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Creio que já tínhamos falado sobre a Morte. Creio bem que sim. Naqueles dias que antecederam o fim do sofrimento, das dores, estranhamente, ao falarmos Dela, finalmente vi um sorriso imenso! Como um intenso momento de lucidez e reconhecimento, aquele olhar distante para uma pilha de comprimidos amontoados, um  abrigo que nunca apagou a agonia, um altar de prostração inútil.

Da tua Morte, estranhamente, e não da tua Vida.E mesmo na viagem, enquanto a morfina viajava entre a tua consciência fria, calculista, racional, e o remoer da minha paixão pela tua virtude de escolher um Fim, o terminar de uma batalha há anos perdida, ainda alimentei a esperança do teu arrependimento.

Idiota.

É como se eu já não soubesse onde saciei a minha sede de mim próprio, desse vigor tão niilista do Individuo, na soberba que me consome, porque escolher o momento e como devemos Morrer é a nossa única e verdadeira preciosidade, que nada ou alguém consegue despojar. Segurar em mim a única centelha realmente minha, torna-me perigoso, sempre o soube. Mas é tão intensamente apaixonante e belo como o teu último e derradeiro pulsar de Liberdade. Afinal, que maior definição de libertação existe senão nesta escolha? Nesse voltar de costas ao tormento, quando assim foi decidido?

E porque escrevo desse dia, logo hoje? Porque me recordei da tua entrada pela porta tão discreta. Porque, após anos e anos de sofrimento e batalha, jamais deixarei que se apague em mim o teu Sorriso, enquanto fechavas os olhos. 

E não chorei. Não me entristeci por um merecido descanso. Disseram-me algo sobre o brilho verde dos meus olhos e ainda algo mais sobre a raridade do meu sorriso, nesses instantes. Já não me recordo. Não me interessa. Recordo-me antes de uma última lição e reverência minha, ao olhar a própria face imaculada da Verdadeira Libertação. Nossa. Intocável. Digna. Decidida por Nós! 

 

... E a canção preferida.

 

Fleuma,

 


6 comentários

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outradecoisanenhuma 19.06.2022

Tinha tanta coisa para escrever aqui.

Não voes para demasiado longe. Gosto de te ter aqui.
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Fleuma 19.06.2022

Estou a tentar, estou a tentar...

Um beijo.
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outradecoisanenhuma 20.06.2022

Sabes o que andei a tentar lembrar-me? A primeira vez que aqui entrei. Tenho péssima memória para datas, dias de, e coisas assim, por isso, tentei procurar o ano em que criei o "naomedeemouvidos". Sei que o teu não foi dos primeiros blogues que descobri, mas, ainda assim, creio que passaram qualquer coisa perto de quatro anos. Imaginas?

Se me perguntarem, continuarei a jurar que não pode haver nada de inquebrável nas relações virtuais, porque não pode haver nada de importante nas relações virtuais. São só palavras, não é? Por isso, sim, continuarei a jurar que as pessoas de quem gosto são como os livros de que gosto - sem poder tocar-lhe, um livro não me é bem um livro, e um amigo virtual não é bem um amigo - e que, quando um dia deixarmos de nos cruzar aqui, não vai doer nada, nada. Posso jurá-lo três vezes.
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Fleuma 20.06.2022

Poderia dar-te 3 exemplos de 3 pessoas que me acompanham neste local desde o principio. 2 são de lugares distantes e uma outra, devido a certas situações, foi necessário que estivessemos cara a cara pessoalmente. Nunca desistiram deste blog. Uma descobriu este local através de um post escrito por mim, numa fase muito negra, e quando essa mesma pessoa pensava no suicidio. Ainda não sei o que a convenceu a recuar, porque sei que certos posts meus podem ser "perigosos". Mas algo a identificou comigo. Eu aqui e ela tão longe como nos Estados Unidos. Estranho,mas real.

Estas 3 pessoas, principalmente, pedem com frequência para não fechar este blog, mesmo que eventualmente deixe de aqui estar, em palavras.

Tu,és a quarta pessoa que me prova que se consegue construir algo semelhante a uma amizade virtual. É fascinante a forma esquiva nas raras vezes que te expões. Sinto-te, muitas vezes, frágil, embora, e aqui ainda não consegui perceber como, haja algo potente na tua maneira de olhar as coisas, algo potente mas ao mesmo tempo cuidadoso e esperançoso. Algo que invejo.

Tens mais esperança em algo, menos péssimismo.

É isto que sinto quando leio o que escreves, até porque acho que as palavras são muitas vezes, a nossa propria essência.

Isso, e as tuas sombras. Sabes que adoro sombras?

Todos temos sombras, mas algumas são mais raras. Um prazer raro conseguir testemunhar.

Jung ficaria fascinado ...
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outradecoisanenhuma 21.06.2022

... com o "Fleuma". Eu sou uma mulher bastante banal.

Gosto muito de ti. Não me fujas.

Fica bem.
Um beijo.
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Fleuma 21.06.2022

A palavra "banal" é, muitas vezes, sombreada, e por isso, enganadora.

Também gosto muito de ti.


Um beijo.

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