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"Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir." - G. ORWELL
(999)
Uma das mais raras pérolas do distanciamento é a capacidade de análise ao que nos rodeia. De tal forma que, se bem nutrido e experimentado, esse analisar se converte num processo de desbaste lato, frio e atrito a inutilidades. Este pragmatismo criado por um distanciar que muitos afirmam mergulhar a pessoa num cepticismo incorrigível, num cinismo demasiado ácido e vazio, é uma forma de arte obscura, cultivada entre sementes de estoicismo e observação pessoal quase a roçar um frio glaciar e que, com demasiada regularidade transforma coisas, pessoas e acontecimentos em mentiras ou absolutas referências de comportamento. Por vezes implacáveis e dolorosas, mas tão essenciais a quem se afasta e observa como o respirar. Essa é a virtude de quem olha também para si próprio com a clareza clínica das suas imperfeições, fruto de anos e danos pessoais, não se reconhecendo como um modelo a seguir, enquanto vai destronando os seus ídolos um por um.
Esta capacidade de auto critica parece ter desaparecido nas atrocidades destes tempos "modernos", na simplicidade e imbecilidade do caos das atitudes e acções mais incoerentes, ao exercitar mais corrosivo de um pequeno número de bastardos ideológicos que há muito deixaram de respeitar o individuo em nome de um conceito moribundo: o bem de todos os seres humanos!
A pouca tolerância para venerar a real e verdadeira definição de Liberdade de Expressão principalmente quando outros discordam da nossa forma de pensar, é sistematicamente apresentada aos nossos olhos como um gesto de preconceito, que demasiadas vezes cobre com uma capa de vitimização a idiotice mais indefensável e absurda. É apenas mais uma prova do gozo que dão os extremos e do prazer que parece oferecer a bota a esmagar a nossa cabeça. Esta predestinação para reverenciar tudo o que é dito como verdade absoluta apenas porque é partilhada em massa, é parte de um epicentro de ignorância obtusa, tão glorificada porque vem das emoções, esquece demasiadas vezes os factos e o incontornável pormenor de que estes não querem saber dos nossos sentimentos! É uma horda de preguiçosos infantis que balança quando ordenado, indefesos e incapazes de suportar um espasmo de contrariedade que ofenda o seu bem estar ou a sua formatação cerebral.
Esta é uma das maiores justificações para as mudanças que se observam nestes dias - que aliás não são novas. Sempre foi assim. O problema é que a Liberdade de Expressão arrasta consigo a Liberdade de Escolha, uma abençoada alquimia que nos torna criaturas ímpares, mas a sua omnipotência assenta na suprema ironia da insatisfação: a nossa escolha nunca terá a concordância dos outros. Nunca seremos capazes de concordar com as escolhas doS outros e iremos sempre encontrar motivos para impor as nossas visões pela força.
Ponto.
A virtude que idealiza a escolha livre e sem pressões de um Povo através de um sinal no quadrado de um símbolo, é apenas e só eloquentemente aceite se for em acordo com a "minha" defesa doutrinária. Fora dessa zona cinzenta de ideias os "outros" são o perigo que é preciso combater. A liberdade de voto nunca foi realmente aceite no silêncio de que uma maioria escolheu e decidiu. Apenas se for em concordância com a nossa visão.
Esta Liberdade para Escolher tem uma última e deliciosa ironia: não existe nenhum Povo que aceite de Livre Vontade as consequências das suas decisões e a punição que germina as ditaduras autoritárias. Sejam de Esquerda sejam de Direita.
E porquê?
Porque não existem Povos arrependidos e muito menos os que se recordam.
Todos votam no esquecimento.
(Fleuma)