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A biblioteca é um templo. Um local de culto quase circular onde os livros moram juntos, como irmãos de mãos dadas. É possível respirar o seu odor de papel impresso e sorver o que contam; sem pressa e deixando que o tempo se abrigue nas horas.

 

Gosto de ali ficar durante muito tempo. Naquele antro de tanta soberba e maquinações sinistras. Gosto.

 

Um lugar raro tornado ainda mais precioso pelo seu criador cujos olhos não brilham há muitos anos. Tornaram-se brancos rejeitando a luz. Talvez tenha sido esse o preço a pagar para assim conseguir absorver palavras, dialogar com odores e dançar sem a pompa dos idiotas diante dos sons.

 

Estranho, que se não consiga ver e ainda assim se ame um livro imenso de palavras e símbolos. Que se persista na tarefa de juntar catecismos imortais: Nietzsche de mãos dadas com Carl Jung, Fiódor Dostoiévski ao lado de Freud e eu sempre a beber deles! Sempre embriagado pela crueldade de Aleksandr Solzhenitsyn no seu Arquipélago Gulag e eternamente grato a Orwell pela sua Penúria em Paris e Londres.

 

Gosta que eu leia em voz alta. Trechos e traços de tantos e tantos livros onde vai passando os dedos de maneira quase sexual. Por vezes lê pelo tacto. Mas prefere ouvir pela voz de outros. 

 

Quando partilho este local consigo sento-me no centro. Porque sei que acima de mim está uma clarabóia por onde muitas vezes jorram os dias nas suas cores. Um óculo enorme como o olho de um deus. Nada parece perturbar este buraco; nem quando chove furiosamente em geada; nem mesmo quando é da majestade imponente das luzes do outono que se trata.

 

Apenas ilumina aquele mundo.

 

E talvez este senhor saiba disto. Como sabe do sabor das nozes tostadas e do queijo caseiro da D. Alcinda. Talvez consiga sentir o cheiro que emana do corpo debaixo daquela clarabóia, por cima das prateleiras com filas de livros antigos e mais jovens. Talvez.

 

Porque são momentos em que os seus olhos se fecham tapando o branco creme. E o sorriso mais iluminado rasga o rosto. Enquanto escuta a palavra lida torna-se soberbo e digno. Impassivelmente Deus.

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2 comentários

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De Isa a 26.10.2018 às 11:56

Um dia que eu decida deixar a blogosfera, posso faze-lo com a inestimável memória de ter sabido de gente com o dom de juntar letras como que possuidores de rara varinha mágica, transformando-as em preciosos momentos - tão preciosos quanto aquilo a que costumamos denominar de "felicidade". Tão preciosos quanto esses, que o senhor de olhos brancos experimenta, e eu, que me vi transportada para local sagrado - coisa de feiticeiros - e sob uma clarabóia, senti o deleite de alguém ofertado por outro alguém.

Por isso te congratulo e agradeço.

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De Fleuma a 26.10.2018 às 17:16

Não fazes ideia de como tento ser fiel e reproduzir a emoção que sinto sempre que entro naquele local.

Falho miseravelmente.

Por mais que tente.

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