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Aborreço-me com a mesma facilidade com que reconheço a minha incapacidade de reconhecer o humor onde, aparentemente, se pretende que exista. Creio que esse "humor", essa estranha e magna virtude, é cruelmente insubmisso, por isso pertence apenas ao domínio de uma muito escassa minoria de criaturas - que não se limitam a provocar o riso, ou a julgar que, entre situações do mais absoluto vazio de ideias, e da mais absurda falta de piada, estaremos a lidar com seres transcendentes e do humorismo dito inteligente e por isso de difícil compreensão.
Como na ironia.
Nada se reflecte mais intensamente desinteressante do que a incapacidade de aceitar a ironia como um estatuto imensamente superior ao dito humor. E nada é mais revelador da sua suprema e preciosa raridade, do que observar tanta gente a julgar mestria na arte sublime de ironizar.
A ironia é bem mais implacável e astuta nos favores concedidos. Se no humor ainda é possível tingir as fronteiras, forçando um sorriso ou baloiçando o pêndulo para os lados mais escuros e fora da habitual palhaçada de circo dos nossos dias, com a ironia tal nunca será possível. É uma arte suprema e maquiavélica. Sombria e astuta.
A verdadeira ironia não se limita ao troçar frio ou ao pretenso palavreado de quem se ilude com a ideia de possuir os dotes da graçola infame. Como na persistente presunção da singela criatura que cobre as suas banalidades com os temperos do escárnio, sonhando-se irónica - uma mera fatalidade onde esconde as suas próprias inseguranças e incapacidades.
Sim.
O humor nunca será apenas a boa e gaiata piada onde mais vale rir. Nem sequer a confusão entre a inteligência e a pura falta de talento para suscitar qualquer reacção que seja.
A ironia? Essa será sempre demasiado bela. Demasiado distante. Obstinada na sua capacidade de ilusão aos incautos que julgam ser seus mestres.