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"Está tanto calor, disse ela, não podes abrir um pouco a janela? Também me parecia estar um pouco quente, e como o tempo estava invulgarmente ameno, abri a janela. Dava para o jardim das traseiras e para um pequeno bosque, e eu deixei-me ficar de pé por uns momentos a ouvir o suave rumor da chuva. Talvez tenha sido esse o motivo, a chuva suave e o silêncio; o certo é que aconteceu o que acontece de vez em quando: cai sobre nós um vazio enorme, como se a própria falta de sentido da existência entrasse por nós adentro e se estendesse como  uma imensa e despida paisagem." 

Kjell Askildsen

 

 

A razão porque nunca serei santo é exactamente porque nunca compreenderei o conceito em si. A santidade implica privação e obediência cega. Por muito que tentem convencer-me do contrário, que insistam na noção de ser este um caminho para algo mais elevado e glorioso, só consigo vislumbrar a terra. Olhar para o céu é uma mera veleidade que utilizo apenas para absorver as nuvens negras. Nele nunca vi carros de fogo. Nem arcanjos da salvação.

Dizem-me com  extrema assiduídade que não sou realmente ateu. Antes pelo contrário. Que o que defendo e muitas vezes vivo é puro e não adulterado satanismo. Mesmo quando explico que não acredito em deuses. Mesmo quando não aceito a veneração a deuses.

Mas talvez isso não seja realmente necessário. Eu próprio cultivo a ideia do individualismo extremo, mas onde cabem outras pessoas e outras noções. Acredito no egoísmo em  relação a tudo. E mesmo assim entrego-me de alma e coração a quem me aceita e compreende.

Acredito piamente que a raça humana não vai terminar com alegria e que o reino dos céus não se abrirá. Não confio na grande maioria das pessoas e o meu cínismo é um cepticismo permanente.

 

Se calhar não sou um pequeno niilista, afinal. Se calhar sou um satânico. Porque não consigo fingir o meu estado de alma. A minha vontade rir com um papa artista de circo e hábil manipulador de marketing.

Porque não consigo evitar que me assalte o pensamento quando vejo um papa a beijar uma criança, a estender um abraço a uma ovelha fiel: quando será que como dádiva da raça humana recebe um tiro na cabeça? Ou uma faca no pescoço?

Acredito no elitismo. Na necessidade de escolher, de ter uma opinião pessoal sobre tudo e todos. Um direito meu. Por muito que tal me seja negado.

Mas a cultura comum assim não aceita. Elitismo deixou de ser uma palavra de desígnio e excelência. Uma palavra maldita e excomungada pela grande maioria das pessoas que aprenderam a aceitar o elitismo como um veneno.

Como é que tal se torna possivel? Afinal, todos os dias somos elitistas. Todos os santos dias desta merda de planeta vejo hipócritas que negam as diferenças.

Elitismo é escolher o que acho melhor para mim. Se consulto um médico procuro que seja o  de melhores referências. Cultivo aqueles que acho escreverem melhor, os que pela sua filosofia de vida mais me podem ensinar. Descardo o que considero prejudicial para a minha visão pessoal das coisas. Será isso errado?

Sou elitista e não tenho apreço nem o coração aberto ao mundo que outros tentam aceitar. Escolho os meus amigos e decidi que as minhas paixões seriam restritas, mas quero que sejam uma revelação em todos os dias da minha vida.

Aí reside a estranha ironia; todos os dias dou preferência ao que aceito e escolho. Exactamente o que fazem todas as outras criaturas deste mundo. Mas eu não me envergonho de o dizer. Não tenho receio de escolher a dedo a música que oiço, nem de vibrar com as palavras que me tocam fundo na alma. Admito o elitismo. Outros, uma vasta maioria, não aceita a palavra. Mas são.

 

"It's in your head [x3]
FILLER
You call it religion
You're full of shit
FILLER"



Objectivo atingido: ver em concerto ( Amesterdão) uma das minhas absolutas referências de extremismo musical. A banda Immolation


Confirmação de um facto: Monstros sagrados e absolutos em concerto. Inesquecível!


Duplo objectivo atingido: estar frente a frente com os membros da banda em amena cavaqueira de troca de ideias. Por entre latas de cerveja, pude confirmar uma verdade por outros transmitida: Ross Dolan, o vocalista, um gigante de tamanho e inteligência, animal de palco cujos cabelos ultrapassam as nádegas em cumprimento e densidade (!), ateu convicto, anti religião por todos os poros, é de uma generosidade e desprendimento absolutamente surreais!

E como bebem estes senhores!!


  «O ideal na minha opinião seria olhar a vida sem qualquer desejo, e não deixando pender a lingua como um cão.

Seria ser feliz na contemplação, pura, estranho às contendas e à avidez do egoísmo, ser, dos pés à cabeça, frio e pardo como a cinza, mas com olhos embriagados e lunares.

O que eu preferia, sugere a si próprio o espírito iludido, seria amar a terra com um amor lunar e só com os olhos aflorar a beleza.


