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"Eu não gosto de si, já sabe ..."

Repete sempre e no entanto prefere ficar sentado em frente a mim, quando poderia não estar. Poderia, perfeitamente, fazer como os outros e vaguear pelos corredores ou ficar em frente ao ecrã da televisão com o olhar cruzado e distante. Tamborila com os dedos nos braços da cadeira como se a impaciência fosse uma comodidade. Que não tem. Mas tamborila e sistemáticamente. Porém, o que mais atrozmente me fascina nele, para além dos longos cabelos brancos cuidadosamente puxados por trás das orelhas e da roupa impecávelmente limpa, é a forma rápida com que desloca a cara de um lado para o outro o que provoca um estalo, como uma chicotada, nos tendões do pescoço. Até ver isto pensava ser uma coisa de filmes, mas executa os movimentos tão rápidamente que nem sequer sente a dor. De um lado para o outro e por vezes encara-me frente a frente.

 

Olha-me nos olhos quando fala dela. Remexe o corpo na cadeira como se quisesse afastar o nevoeiro que lhe tolda a mente e manter intacta a recordação. E é por estes momentos que parece acalmar-se. A expressão, na maior parte das vezes carregada, alonga-se e fica lisa de rugas de expressão. Neste momento, só a testa se franze e a face assume  a expressão de outrora, noutras luas e passado. Melancolia e inteligência racional afloram. Algo, que por ser tão furtivo, se torna avassalador. Fica imóvel. Sereno.

 

" Mas ela não quer saber de mim! E acho-a uma chata!"

 

Volta a agitar-se e a tamborilar. Regressa a corrente eléctrica ao corpo e as chicotadas no pescoço.

 

" Não é bem assim. Sabe disso, não sabe?"

 

Mas a expressão voltou a estar cinzenta e finge que não me ouve. Cruza e volta a cruzar os pés. Reitera na necessidade de poder sair à noite e olhar para o céu. Que não me quer voltar a ver. E de imediato perguntar se no dia seguinte o verei. Quando demoro na resposta agita-se e resiste ao choro infantil que lhe inunda a face. São olhos de náufrago e mãos desesperadas que esperam.

 

" Sim, claro. Cá estarei."

 

Regressa há agitação eléctrica e ao monólgo. E o pescoço volta a estalar.


1 comentário

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Autumn 21.08.2015

Deves de estar farto de mim a simplesmente agradecer pelos comentários que me deixas. Não sei que te dizer em resposta, como sempre. Obrigada. E desculpa por nunca ter palavras que sejam como as tuas para te deixar.

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