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(999)

 

 

Sei agora  que o pequeno e estreito caminho que conduz à minúscula estufa já não é percorrido todos os dias. Na neve ou no brilho do sol ameno. Que a vegetação se alongou e queimou debaixo do manto da geada. E o silêncio se revela insuportável na sua homenagem.

 

Soube há poucos dias...

 

Que já não adianta que me sente no alpendre acompanhado por este café negro como corvos, descansando as pernas de botas assentes no apoio de braços pintado de branco recentemente.

 

O velhote já não volta a sair pela porta de casa pisando as pedras húmidas do pequeno jardim; não caminha já, solene, gigante entre pétalas tardias e insectos negros, para a estufa de vidro baço. O ajoelhar quase etéreo e o curvar melancólico da cabeça grisalha numa oração silenciosa, o depositar de uma flor num pequeno lugar, são apenas espanto meu. Testamento escondido.

 

Eu sei que vou aceitar como sempre. Sei.

 

Não voltar a escutar o ranger da pequena porta de metal que oferece a saída do jardim para o passeio da rua larga. Nem testemunhar a quase maquinal orbita do fino pescoço, como manobra para desentorpecer a magnitude da solidão triste.

 

Sei.

 

Mas creio firmemente que este mundo está mais pobre e desolador. Inexplicavelmente mais encolhido e magro.

 

O velho senhor já não volta a caminhar erecto e sem a curva dos anos pelo passeio até se evaporar entre o nevoeiro húmido das manhãs e a esquina turva da rua de pedra branca.

 

Disseram, creio que para o meu consolo, que já se faziam tardias as horas e os dias de saudade do velho senhor. De quem? Do quê? Alguém me assegurou que por vezes amar outra criatura era assim, doloroso na ausência. Cruel no respirar nostálgico; onde todos os dias se tornam espera em saudades.

 

Não o sei.

 

Para mim, pelo muito que nos últimos dias conheci do velho, reservei um absurdo sentimento de perda. Um vazio agreste e gelado de estrelas distantes. Não se explica esta insustentável noção de vácuo onde antes passava, depositando uma homenagem, um velho a quem nunca exprimi um som.

 

Mas que sinto ter conhecido toda a vida.

 

 

 

 

 

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2 comentários

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De Isa a 18.01.2019 às 13:08

Já li este texto uma porção de vezes, ficando sempre sem saber o que dizer...
(Talvez por ser daquelas ocasiões em que não há mesmo nada a acrescentar a tão magnífica ode a quem partiu. Porque estragava).
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De Fleuma a 19.01.2019 às 19:47

E talvez tenha sido melhor assim. Creio que estava a tornar-me demasiado próximo da pessoa.


Talvez justifique esta emoção.

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