Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

(999)
Ali, as tardes são calmas, densas em sobriedade, carregam consigo aquele sabor da mais intensa paixão para quem prefere o descanso da obscuridade sem ruídos. É onde o tempo se encolhe sobre si enquanto a imaginação diz que sim, que o Universo é nosso, que apenas enche as nossas mãos. O pensamento, nestas tardes, só consegue existir em nós porque se torna numa constelação imensa, não é possível domar o que gravita por nós naquela imensidão de silêncio distante, no formigar constante da nossa fragilidade pequena, absurda.
Gosto de me sentar na cadeira que baloiça sem ruído, de braços e pernas estendidas e abertas, na mais absoluta e descomposta reverência, quando, nesse entardecer, faz menos frio e não se vislumbra a neve nem o gelo, nem sequer lá muito longe; deixar que o calor de um sol brilhante mas fugaz, toque, astuto, na minha face sem os óculos escuros que tanto amo, aquecendo-a tão suavemente, carinhosamente cálido, rasgando as imensas janelas de vidro cristalino, forçando os olhos para distâncias impossíveis, ajoelhando a respiração num aquietar brando, em surdina.
Na calma imóvel desta tarde, quando tudo em nosso redor se acalma numa luz suave, resisto a tudo o que seja movimento, recuso-me a mexer um tendão, como um animal encadeado por algo precioso, apenas sabendo que está vivo porque respira em compasso, e consegue inspirar o aroma possante do café mais negro, uma corrente de protecção contra um desvanecimento consentido. Nos olhos semicerrados, um testemunhar translúcido, cravejado no peito expandido e incapaz de compreender o portento de saudade e nostalgia com que certas tardes nos fustigam os dias.
E torna-se um fim. Um mistério. Um meio de justificação.
Para o espírito sobrecarregado este seria o fim perfeito. Suavemente percorrendo o caminho final. De coração incinerado. Absorto na sua própria felicidade.
Fleuma,