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 É eterna a gratidão que tenho por uma das poucas criaturas em que confio cegamente. Um gato negro de olhos verdes como gemas raras e focinho branco como neve. Foi com ele que preenchi as primeiras sementes de solidão quando, aos 18  anos, comecei a viver sozinho. Encontrei-o numa daquelas tardes de inverno chuvoso em plena calçada da graça. Cria frágil e em tremores de frio, de pelo encharcado. Junto a um caixote de lixo e pronto a ser assassinado por essa cabra a quem tantos gostam de chamar "mãe natureza". E se calhar, nem fui eu que o encontrei. Se calhar foi ele que me encontrou. Pela forma como deixou que o escondesse no bolso quente do meu casaco, talvez afinal estivesse à minha espera. 

 

Chamei-lhe morfeu porque pura e simplesmente adormeceu no bolso do meu casaco enquanto caminhava para casa. Tive sérias dificuldades para que acordasse em frente ao prato de leite que eu queria que bebesse para afastar a magreza e a fragilidade. Ficou morfeu e sempre me pareceu aceitar o nome com agrado.

 

Conhece-me como poucos. E creio piamente que será um companheiro para a vida. Pressente os momentos mais dolorosos. Junta-se a mim quando a solidão e a saudade por outras paragens quase me incapacita. Nas longas noites de insónia poisa sobre os livros de estudo dormindo um sono vigilante. Nos dias de longas horas a sono solto, se estou só, dorme ao meu lado. Se estou acompanhado, afasta-se tranquilo. Nas minhas ausências, quando não consigo que me acompanhe, sossega. Sabe que não o abandono. E para onde for irá comigo. 

 

Morfeu reage de maneira diferente à música que oiço. Tenho, no entanto, um pressentimento que a faixa Street Spirit dos Radiohead o deixa melancólico e estranhamente apático. E fico sempre com a sensação de que a tristeza o envolve. É algo estranho e quase visceral. Quando a faixa deixa de tocar, assume uma postura diferente. E isto não é uma coincidência.

 

Morfeu tem um companheiro há já uns meses. Um outro gato, cego de um olho. Porque compreendi que não são apenas os seres humanos que se sentem sós. Porque morfeu não me deve nada. Sou eu que estou em dívida. E nada mudou. Apenas o facto ser mais numerosa agora a companhia.

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2 comentários

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De alma a 12.09.2016 às 19:55

Preciso voltar aqui.
Faltam-me as palavras que quero escrever. Saio de alma cheia por tudo o que li e me tocou profundamente.
Já sabes que umas destas noites me venho aqui instalar de novo...
Abraço.
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De Maria a 07.01.2017 às 00:42

:)
Que mimo de história.
Ia lendo...e ia sorrindo.
:)
Obrigada por este momento.

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