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Sou um homem de gatos. Seria fastidioso explicar o meu fascínio pela sua independência. Como desnecessário será revelar as muitas demonstrações de carinho e principalmente companheirismo destes reis de si próprios.

 

Também gostos de cães; ainda que menos, creio. Mas é impossível para mim que não aconteça uma vaga de admiração por  estas criaturas.

 

E  "Corto" é um caso distinto. Talvez na aparência seja igual a outros da sua raça. Talvez consiga perfeitamente ser mais um entre outros tantos; todos eles fieis e de beleza quase draconiana que tantas vezes se revela um embuste, porque invariavelmente nos encanta e esfumaça as  defesas .

No entanto, eu tenho a bizarra  tendência para observar paradoxos como justificação para acreditar em algo; tinta para os dias de dúvida. Pequenas criaturas que somos e de maior capacidade de razão, que nada serve quando penso no "Corto".

 

 "Corto" é uma criatura distinta. Diferente. Não faz parte da minha ideia de um entre tantos. Mas igual a alguns outros num pequeno ponto da elite natural. Assim teria de ser porque "Corto" é o olhar de quem não vê. São os olhos do caminhante da bengala nos dias de frio e ruas molhadas; das travessias nocturnas e das corridas pelo parque no raiar do dia quando tantos dormem.

 

Existe um manto de absoluta nobreza neste enorme cão. Na postura do pescoço direito e grosso. No caminhar silencioso e no estrondo do seu ladrar. No sentar lado a lado com quem não vê. No instinto protector, quase paternal, que rodeia todo o espaço que ocupa. Algo poético e épico.

 

Recordo-me de quando partiu a pata direita dianteira numa das nossas brincadeiras. No instinto de erguer este colosso do chão como se um filho fosse. Lembro-me do seu latido e das lágrimas a escorrerem pelo rosto de quem subitamente se sentiu mais cego e impotente; de braços esticados e frágeis. Lembro-me.

 

Do abraço estranhamente humano entre um homem e um animal. Do rosto molhado unido ao focinho do cão, dos seus olhos para o mundo. Do esmagamento asfixiante e descrente que surge quando constatamos, compreendemos, o que significa simbiose perfeita: naquele preciso momento. 

 

Aprendi então da inexistência de dono ou propriedade; de formulas sem valor de posse ou domínio.

 

Recordo que retive o meu respirar durante largos momentos. Chocado. Um estranho num universo que não era o meu.

 

Recordo...

 

Gosto de passear "Corto" sozinho. Quando não necessita de ser os olhos de ninguém. Quando é apenas ele. "Corto".

 

Gosta de caminhar e correr na praia. Prefere os dias sem sol e sem gente. Prefere os céus cinzentos e quando o vento sopra uma aragem fria e húmida. Entra na água fria e levanta o nariz para o céu cheirando e absorvendo a maresia, de olhos semicerrados e corpo encharcado.

 

Gosta de correr ao meu lado e de rebolar na areia molhada enrolado no meu corpo, enquanto finge estar zangado comigo. "Corto" é nobre e tem alma de poeta. Um príncipe nascido para ser venerado. Senhor que dita a vontade de viver para quem, por vezes, se recolhe na sua escuridão e verga ao peso da falta de uns olhos que vejam aqueles mesmos dias na praia; cinzentos e de mar cor de chumbo.

 

"Corto" é distinto. Sei que sim. Uma criatura que me recorda ainda ser possível nobreza desinteressada. Instintos que me afirmam que nem tudo é caminho para o niilismo. Ainda existe esperança. 

 

 

 


1 comentário

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Gaffe 04.02.2019

Deixa que lhe fale da "Bórgia", um dia?

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