Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 

O senhor musgo sempre pensou que seria grande. Um dia imaginou que o seu tamanho seria importante. Que importaria aos outros. Que as suas emoções eram o que bastaria para a vida - existir que antecipava, seria  aspergido pelos doutos ventos da sorte. Esta nunca madrasta. Sempre mãe terna e atenta.

 

O senhor musgo escorrega liso e vagabundo entre as frestas estreitas, enquanto sonha descansar a cabeça em seios de opulência decadente. Em pensamentos anseia pelos braços assertivos de uma matrona em candidez serviçal. Sonha ...

 

O senhor musgo, em plena consciência e faculdades, queria acenar um adeus épico - embora lamentoso - à sua lastimosa falta de grandeza. Que de grande pastor nada tem. E como musgo que é, crê que nem sequer está nos primeiros lugares para a propensa glória. Mas tem a consciência do que é. Entre acessos de raiva e espirros de vil constatação tem a consciência pesada.

 

O senhor musgo não aceita e não nega. As suas crias são pequenas criaturas mimadas e exigentes. Esfrega, placidamente, a noção em comoção: a sua companheira é uma bruxa. Uma cretina em distopia que o senhor musgo carregará para toda a sua vida!

 

Mesmo que se ajoelhe e levante os braços aos céus, o senhor musgo não pensa em salvação. Interiorizou a sua descrença em deus, mas ergue os braços para as nuvens porque assim lhe foi ensinado. Não porque seja humilde. Mas porque necessita da piedade alheia.

 

É um musgo diferente: não anseia pela pacificação do silêncio. Como deveria ser realidade de qualquer forma de musgo que a mãe-natureza cuspiu. Vivendo dependente da bruxa que o repreende e insulta todos os santos dias da sua porca vida! O silêncio mata o pequeno musgo. A humidade rançosa da prole consome-lhe a vontade  - que de grande nada tem. Apenas possui a arte da guerra da uma trepadeira seca e decepada.

 

Porque não termina com a sua vida, o senhor musgo? 

 

Porque se petrifica com o silêncio. Porque ainda almeja algo. Uma luz ao fundo de um túnel de terror.

 

Um pedaço de musgo carente que se indignou. A sua vida não foi justa. Não lhe foi concedida justiça.

 

 





Arquivo

  1. 2020
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2019
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2018
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2017
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2016
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2015
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2014
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ
  92. 2013
  93. JAN
  94. FEV
  95. MAR
  96. ABR
  97. MAI
  98. JUN
  99. JUL
  100. AGO
  101. SET
  102. OUT
  103. NOV
  104. DEZ
  105. 2012
  106. JAN
  107. FEV
  108. MAR
  109. ABR
  110. MAI
  111. JUN
  112. JUL
  113. AGO
  114. SET
  115. OUT
  116. NOV
  117. DEZ
  118. 2011
  119. JAN
  120. FEV
  121. MAR
  122. ABR
  123. MAI
  124. JUN
  125. JUL
  126. AGO
  127. SET
  128. OUT
  129. NOV
  130. DEZ


topo | Blogs

Layout - Gaffe