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Eu costumava despejar os sentimentos; deixava desencadear as emoções em torrentes maciças de sensações. Nesta urgência implacável de manifestação, recordo plenamente, o que restava era pouco. Ou nada. Um vazio terrível; uma desilusão palpável aos mais pequenos detalhes. Uma destituição de preenchimento que sempre associei ao facto de exigir demasiado e detestar guardar dentro de mim os pequenos problemas de quem não gosta de ficar cheio de intenções. E emoções.

 

Sempre pensei dizer o que sinto no preciso momento. Incapaz de resguardar o desgaste que causa o silenciar que tantas e tantas vezes é necessário. Mortificam-se outros. Também morremos, claro, muito lentamente. Mas assim seriam as coordenadas de quem acha a verdade como absoluta. Essencial.

 

Agora.

 

Creio que existem, algures neste universo, leis que se divertem na criação de modelos de flexão. Estou convicto que existem momentos em que tudo o que pensamos saber, tão carinhosamente aninhados na nossa alma como ponteiros de orientação para a vida ( que estranha piada, esta!), se desarranja por culpa de uma outra pessoa. Existe esta absurda noção de catástrofe com sabor a redenção quando nos é demonstrado com precisão sinistramente cirúrgica, que existem outros caminhos a trilhar muito mais longe. 

 

O que mais me perturba é a noção de aprender de novo. Como se o que antes foi devorado e aceite como alimento se tornasse inútil; um reflexo pálido da necessidade extrema e por demais essencial de silêncios em vez de tempestades; uma demonstração das virtudes de reter o que muitas vezes deveria ser dito de imediato.

 

Silenciar que me foi revelado por outra criatura como imposição e aprendizagem. Porque afinal, não será de voltar a aprender que se trata? Que a minha  racionalidade, sempre tão feliz no postulado de exame até reduzir tudo a pequenos detalhes, se recolheria neste portento intimo que se torna o fechar a torneira da torrente e deixar sair o que deve sair em pequenas rajadas constantes. Economia pura e dura.

 

Nunca seria um candidato a prémios de paz. Até porque o meu egoísmo não deixa que outros consigam os feitos desta criatura. Creio que ficaria louco se tal eu permitisse. Mas entre estes ódios que são os meus, aprendi com ela, a lei de acorrentar cães raivosos cujo rosnar é música para estes ouvidos. 

 

Anoto como aluno paciente a virtude da paciência. A beleza do vazio que será colorida com a sua presença. O respirar da saudade que sempre me pareceu amarga revela-se agora como um tónico de lembranças para que algo se repita. Os perfumes familiares e ruídos de quem se move como um felino. As palavras ditas e escritas com intenção de rasgar, abrir caminhos que não os meus.

 

Tudo me assombra nestas emoções. Deixar que outro ser estenda a mão e aponte; que é também racional baixar os braços e escutar. Que o silêncio fala. Fala volumes. Mesmo que se tratem de sussurros e pequenas palavras que a minha alma tanto necessita. Mesmo que sejam o respirar com outra pessoa.

 

 

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