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Portão de Valhalla 

(999)

Aprender os portentos onde não mora o sorriso ingénuo e fácil no seu brilho. Sem o respirar do som que enche os espaços em gargalhadas. Esta é uma arte sublime. Este pressentir quando os olhos penetram no rosto que nem sempre se acende, é uma ciência nascida nos poucos que quase não sorriem, talvez esculpida e criada por demónios onde o sorrir imenso não consegue descansar. É uma arte singular, esta. No rosto de sorriso raro é intenso o sabor da cumplicidade. Um  brilho nos olhos que depressa consegue destrancar os portões da alma,  e quando cruzamos esses velhos senhores é num fogo raro que encontramos abrigo.

Sei disso. Desses estranhos fogos de Marte que não existem em quem se perde naquele rir  que parece iluminar as órbitas. Sei... porque é minha a paixão pelos rostos feitos de luz e sombras - onde nem sempre cintila o sorriso mais rasgado.  E nem sempre são as sombras que comandam. Convidam a parar. A pensar. A planear. Cobertos por uma muralha desconhecida que parece inexpugnável, o caminho é feito tacteando, cheirando, ouvindo e saboreando.

E quando este rosto se abre, finalmente,  num sorriso que rasga a muralha de silêncio contido, é próximo de um esplendor divino! Um fogo que cresce alimentando preciosidades que conheço e protejo - por vezes durante semanas. Uma luz que cega  o incauto desprevenido e imprudente nesses momentos.

Quando a este gesto de expressão se une o som, todas as estrelas se alinham na perfeição. Não o som estridente e melodioso da gargalhada sonora dos dias de Verão. Não o ruído da risada infantil. É antes um som suave e manso como os passos de um gato. Mas vibra incandescente! De uma  felicidade etérea. Sem rasgar harmonias. Ainda assim assombroso: de uma beleza ora transparente como as manhãs do Norte, ora sombria nas suas promessas apenas conhecidas por poucos,  estranhos animais, de sentidos apurados e próximos da loucura por esta raridade. 

Misterioso - como o poeta que encontra a chave para a rima perfeita. Uma arte revelada apenas a quem adormece na sua mistificação. Apaixonado.

 

 

 

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