Onde reside a inocência? Onde há vontade de engendrar? E aquele que criar o que o ultrapassa é, a meus olhos, aquele cujo querer é mais puro.

Onde reside a beleza? Onde todo o meu querer me obriga a a querer; onde quero amar e perecer para que uma determinada imagem se não mantenha unicamente uma imagem.

Amar e perecer; há eternidades que as duas palavras vão juntas. Querer amar, é aceitar mesmo a morte. Eis o que tenho a dizer-vos, ó poltrões!


Em verdade, tendes sempre na boca grandes frases; pretendeis fazer-nos acreditar que o vosso coração está cheio a transbordar, ó mentirosos!

Quanto a mim, contento-me com palavras humildes, desprezadas, tortas; de boa vontade apanho o que cai da mesa dos vossos banquetes.

Mas, mesmo com este pouco, ainda vos posso dizer a verdade hipócritas. Com as minhas espinhas, as minhas conchas e os meus espinhos, posso, ó hipócritas, picar-vos o nariz."


"Assim falava Zaratustra"


FRIEDRICH NIETZSCHE

A crença no fim do mundo baseada numa qualquer crença religiosa ou na improvável capacidade que uma miserável criatura possa ter de predizer o futuro, é a prova irrefutável de que a estupidez será realmente a verdadeira causa do fim da humanidade. A estupidez ignorante espalha-se como uma praga, contagiando a mente dos fracos de espírito. Em vez de questionarmos e desafiarmos tudo e todos. Afinal, creio que o questionar e duvidar é a forma mais simples de receber respostas. Nada mais claro. O cépticismo, achar que nada é certo ou totalmente verdadeiro deveria ser uma prática pessoal de todos os dias. Em vez disso desejamos morrer nas mãos de  sacerdotes e parasitas.

 

Numa era em que a ciência pura e simplesmente retirou o conceito  de Deus todo-poderoso da equação, continuar a aceitar estas cretinices é consumada ignorância. Estupidez aguda.

 

Portanto,

Agradeço a deus o facto de não estar Morto?

Já agora,

Posso agradecer a deus por não estar consciente de quase nada do que se considera importante?

Não,

Agradeço a deus por não querer saber. Por me estar a borrifar!!

 

"Algumas pessoas nunca enlouquecem, eles devem ter uma vida verdadeiramente horrível.

Sexo é interessante, mas não é totalmente importante. Eu quero dizer que o sexo não é tão importante (fisicamente) como a excreção. Um homem pode ficar 70 anos sem comer um rabo, mas ele pode morrer numa semana sem o movimento dos intestinos.

 

A vida fode-me, não nos damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, mas não tudo de uma só vez. É como engolir baldes de merda.

 

Bem, todos morrem um dia, é simples matemática. Nada de novo. A espera é que é um problema.

 

O mundo inteiro é um saco de merdas rasgando-se. Não posso salvá-lo. Sei que nos movemos em direção à miragem, as nossas vidas são desperdiçadas, como as de todo mundo. Eu sei que nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma.

 

A verdade é que somos umas monstruosidades. Se pudéssemos ver de verdade, saberíamos como somos ridículos com os nossos intestinos retorcidos pelos quais deslizam lentamente as fezes... enquanto nos olhamos nos olhos e dizemos: 'Amo-te'. Fazemos e produzimos uma porção de porcarias, mas não nos peidamos perto de uma pessoa. Tudo tem um fio cómico.

 

Eu gostava do lugar, tinha grandes árvores que davam sombra, e desde que algumas pessoas me haviam dito que eu era feio, preferia sempre a sombra ao sol, a escuridão à luz."

 

Charles Bukowski

Creio que foi por volta dos 5/6  anos que me afirmaram que "os homens não choram"; a partir desta altura a noção de que os homens não choram ou não devem chorar, choveu de todos os lados. Dos pais, dos amigos e dos professores. E sei que aprendi a aceitar esta noção. Não porque achasse que estava realmente certa - ainda hoje não acho que esteja certa. Mas sei que aceitei esta noção, embora forçado, aceitei.

E a prova de que aceitei o miserável  facto de não chorar nunca, por nada, surgiu durante cada briga na escola, no liceu. Durante cada murro que recebia e dava. Durante cada desilusão que me era atirada à cara. Vencer era chegar ao fim sem chorar. Mesmo que sangrasse e tivesse feito sangrar. Se eu não chorasse, tinha vencido. Não se tratava de uma vitória moral. Para mim, chorar era admitir um sentimento de fraqueza, derrota.

 

Hoje sei  que os homens choram. Tenho visto alguns que o fazem. E não acho fraqueza ou derrota. Mas eu continuo a não o fazer. Um bloqueio mental", já me disseram. "Precisas de olhar a vida de outra maneira, chorar faz bem", oiço isto tantas  vezes. No entanto não verto uma lágrima. Mesmo no mais profundo desespero, tudo o que me desperta é a rugosidade de uma casca de noz.

A sensação mais estranha é um contrasenso: não choro para não ser fraco, mas sinto-me cruelmente frágil. Abano por todos os alicerces.






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