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(999)

 

Lá fora 10 graus negativos. Dentro da sala, pelos recantos de sombras atravessados pelas luzes artificiais, entre o calor ameno do som das palavras amigas, antes estranhas e desconhecidas, num torpor cansado, sentado entre isto, deliciosamente rendido ao sono que se aproximava...

Tu.

Entre tudo isto: Tu.

Nos passos serenos e felinos em direcção a mim. Em frente a mim. Tudo se silenciou naqueles instantes. Esta memória que nunca me abandonará. A respiração selada num aperto. Os olhos abertos apenas num sentido. O peito congestionado num bater estranho, disperso, mínimo. A incapacidade de uma palavra. Um idiota desajeitado e subitamente lançado em águas desconhecidas.

Tu és uma Chave.

Os teus olhos brilhantes nos meus. O sorriso na cor dos lábios grossos. A tua pele alva entre a sombra, recordou-me as minhas primeiras auroras do Norte, lancinantes de espanto e vigor. 

Algo animalesco cresceu naquele dia em mim. Algo que ficou sangrento e violento. Uma fome de possuir e nunca mais soltar. Um tremer quase demoníaco que nunca mais me abandonou na tua presença. Um prostrar frágil. Uma incapacidade de conseguir ver algo mais belo, um cismar silencioso de predador encarcerado numa escuridão de instintos proibidos, dormentes durante outros abismos.

Tu és uma Chave...

E eu, ainda hoje, não sei o que isto é. Não consigo regressar a mim. Sinto este corpo enorme e maciço, incompleto, junto ao teu - sinuoso e assustadoramente silencioso. Sem ruído. Como uma brisa.

Não sei o que isto é. 

Nas palavras saídas como encantamentos pela noite fora. No brilho de uma inteligência inata mergulhada nos olhos cristalinos. Nos cabelos longos. No sussurrar onde tudo se consuma. O meu corpo duro e sólido recebido pelo teu. Demasiado belo para ser meu.

Tu és a Chave.

(Fleuma,)

 







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