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Todos os dias é o mesmo. Sempre que me retiro para aquela casa onde os dias se passam lentamente. 

 

Gosto de me levantar cedo. Antes do amanhecer, quando começa a clarear, naquela orla temporal em que a noite escura como breu se afasta e a manhã, que sei irá ser fria e cinzenta, regressa. Sento-me no alpendre na cadeira que baloiça. Ponho os pés em cima do suporte mesmo em frente. Na mesa ao lado a chávena de café negro a escaldar. Em espera.

 

Mesmo em frente a mim, do outro lado da rua, abre-se a porta de entrada da casa amarela. O muro que rodeia esta habitação é baixo e é possível observar com clareza o que se passa. O frio cortante como navalhas e o cinzento do dia são um postal surreal. E sou compelido a olhar enquanto vou lentamente enterrando o queixo na gola do meu grosso casaco.

 

Uma figura alta e esguia sai da casa amarela. O olhar fixo por cima de um grosso bigode branco e um porte estranhamente firme são as únicas evidências de vida nesta estranha pessoa. Não olha em volta e se acha estar ser observado nada o confirma. Percorre os poucos metros até à pequena estufa envidraçada e enquanto esfrega os pés no tapete de entrada abre a porta. Os reflexos prateados da manhã de chumbo cobrem os vidros e quando entra apenas consigo vislumbrar o seu deslocar entre canteiros de flores e sei perfeitamente para onde se dirige.

 

Apuro o olhar e o esforço de atenção provoca-me dores cabeça. O homem pára em frente às rosas. Durante alguns segundos parece rezar como se estivesse diante de uma sepultura. Depois, com uma estranha agilidade, coloca um joelho no chão e baixa a cabeça num sinal de absorto respeito e devoção. Durante longos minutos apenas vejo as suas costas e a sua cabeça inclinada para a frente enquanto ajoelhado. 

 

Por fim ergue-se de novo. Mesmo de costas e ainda que os brilhos matinais rasguem os vidros da estufa, sei exatamente o que sucederá a seguir. E atento, como se estivesse num estranho e cinzento mundo, ao que faz esta criatura de hábitos surreais. Quando está novamente de pé, sempre voltado para as rosas, levanta a gola do casaco comprido e enquanto executa esta manobra vai girando a cabeça para um lado e para outro como se fosse um parafuso a enroscar. Segundos depois, que a mim se assemelham a eternidade, estica as costas e parece tornar-se maior. Um aceno para as rosas final e sai da estufa. 

 

Chega ao portão de saída para a estrada. Vira para a sua direita e enterra as mãos nos bolsos do casaco enquanto baixa a cabeça contra o frio. Parece agora mais pequeno e desinteressado do que o rodeia. 

 

Um destes dias vou levantar-me da cadeira de baloiço e deixar a chávena de café que fica sempre frio. Gostaria de caminhar ao lado deste homem. Mesmo que fosse em silêncio sepulcral. Mas se tiver o privilégio de ostentar algumas palavras vou perguntar sobre a veracidade do que penso quando entra naquela estufa. Calarei no entanto a fuga do seu gato de dez anos para nunca mais ser visto quando foi confirmada a morte da dona.


1 comentário

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emilie 27.11.2016

obrigada.

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