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Existem memórias impossíveis de cauterizar por mais que tente. São parte do inferno pessoal que me afasta do puritanismo dos que acreditam existirem virtudes inabaláveis na vontade de viver. São os retalhos que ficam plasmados a cinza e que persistem em sobreviver, como dedos apontados feitos de remorso.

Devia ter adivinhado porque estavam lá, claras e cristalinas, como o lago gelado em que gostava de se reflectir. Devia. Nos anos de amizade e  esforço para me arrancar do tufão em que gravitava - devia ter sido muito mais atento.

Mas não. Mesmo na minha consciência de astro menor na dimensão de um sol absurdamente brilhante, deveria ter olhado para cima, para longe da minha órbita. E é sórdida, esta necessidade que tenho de aceitar  este facto. Mesmo após tantos anos.

Deveria ter aberto mais os braços aos crescentes ódios e espasmos  de frustração que assombravam palavras e gestos; nunca deveria ter cerrado o pensamento às sombras que rodeavam aqueles olhos antes intensamente brilhantes, fulgurantes num mar de lógica imbatível, e pensar que tudo se iria resolver, enquanto a minha condição troçava dos meus pensamentos.

E tem graça, não é? Como poderia um naufrago em estertor de morte ajudar quem quer que fosse? Quase consigo rir-me desta piada!

De facto, somos nós que mantemos acessa a chama da vida. E somos nós que decidimos quando demais é demais. Mesmo que brilhantes como constelações, por vezes crescemos tanto, somos de tal forma colossais que este corpo deixa de conseguir comportar o nosso respirar. Tudo parece dispersar-se em nós. Deixamos de acreditar em salvação. A redenção está no fim que determinamos. 

Quem ainda decide continuar transporta consigo o fardo da perda. Seco de lágrimas inúteis. E só muito mais tarde surge a compreensão, astuta e fria. E isto nem sequer se revela uma penitência. Antes um veneno consumido com aquele requinte da mais absurda impotência e frustração.

Nem sequer se reveste de qualquer consolo concluir que assim acabou por ser melhor - que viver o resto de tempo como uma concha vazia é uma atrocidade pior. Porque é neste preciso instante de claridade que o desespero se revela na sua verdadeira essência cruelmente vermelha e tinta de arrependimentos.

Uma imensa porção da nossa alma desaparece. Permanece uma solidão órfã de riso e companheirismo nos momentos mais negros. Agita-se um desespero pelo súbito abandono nos pensamentos. Tudo nos recorda quem já foi. E já não é.

A Morte acaba por ser um estranho consolo. Mas para quem continua a respirar remorso por cegueira ficam as farpas que sistematicamente, pausadamente,  relembram outros dias de genuína felicidade.

 

 


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