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999

 

...

 

Nada se revela de maior perfeição do que um restrito círculo de amigos. Um pequeno anel de cúmplices de todas e nenhumas horas. Companhia por caminhos estreitos e onde é a noite a verdadeira mãe. E mesmo ainda, companhia, quando brilham as luzes reverentes ao acordar de mais uma passagem de Hypnos.

 

A raiz da minha descrença na ideia de uma verdadeira felicidade apenas atingida pelo calor de muitas amizades nasceu do egoísmo. Sou um egoísta que aprimorou a solidão como fonte de inspiração a prosseguir a minha vontade. Os que sempre me chamaram arrogante e presunçoso desconhecem a minha indiferença e um facto absoluto: a solidão encadeia os sentidos do solitário e permite realmente desfrutar, saciando a sede, dos verdadeiros amigos. Reconhecer um entre centenas é uma alquimia rara e apenas concedida ao solitário penitente.

 

São imensas as criaturas que desdenham desta noção que estabelece as amizades restritas. Como se este mundo fosse um imenso circo onde se pensa, pateticamente, abrir os braços ao mundo com dezenas de amigos porque tudo se liga e relaciona na sacrossanta rede social. Santa ignorância! Como se fosse apenas isto o necessário. Um gosto na fotografia é coisa para ter muitos amigos.

 

Quantas serão as almas deste mundo que retendo em si mesmas a ilusão de muitas amizades, conseguem sentar-se frente a frente com alguns destes? Falar olhos com olhos. Sentir a solidão esvair-se graciosamente pela força do riso de quem nos acha demasiado sérios.

 

Um pequeno anel de amigos e amados. De viajantes embalados na cumplicidade de emoções e desejos.

 

Tudo o resto se revela sistematicamente de uma inutilidade medíocre e sem necessidade de um segundo olhar.

 

 

 

Poland 2017.

 

 

Thank you! We will never forget.

 

Until next time.

 

 

Besiege the thrones of reverence!

 " Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. ", Emil Cioran

 

(999)

 

Mil palavras não seriam  suficientes para o descrever. Talvez a viagem apressada do sangue pelo corpo seja um pálido reflexo. Talvez o medo de esmagamento. Talvez o incessante pensamento a martelar - que a manhã se encaminha e o esforço da noite findará - seja o suficiente para aceitar o descanso.

 

O que é este sentimento de gigante que sinto? Esta profana noção de força bruta assusta-me. Tentar significados quando se superam fraquezas não tem descrição. E mesmo a lógica mais fria não comanda o conforto da negação ao que foi antes vaticinado. Não se explica. Sente-se nas piores tormentas. É pele que não se veste como galhardo esforço para aparência. É carne temida pela mácula dos frutos que para ti, ele, ela e eles, geraram uma capacidade quase surreal de forçar uma força que nunca serão capazes de sonhar.

 

Mil palavras não descrevem as mãos gretadas pelo atrito no ferro. Como se tornam grandes para não deixar fugir o momento em que finalmente aquele peso, antes miragem de espantos, se eleva do solo. O sangue que escorre entre as narinas quando as costas lutam com o peso e a gravidade. E alguém consegue sequer vislumbrar  o êxtase de passar a língua por esse sangue que escorre quando  nos gritam, entre a névoa da dissipação mental, quase de mãos dadas com o desfalecimento: " - Conseguiste!! "

 

... Uma vez mais.

 

Já me foi afirmado que certas tentativas de superação são perfeita loucura e caminho para um fim rápido. Uma grande maioria.

 

Outros, poucos, quase irmãos, sabem do segredo religioso. O delírio que enche o corpo e a mente. O triunfo de uma dor partilhada por ombros, peito, costas e pernas em fogo. Alquimia de espessura muscular que cria gigantes ...

 

 

 

 

Deveria recordar-te que nada em mim será capaz de te magoar? Que os pressentimentos e agoiros que vês agora talhados no meu corpo, são memórias extraídas dos dias que testemunhaste. Então porque razão estremeces quando me dispo e me olhas? Que perante ti não existem campos de raiva ou guerra. Que quero a possibilidade dessa salvação.

 

Quantas vezes cerrei os olhos para que se apague o brilho que neles dança quando te toco? Baixei as mãos em rendição e abri as portas para além dos muros. Em quantas noites tem sido calada a ânsia entre as sombras do regresso e saudade? Quando a expressão dos teus suspiros me sussurram feitiços e mantras de encantar.

 

Serei capaz de te demonstrar uma e outra vez que rugosidade e densidade serão a companhia perfeita para os teus olhos e neblinas. Que estremeças apenas por saber que o animal se encontra tranquilo por ti.

 

E dorme.

