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Gosto de me perder pelos caminhos das minhas viagens. Sempre me senti mais próximo da mim próprio, ciente da minha paixão interior, quando percorro expansões vastas; sinto-me enamorado por esta prisão interior, esta ânsia de não estar quieto. Este turbilhão inexplicável torna impossível para mim admirar a quietude do corpo para que o pensamento se eleve.

Estranho isso. Porque nunca deixarei de ser um caminhante, um viajante físico que não consegue imaginar uma viagem sem a distância. Como se nesse distanciar, nessa estranha virtude de afastamento, tudo se conjugue para esta necessidade de devorar o que é novo. E o que vejo é muitas vezes apenas um leve sossego para mim.

Já viajei por locais e vi criaturas em lágrimas sem razão aparente, enquanto se cruzavam comigo. Artistas enfurecidos rasgando folhas de papel ao sabor do vento, silenciados por uma qualquer demónio que vive dentro do peito. Aceitei a  desilusão da descoberta: a beleza é frágil ainda que tirana.

Mas as minhas horas mais felizes pertencem ao comando dos instintos e na necessidade de caminhar por florestas longínquas. E como se  torna possível uma paixão violenta por estas florestas!

Sempre me deixei embriagar pelos seus perfumes e escuridão. As florestas são mulheres possessivas e de uma beleza extrema; vastas, geladas e misteriosamente sombrias, mas benignas para os que passam silenciosos. São também como dançarinas quentes, sensuais, na humidade do seu ar que respiramos e no ondular das suas árvores.

Oiço segredos entre viajantes - dizem entre dentes cerrados, que os verdadeiros viajantes são caminhantes que juntaram o seu sangue ao de um Demónio obscuro e que o fim chegará pela exaustão, pela incapacidade de continuar um metro que seja.

Quero que seja assim. Sei que se não puder caminhar e viajar o meu pensamento irá render-se, entregando a minha alma a esse Demónio.

 

 

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