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" Auf der Schwelle ... "

Alguns afirmam que a morte representa o final, determinado pelo fim físico. A falha dos órgãos vitais é um pacto máximo com a realidade: no coração que não bate escreve-se o fim absoluto.

Discordo.

Sei que não é uma verdade absoluta. As verdades absolutas são muitas vezes casulos de merda que a cultura humana se encarrega de transformar em potentados de nada.

A morte começa demasiadas vezes muito antes do coração ceder. Em pequenos passos de esquecimento e deriva como um barco abandonado. A verdadeira morte tem a mestria de impor o esquecimento na mente humana para que o corpo se torne numa ridícula concha vazia. Talvez ainda exista respiração ou raros momentos estampados numa claridade racional mas serão preciosos porque deixarão de ser definitivos.

E isto é a morte despida em absoluto êxtase! Esquecimento completo onde deixa de existir a capacidade de sorrir, de odiar, amar e principalmente de sonhar. Encerra-se o reconhecimento dos detalhes da expressão de quem viveu e sonhou connosco por décadas. O coração bate numa concha solitária que vai perdendo a esplendor dos verbos, do palmilhar terrenos, até que finalmente se deixe de lembrar porque raio bate aquele órgão que justifica a respiração.

Esquecimento demente não é um poema ao fim da vida. Apenas mais um discurso fúnebre pejado de imperfeições e detalhes de humor cínico. Ingrato. Nojento!

Mas gosto de encontrar consolação naquele sorriso firme de homem intenso, que matutava na ideia de Multiverso com a mesma intensidade com que retirava as bolachas do forno preenchendo cada recanto da cozinha com o cheiro divino da canela e do cacau em pó.

E talvez num desses seus Universos não exista quem se esqueça do que foi antes de morrer. 

Onde as horas sejam passadas em longas conversas pela noite dentro. Onde nunca falte o café mais negro nem as bolachas de canela e cacau.

Molhadas: sempre afogadas no liquído negro e deixando que se desfaçam no palato.

 

 

 

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4 comentários

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Anónimo 31.10.2020

Eu gosto de bolachas de cacau e canela. E do café negro, intenso e amargo. E quente, mas não demasiado. Com a morte, tenho uma relação que ainda não aprendi a definir. Sabe o que dói lê-lo, às vezes? Outras vezes, é como pisar em gelo demasiado fino.
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naomedeemouvidos 02.11.2020

Não percebi que o comentário tinha saído anónimo. Não é assim tão anónimo; é meu.
Boa semana.
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Fleuma 02.11.2020

Foi o que me pareceu. De outra forma creio que não o teria publicado.

Agradeço a companhia, sinceramente.

Tambem tento visitar com a máxima regularidade o seu "novo" local de escrita.

Sou um admirador confesso.

Boa semana.

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naomedeemouvidos 02.11.2020

Creio que sabe que a admiração é recíproca. Também lhe agradeço a companhia.

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