 

 

 

 

" Devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles, o resto de nós não seria bem sucedido.", Mark Twain

 

 

 

 

O que é mais importante? Ser o mensageiro portador das más noticias e do aquilatar sincero de certas incapacidades que muitos julgam ser suas benignas qualidades; porque afinal é de seres benignos que se orgulham de existir que pura e simplesmente se trata. Não é?...

 

Posso escrever estas palavras com todo o desplante que me apetecer, já que de mim não se rezam exemplos pela positiva. Nem caminhos a percorrer sem o perigo de ceder às tentações menos comuns. Tem as suas vantagens, claro. Porque o muro mais sujo e escuro não interessa, liberta sempre margem para poder observar e aceitar o negativismo alheio com o maior  sossego e por razões de lógica fria, quem está habituado aos disparates dos seres benignos depressa se mune dos anticorpos necessários para aguentar as suas ilusões. Coisa que não parece ser propriedade no sentido inverso.

 

Veja-se uma má noticia e um aquilatar sincero quando se pensava que em certas pessoas, que se orgulham de existir mas sempre na mesma predominância janota, lhes é explicado de forma muitas vezes tácita mas firme e convicta, que são estúpidas. E se recusam a um pequeno vislumbre que seja sobre a possibilidade, por mais longínqua que pareça, de que por norma não se é perfeito coisa alguma! Que de forma implacável e absolutamente necessária é esforço meritório combater estes ventos bucólicos que sempre cozinham a ideia de uma estupidez que não se deve combater a todos os instantes.

 

Por muito que se açoite o mensageiro porque infelizmente apenas acende as luzes para o lado mais frágil mas sempre muito afagado pelo pedantismo do "és um convencido! Não tens defeitos?", a verdade é que existe quem já esteja perfeitamente em paz com as suas incapacidade e jocosas imperfeições. A estes resta sempre o prazer do brinde final, do último expelir de fumo após fragrante refeição; um mundo inteiro, uma Terra com tantas esquinas, feitios e maneiras, mesmo assim, há quem se imagine inextricável na sua estupidez silenciosa e rastejante, sonhando que se trata de uma qualidade essencial à vida.

 * The Left Hand Path...*

 

 

Recordo que nunca te afirmei ser belo. Bonito, sequer. Nunca o fiz perante ti ou para quem fosse. E no entanto, a ti nunca te interessou esta fragilidade. Existe a possibilidade, então, de que eu não seja um copo vazio. Que o que contenho consiga despertar amor de uma outra criatura quase inatingível. Quero imaginar que sim ...

 

Escuto. Aprendi a ouvir-te. Encontrar o teu rosto nas  palavras sinuosas de um português esforçado enquanto se vai unindo ao inglês perfeito, entre a suavidade do teu dialecto dos frios nórdicos. Creio que não seja próprio escrever desta maneira mas a verdade é que no calor da tua fala, nos teus gestos livres, me sinto animal sem pernas. Impotente.

 

Mas a minha falta de beleza, tão distante da tua, nunca nos impediu de sermos escuridão. E como tenho provado desse breu que transformas em magnânimo! Um vazio que se inundou. Uma passagem pelos dias de esterilidade para descansar na abundância.

 

Em noite de solidão, perguntou-me por luzes. Disse-lhe que algo brilhava ali - mais perto das arestas onde se agitam os cisprestes. Não sossegou e voltou a duvidar - como se poderia saber? Que estranha forma de luz era aquela! E mesmo calado não consegui esconder o brilho dos meus olhos na sua solidão escura.

 

Perguntou-me então que novas cores eram as que cobriam o meu rosto - será para esconder a tormenta atirada ao cais da minha nostalgia? Porque se sente só. Sabendo que esses são mares que afogam sem piedade. Porque há longas noites me considera náufrago e gostaria de fugir a esse destino.

 

Não lhe falo das novas cores. Porque não sei do que fala. Nem porque , em escassos momentos de fraqueza, desviei os olhos da sua expressão de triunfo ante a minha cedência. Preferi esconder o rosto na sombra - como sempre acontece perante a adaga que se aproxima pronta a remexer o que sinto e penso.

 

Não aceita a falta de respostas e vasculha entre pautas de som o que não lhe digo. Pensa que sou maníaco pelo simples facto de não aceitar estender-lhe a mão para caminhar.

 

" talvez penses que o teu caminho é melhor  e mais  seguro do que o dos outros ...", resmunga.

 

" ainda assim e se for isso, és egoísta!"

 

Prefiro não explicar que um cego não é caminho para outro cego. Mesmo com olhos abertos e vendo luz, não consigo caminhar ao seu lado. As vozes que oiço não são as palavras que ele gostaria de escutar.

 

Quando o desespero parece finalmente começar a cravar fundo, desliza na solidão e estende a mão para ligar e ouvir o que tanto gosta: Paganini. 

