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É amargo o sabor que permanece quando alguém se despede com as palavras " vou para casa", e acabamos por descobrir que nunca mais voltam para nós. Quando descobrimos que afinal esse "vou para casa" é um fim total, o testemunho de um Nada tão vazio como inundado pela desilusão. 

Somos cegos ao ponto de uma ignorância estúpida - esta é uma primeira chicotada para nós, os que ainda permanecem no caminho de casa. Depois? Muitas outras vergastadas, cada fustigar um novo corte para relembrar, cada recordação, uma  nova forma de punição que sabemos, é merecida. Não existe maior inferno do que aquele que nos revela em carne crua e sem piedade, a nossa mais estúpida e profunda cegueira perante o que está em rota de colisão com a nossa própria face.

Este "vou para casa" sem um regresso nunca me consolou como despedida, sempre serviu apenas para retalhar em culpas e remorsos escuros. Sempre envenenou os meus sentidos com aquele ódio cego e intolerante a todas as tentativas de sossego pessoal, a qualquer ideia, por mais distante que seja, de consolo sem culpa. Como se neste "vou para casa" houvesse aquele suspirar irónico perante uma piada sem graça. Talvez fosse bem melhor aceitar que foi uma decisão forjada nas minhas costas por quem também já se afogava e decidiu não resistir. 

Pura e simplesmente isto. 

Pura e simplesmente a maior libertação que raramente conseguimos vislumbrar. Apenas quando é tarde de mais. 

O inferno é exatamente o nosso. Pessoal. Criado pela nossa vontade de manter vivo,  a cintilar como um pequeno verme, que com o assobiar dos anos, vai consumindo e crescendo como um colosso, nunca desaparecendo realmente. Está presente nas manhãs mais claras e de brisa suave; naquelas tardes, entre tragos de café negro e na memória do primeiro sabor de uma bolacha com morango e canela; e nas noites, principalmente na insónia mais perene, quando a solidão nos esbofeteia a arrogância e a cegueira. 

Este "vou para casa"é uma chave que abre a porta para uma saudade dolorosa e uma nostalgia invencível. 

Tudo, rigorosamente tudo, se esfuma neste ódio intimo em frente a este espelho de mim próprio. A esta falta de vontade de aceitar onde falhei.

(Fleuma!)


2 comentários

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outradecoisanenhuma 13.01.2023

Às vezes arrependo-me de ter apagado a página do outro blog, sabes? Sempre dispunha daquela coisa do "favorito" (que sempre tentei usar com o rigor que merece) e permitia-me, pelo menos, dizer "entrei"; não só entrei, como fiquei um pouco.

Fica bem.
Um beijo.
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Fleuma 13.01.2023

Pode ser que um dia regresses...

Um beijo.

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