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A velha senhora colocou a chávena em cima da mesa. De tronco erecto e firme, envolta naquela ténue e reconfortante escuridão que  habita em certas casas, e que parece confirmar a certeza de que algumas criaturas nasceram para navegar entre a luz e a sombra sem medo. E não existe nenhum ruído que consiga perturbar aquele instante nem sequer os passos da velha senhora. 

"Noita ..."

... Ouvi os rumores que alimentam negros pensamentos, como se a senhora fosse um encantamento raro, desses encontrados em  Grimórios proibidos por Deus, forjados em poções malignas e alforges malditos. 

Talvez seja assim.

Porque os seus olhos brilham com rastos de azul quase cósmico. Enfeitam um rosto longo e pálido apenas traçado por rugas ténues e suaves como o seu falar. O cabelo é branco como a neve, entrançado, espesso e farto apenas no topo do crânio, a contrastar com o resto meticulosamente rapado atrás das orelhas, que foram seguramente desenhadas por uma alquimia desconhecida, cobertas desde a hélice até ao lóbulo por um artefacto negro, gracioso e profusamente fascinante aos olhos. Tem o pescoço esguio e estreito sem a mácula da idade e o vestido em tons negros - porque o negro atrai o calor -, cai sobre a sua silhueta longa e serpenteante como um nevoeiro cintilante. 

Parece nunca ter conhecido os rigores dos anos que passam quando sorri num tremor quase embaraçado, mesmo assim rasgando os lábios finos num assombro de dentes longos e alinhados, brancos como a neve que cega na Tundra, absurdamente perfeitos naquele rir sem esforço. Fala com as mãos de dedos longos e finos, gesticulando com a mesma serenidade com que move o corpo, e parece-me anterior a tudo o que conheço, mesmo antes do próprio nascimento dos Deuses. 

Nunca soube os anos que tem. Nunca me interessou saber.

Nunca lhe disse que cheira ao fresco silvestre das manhãs na floresta porque entramos na sua casa como lobos num salão dourado e consagrado, silenciosos. A senhora sabe como se reclinam os espíritos enquanto serve o chá vermelho quente de ervas em chávenas altas brancas e pretas, embalado como um infante no portento pecaminoso de uma generosa fatia de "Pulla"  acabada de sair do forno, gloriosamente banhada numa luxúria de manteiga, leite caseiro, cardamomo e açúcar castanho escuro.

E é pela noite fora, no breu mais espesso, enquanto as conversas vagueiam insolentes e livres, que quase torna possível abrir esses Grimórios ancestrais, quando serve o café tão negro como os breves instantes de um eclipse, de grão levemente torrado, ácido e sem açúcar, draconiano e quente como as poções que afastam o frio do corpo e da alma. 

(Fleuma)







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