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Gosto de me perder pelos caminhos das minhas viagens. Sempre me senti mais próximo da mim próprio, ciente da minha paixão interior, quando percorro expansões vastas; sinto-me enamorado por esta prisão interior, esta ânsia de não estar quieto. Este turbilhão inexplicável torna impossível para mim admirar a quietude do corpo para que o pensamento se eleve.

Estranho isso. Porque nunca deixarei de ser um caminhante, um viajante físico que não consegue imaginar uma viagem sem a distância. Como se nesse distanciar, nessa estranha virtude de afastamento, tudo se conjugue para esta necessidade de devorar o que é novo. E o que vejo é muitas vezes apenas um leve sossego para mim.

Já viajei por locais e vi criaturas em lágrimas sem razão aparente, enquanto se cruzavam comigo. Artistas enfurecidos rasgando folhas de papel ao sabor do vento, silenciados por uma qualquer demónio que vive dentro do peito. Aceitei a  desilusão da descoberta: a beleza é frágil ainda que tirana.

Mas as minhas horas mais felizes pertencem ao comando dos instintos e na necessidade de caminhar por florestas longínquas. E como se  torna possível uma paixão violenta por estas florestas!

Sempre me deixei embriagar pelos seus perfumes e escuridão. As florestas são mulheres possessivas e de uma beleza extrema; vastas, geladas e misteriosamente sombrias, mas benignas para os que passam silenciosos. São também como dançarinas quentes, sensuais, na humidade do seu ar que respiramos e no ondular das suas árvores.

Oiço segredos entre viajantes - dizem entre dentes cerrados, que os verdadeiros viajantes são caminhantes que juntaram o seu sangue ao de um Demónio obscuro e que o fim chegará pela exaustão, pela incapacidade de continuar um metro que seja.

Quero que seja assim. Sei que se não puder caminhar e viajar o meu pensamento irá render-se, entregando a minha alma a esse Demónio.

 

 

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3 comentários

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naomedeemouvidos 28.06.2021

Sabes que partilho desse fascínio pelas viagens. Viajar, viajar. Fisicamente. Um privilégio e o meu maior luxo, creio. Também creio que já nos tenhamos cruzado em algumas dessas viagens. Deve ser o que explica que goste tanto de te ler, se fosse preciso encontrar uma explicação.

E fui ouvir o teu título. És um abismo inexpugnável, um equilíbrio perigoso entre a luz e as trevas. É preciso entrar aqui com cuidado.

Um beijo.
Fica bem.
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Fleuma 28.06.2021

Viajar talvez seja uma forma de expugar um passado, quando o movimento era quase impossivel e tão doloroso.

Talvez seja por isso que, ao recuperar os movimentos sem dor, tenha crescido esta paixão por andar e conhecer o que perdi.

Se calhar um luxo? Para mim é algo mais vasto, bem mais vasto. E pouco importa o que outros pensam, sabes?

Quem sabe se algures já não cruzamos caminhos? O mundo não é assim tão grande - a explicação para gostar da tua escrita mora na sensação de nostalgia. Nostalgia, mas não no sentido negativo. É algo semelhante a pertencer. Algo semelhante a um porto. Não justifico isso, porque se torna demasiado dificil justificar sensações e emoções, como já deves ter entendido em mim.

Um beijo.

Fica bem.
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naomedeemouvidos 28.06.2021

Um "luxo" sob vários aspectos, em sentido figurado também.

Eu não preciso de nenhuma justificação; sei que nem sequer é preciso dizer-to.

Gosto de pensar que sim, que nos teremos cruzado algum lugar.

Fica bem.

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