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Aborreço-me com a mesma facilidade com que reconheço a minha incapacidade de reconhecer o humor onde, aparentemente,  se pretende que exista. Creio que esse "humor", essa estranha e magna virtude, é cruelmente insubmisso, por isso pertence apenas ao domínio de uma muito escassa minoria de criaturas - que não se limitam a provocar o riso, ou a julgar que, entre situações do mais absoluto vazio de ideias, e da mais absurda falta de piada, estaremos a lidar com seres transcendentes e do humorismo dito inteligente e por isso de difícil compreensão.

Como na ironia. 

Nada se reflecte mais intensamente desinteressante do que a incapacidade de aceitar a ironia como um estatuto imensamente superior ao dito humor. E nada é mais revelador da sua suprema e preciosa raridade, do que observar tanta gente a julgar mestria na arte sublime de ironizar.

A ironia é bem mais implacável e astuta nos favores concedidos. Se no humor ainda é possível tingir as fronteiras, forçando um sorriso ou baloiçando o pêndulo para os lados mais escuros e fora da habitual palhaçada de circo dos nossos dias, com a ironia tal nunca será possível. É uma arte suprema  e maquiavélica. Sombria e astuta. 

A verdadeira ironia não se limita ao troçar frio ou ao pretenso palavreado de quem se ilude com a ideia de possuir  os dotes da graçola infame. Como na persistente presunção da singela criatura que cobre as suas banalidades com os temperos do escárnio, sonhando-se irónica - uma mera fatalidade onde esconde as suas próprias inseguranças e incapacidades.

Sim.

O humor nunca será apenas a boa e gaiata piada onde mais vale rir. Nem sequer a confusão entre a inteligência e a pura  falta de talento para suscitar qualquer reacção que seja.

A ironia? Essa será sempre demasiado bela. Demasiado distante.  Obstinada na sua capacidade de ilusão aos incautos que julgam ser seus mestres.


6 comentários

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atravésdaescrita 25.05.2021

A mais bela definição de ironia que encontrei.

Adorei o texto no seu todo.

Isabel Caeiro
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Fleuma 26.05.2021

Obrigado pela companhia, Isabel.


Abraço.

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naomedeemouvidos 25.05.2021

Mas, há um tipo de humor absolutamente banal, idiota e inofensivo, sem qualquer pretensão a ser mais. A esse sou capaz de ceder sem remorso. Posso ter um riso muito fácil (embora, ultimamente, sinta que rio bastante menos; espero que passe).

A ironia é, realmente, outra senhora, tens toda a razão. É aguda, e pungente, e caprichosa. E resistente. Quero-a resistente. Quero que sobreviva ao mofo dos dias de hoje, de lisura fraudulenta ensaiada por decreto.

A imagem lá em cima é uma delícia. Só conheço duas pessoas - virtualmente falando - capazes de conciliar magistralmente um texto e uma imagem: tu e aquela extraordinária miúda que dá (mais ou menos) pelo nome de "Gaffe". Por falar em ironia da boa.

Fica bem.
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Fleuma 26.05.2021

Invejo essa capacidade de riso fácil, que acho imensamente dificil- contrário a quem acha interessante o riso sofisticado. E desejo sinceramente que não percas essa faculdade. Que é de facto uma faculdade .

Eu, como já deves ter percebido, tenho alguma dificuldade ...

Ah, a Gaffe!!

Juntamente contigo, foi quem mais lamentei a partida destas bandas. Sinceramente. Mesmo entendendo perfeitamente a necessidade de mudança e de afastamento para um começo novo. Lamentei, ainda assim

Creio que perdi o rasto à Gaffe; mas tambem sei que quer tu quer ela estarão em bons caminhos. Respeito isso.

Sabes, o que eu mais admirava na Gaffe nem sequer era a ironia. Tal como contigo, era um brilho diferente do normal.

Beijo.
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naomedeemouvidos 26.05.2021

Agora ficava aqui a conversar contigo até me esquecer do tempo. Gosto de boas conversas.

Um dia – se tiver coragem – talvez te conte porque saí desta plataforma. Mas, nunca poderei fazê-lo aqui. Teria que atrever-me a enviar-te uma mensagem mais pessoal. Sei que parece coisa inócua, isto de trocar emails pessoais com gente que nunca se viu, mas não o é para mim, como sabem as pouquíssimas pessoas com quem já o fiz.

Mas posso confessar que foste um dos responsáveis por eu ter voltado a “mostrar-me”. Como já te disse antes, este teu canto foi um dos que mais me custou deixar, quando abandonei o “naomedeemouvidos”.

Um beijo. Fica bem.
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Fleuma 26.05.2021

Creio que sabes, mas não me deves nenhuma explicação.


No entanto, se quiseres enviar mensagem, tambem sabes que não existirão impedimentos. Muito menos por alguma razão "inócua".

Sei perfeitamente a que ponto podem chegar certas situações nesta plataforma, acredita.


Seja como for, e em relação a mudanças, sabes que enquanto puder, estarei contigo. Mesmo que quase sempre em silêncio.

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