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" Ordo Ab Chao"

 

 

 Existem três paixões em mim que, com toda a certeza, nunca se irão diluir no tempo. São marcas inexplicáveis e que por razões que são tão pessoais como obscuras, o sentimento de possessão em relação a elas me consome os dias.

 

Reconheço-me como um homem de poucas paixões; mas as poucas que tenho são levadas a extremos muitas vezes apenas compreendidos por uns poucos. Creio que isto não tem trazido muitos amigos solidários e carinhosamente compreensivos a estas bandas, mas receio ser um preço a pagar. Pago e sem dívida.

 

 O mergulho foi a primeira voz de alerta. As possibilidades de liberdade expressas abaixo da superfície; o silêncio - porque o oceano consegue silenciar-se e escutar a nossa voz - de um sacramento que me aproxima do sentimento assustador da escuridão do ventre materno.

 

A música é a minha respiração. Vida. Objectivo onde tenho conseguido exprimir pensamentos e caminhos. Nada de perfeitamente essencial para outros; apenas um destino que abracei e me levará a distâncias que já são a justificação para os sacrifícios e punição.

 

O levantamento de pesos será a amante pragmática e silenciosa na minha devoção. O sentido estético de belo, gracioso, sublime e equilibrado dos sonhadores gregos, nunca se reflectiu em mim. Pela forma como muitas vezes eu sou visto em presença física, diria que a palavra "feio" me está muitas vezes destinada.

 

Nunca foi o sentido de beleza que me guiou a frequentar uma masmorra fria e insensível aos meus limites. No meio do suor e do ferro pesado, tantas vezes olhado com o desdém desalinhado da turba que o considera apenas excessivo e narcisista, a estética nunca foi procurada. Tem sido um resultado, mesmo que desagradando.

 

Nasci fraco e frágil. Uma criatura nascida para se arrastar e apoiar nas fragilidades que outros lamentavam. O que sou hoje, sistematicamente em construção densa e blindada, tem sido um inferno; como acabam por ser todas as paixões, afinal. A necessidade vital de aumentar a massa muscular para combater tecidos fracos e a paixão pelos alimentos que lutam contra a minha falta de peso, sempre a espreitar de maneira sinistra, reconheço-as como tirania para a vida.

 

Esta é uma paixão que não carece da aprovação dos bardos da beleza clássica de outrora. Reconheço a falta dos suspiros suaves e tímidos de quem se ruboriza com a estética angelical da massa polida e trabalhada finamente. No entanto, o meu orgulho pela obra que vou construindo pacientemente é apenas limitado pela minha potência diante da fragilidade.

 

Para mim basta e é claro como a água; sou o meu próprio arquétipo. Nunca deixarei de crer que o meu corpo seja a imagem física da minha mente. Pouco importam os outros. Nem que morra a tentar.

 

 

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