 

Nunca se esquecendo de dizer, entre as notas de "caprice em Lá menor", que foi a melhor coisa que alguma vez fiz por ele.

 

 

 

 

Não consigo perceber a razão de tanta dúvida. Porque razão não se abrem portas escancaradas à transformação. Ao rompimento de perguntas que apenas reservam em si a simplicidade de algo, aqui sim, imutável: a mudança existe! Até à morte. Simples e tirânico. Verdadeiro. Irritantemente imutável.

 

Desejava saborear certos risos e fervilho de nostalgia porque sinto a velhice de séculos na mente. E em cada palavra ou gesto que me acusa e questiona - em que te tornaste? Não existe uma resposta que não inverta a questão: será antes em que é que me torno?

 

Lembro-me hoje, bem como todos os dias antes e para o resto dos que me observam, daquelas janelas sempre abertas para "deixar o sol poisar". Não o sabias, claro. Mas aceitei essa ponte para muito mais. Transformação sem prisão. Provar do mel doce da entrega, entre bagos de generosidade preciosa e absorver a criatura negra do ódio tão real e indomável que droga e embala em notas desafinadas para tantos! E tão sóbrias e claras em mim.

 

É estranha a palavra na tua boca - amo-te! Como? Aceitas o que sou? No que me transformo. Nunca melhor do que tu? E recusar o caminho mais fácil? 

 

Questões. Mais do que respostas. 

 

Não olhar para trás. 

 

Não se trata de saber se este é o melhor caminho o que sigo. A ausência da luz canta muitas vezes em vozes amigas. Quanto menos dou de mim próprio mais recebo em troca. Como? Isto nunca antes me foi dito ou ensinado. E estive tão longe assim? Quantos passos, quantas mortes foram necessárias para aceitar que o que me parece real é afinal uma ilusão? Que em cada momento de verdade, raro e cintilante, existe um caos imenso. E dizem que o amor é em todos os casos a solução mas então, porque persiste o sangrar? Mesmo entre o murmurar de promessas que não serão cumpridas.

 

Sou um tolo que teve de espirrar o sangue do que faço de certo e errado. Um tolo em constante procura de uma resposta - quase a saber a resposta. A este ignorante desprotegido afirmaram que a vida é um carrossel e que deveria deixar que voasse livre! Que o mundo está cheio de reis e rainhas de coração caridoso, mas sei que apenas roubam os sonhos enquanto cegamos ao seu toque. Postularam que a escuridão é apenas a aproximação do dia , onde o negro é simplesmente o branco. Aceitei que a lua era apenas o sol à noite e que sim senhor! Que era real o caminho feito entre os muros preciosos. E que poderia ficar com todas as preciosidades que conseguisse abraçar!

 

Mas é tolice. Eu sei. Torna-se verdadeiro enquanto sangro por aquele dançarino que me mostrou o caminho entre escuridão e luz. Não custou entregar-me, sinceramente. Mais doloroso foi constatar a mentira e a cegueira.

 Tem sido uma pergunta frequente vinda de algumas pessoas. Tenho amigos? Ou então, o que é para mim um amigo?

 

Pessoalmente, posso afirmar com segurança que aqueles que considero como amigos, digo, verdadeiros amigos podem perfeitamente formar os dedos de um punho cerrado. Poucos. Escassos e genuinamente leais e verdadeiros. Existe uma miríade de razões para este número ser curto e mesmo assim vastamente superior ao que uma criatura como eu poderia esperar.

 

Somos diferentes em relação a este elemento dito amigo. Não me interessa ressalvar que cada um acha o que quer sobre o que é e como deve ser um amigo. Sendo pessoal e subjetivo, cada um encara a amizade como entende. Sejam os mais gregários sejam os mais solitários. É diferente e pouco interessa, mas parece ser notório o incómodo e a necessidade do porquê. 

 

Essencialmente o amigo para o ser não quebra em absoluto uma promessa! Se prometeu, cumpre. Mesmo que para isso tenha de me magoar com a verdade. Conhece-me e por isso sabe. É esta capacidade que ampara e guia quando os caminhos se tornam escarpas e estar só não ajuda. Sacrificam muito do que é seu por mim. Acreditam e lutam comigo.

 

Este amigo desperta o meu mais profundo egoísmo. Uma vontade extrema de o proteger e também estar presente nos seus piores e melhores momentos. Sou egoísta a este extremo. Não olhar para mais nada a não ser na sua direção. E se tiver de passar por cima de outros assim o farei. Já o fiz várias vezes. Os outros odeiam-me. Mas o que interessam?

 

Reside nesta raridade todo o propósito do que é ter amigos e ser amigo. Para mim, especialmente, é muito difícil porque sou um cínico descrente por natureza. Mas este privilégio é meu. Porque se me foi oferecido espelha os meus sacrifícios para com esta raridade preciosa.

 

 






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