children build coffins
With hammers and nails
They don't build ships
They have no use for sails"

D:VS

Uma triste conclusão que todos os dias se revela na minha vida é que me sinto mais vivo no mar do que em terra. Não me iludo, claro. Viajar por terra e pousar os pés pela primeira vez em solos desconhecidos, respirar o ar e tentar absorver o que me rodeia é algo absolutamente primordial e onde assento muitos dos meus sonhos. Porém, nadar abaixo da superfície é um catalisador de existência que me consome todos os dias. E quando não consigo nadar, contactar com a água, torna-se punitivo e desgastante. Porque nada se pode comparar à viagem interna que me percorre quando deslizo debaixo da água. Nadar no meio do gelo grosso e denso, onde por vezes a luz apenas entra de forma tímida e a escuridão se torna tão intensamente senhora que mais não se pode fazer do que deixar que nos abrace. Porque já me disseram, sei que os meus olhos se tornam imensos pelo assombro e são muitas as vezes que deixo outros em aflição porque deixam de me ver ou ouvir no meio do gelo escuro. Sei que se torna difícil entender, sei que sim. Mas para mim, bem cá dentro, consigo sentir-me vivo e como fácil será se um dia quiser deixar-me levar por uma verdadeira mãe. Uma euforia desmedida e a sensação de pertença tão pulsante deixa-me quase indefeso. Mesmo sabendo que aquela escuridão e aquele gelo poderiam ser o meu mundo. Poderiam. E quando subo à superficie, enquanto os outros riem e se alegram eu executo um mecanismo que durante anos desenvolvi: controlo os tremores que me percorrem o corpo de cima a baixo. Cerro os dentes e só quem muito bem me conhece é que consegue observar a minha luta para não tremer convulsivamente. Só não consigo controlar o olhar, que se desloca de lado para outro e a face que estremece de forma quase imperceptível. Porque me sinto orfão e tivesse sido afastado à força de onde pertenço.

 "The river only brings poison
The well brings nothing but tears
Nothingness becomes the shadow
The shadow turns into me ..."

D:VS

Afogam-me, aquelas histórias que não são contadas aos sete ventos. E tantas são as criaturas que caminham em dois pés, com histórias para contar! Por vezes tudo o que fazem é travar uma constante guerra contra o sufoco, para respirarem mais um dia ... O meu fascínio mais secreto reside em tentar vislumbrar as marcas que verdades não ditas, gritos amordaçados e presos para sempre, deixam na alma. Para lá dos muros do dia a dia, alem das simulações ficam os tons suaves  de certas ruínas que, por bizarro que seja, ainda resistem e funcionam.

Somehow, i have learned that some friendships in DARKNESS will never ever die!!




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