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Dizem que sorrimos mais, que temos sempre um sorriso a iluminar o nosso rosto. Dizem que o brilho nos olhos não deixa qualquer dúvida. Paixão e amor.

 

Eu não vejo nada disso. Nem sequer creio conseguir definir o que sinto sem cair no universo absurdo de um lírico romântico ... que não sou. Mas se por fora nada parece alterar-se, por dentro tudo parece ter sido devastado. Não consigo, se calhar evito, encontrar outra palavra que não o estado devastado.

 

Correram muitos meses e mesmo assim não consigo dominar a ansiedade. Não conseguir entender os sinais de quem entrou de repente e sem pedir permissão, revela-se penoso. E eu sempre pensando que já sabia, já havia lido e nada restava para ser ensinado. Tudo estava garantido e reparado na separação. Sozinho podia recomeçar a viagem.

 

Existem criaturas e criaturas. Somos muitos mas apenas uma pequena margem desta merda de existência é habitada por uma minúscula elite, capaz de aparecer diante dos nossos olhos e abrir uma outra página. Contra qualquer acto de defesa, rasgam o que carinhosamente foi urdido como fortaleza de protecção. Nunca mais se torna possível encolher os ombros e enfiar as mãos nos bolsos em desapego egoísta.

 

Existe uma nostalgia dos dias em que o pensamento era único e apenas para um. Há um fascínio intenso no minimalismo emocional de quem se sente só e tem prazer nisso. Mas esse minimalismo é fortuito como os olhos de um gato, porque alguém se encarrega de nos preencher cantos escuros e dormir com os nossos pensamentos. Uma criatura que parece conhecer-nos em cada fibra, vai caminhando cada passo ao nosso lado sem necessidade de esforço.

 

Sinto saudades quando não está presente. Pensei que isto se desvaneceria com os dias. Não. 

 

Novo para mim é o sentimento inexplicável que aquela criatura em toda a sua beleza quase humilhante é preciosa e que deve ser protegida. Não consigo racionalizar a sensação de protecção enquanto deixo que adormeça contra o meu corpo; que o calor que viaja para mim exponha necessidades que tento controlar a custo; as horas que permaneço acordado e vigilante suscitam emoções intensas quando afasto o seu farto cabelo para trás.

 

Gentilmente. Trémulo.

 

Tudo estranho. Tudo.

 

E vou vampirizando cada um dos seus traços. Permanecendo pasmado com os seus movimentos felinos e rapidez de acção. Deixo que se sente em cima do meu corpo, para sentir o perfume da sua pele, e antecipo a sofreguidão quase demente quando se formam curvas no canto dos seus lábios e uma risada de dentes brancos e lábios grossos reduz a pó qualquer necessidade de palavras para tentar explicar o que não tem explicação.

 

Que também não consiga explicar o quanto engenhoso se torna o seu pensar quando assim o decide, apenas contribui para esta minha estranheza radioactiva. Creio ser  a racionalidade pincelada de astuta sabedoria.

 

Calo-me.

 

Não tenho esse sorriso permanentemente colado a mim. O brilho dos meus olhos, disse-me,  fala de outras coisas, mas palavras e sentimentos são segredados por uma voz que os transforma em emoções sinceras. Força-me a acreditar que é possível.

 

Pequenas notas para mentalização ...

 

... um cego e o seu cão adoram-na.

 

 ... uma criança  tornar-se vibrante, sentindo-se em casa quando está com ela, merece uma séria referência  mental neste meu pequeno catecismo de incertezas.

 

Eu vejo as suas sombras e desisto de resistir. 

 

Tudo parece estar contra mim.





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