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Eu já o sabia, sinceramente, mas por estes dias uma voz me confirmou:

 

" Não existe ressurreição! Desta vez, confirma-se! Ist tot!"

 

Remexer com as memórias é bastas vezes como o sinistro hábito dos que gostam de agarrar na roupa suja e sentir-lhe odores; revela-se um exercício maçador e inútil. Além de pateticamente semelhante a um bizarro fétiche de surdos tentando excitar-se com gemidos de prazer. Melhor seria não remexer o que não deveria ser remexido.

 

E no entanto ...

 

"Mas eu sempre disse que não existe ressurreição...", atirei  debilmente e sabendo como era fraca a afirmação. Rumino, amaldiçoando, entre dentes, a adorável criatura que alegremente acabara de escancarar a pequena porta do armário onde guardo rancores de purga e ódios de lamparina. Maldição!

 

Eu sou dos que acreditam em preferências pessoais. Devemos poder escolher. E eu, por exemplo, escolhi afastar-me das inutilidades que me rodeiam. Uma virtude desta escolha mora empoleirada no esquecimento e em certos casos, fico a pensar que essa inutilidade finalmente se desintegrou no pó dos dias; se remeteu ao silêncio da sua condição.

 

Claro que, por vezes, acabo por ser apanhado na desilusão e percebo que não se silenciara ainda. Que ainda restavam chispas de vida inútil. Embora fugaz, talvez por indelicada desatenção minha, havia suposta vida entre buracos existenciais. Dupla maldição!

 

Existe portanto quem escolha, porque tem esse privilégio, manter-se em vida artificial quando deveria escolher uma morte digna: não acreditando na ressurreição. A escolha seria a da procura do afastamento e silêncio absoluto. Aceitando o fim dos seus dias com um cêntimo de dignidade.

 

Permaneço céptico e de coração apertado. Apesar das boas noticias. Por muito que se alegrem os incautos prefiro esperar que o tempo me confirme a morte anunciada. Que, como me foi lembrado, ainda não se voltou a erguer o monumento aos temporais da vida. Pode ser que afinal, as estrelas se tenham alinhado, conjugando o momento perfeito para o fim de algo perfeitamente inútil para a humanidade.

 

Que o meu coração, sempre incrédulo, afaste esta nuvem de pó antigo que muito gosta de se

vestir de licença de nojo. Porque são muitas as vezes que um "até já " me irrita.

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