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Imagine-se um espírito solitário, porque é sempre assim no principio: solidão.

Imagine-se que desde muito cedo, após os primeiro passos e consciência tangível de fragilidades, o pensamento questiona a prematura fraqueza física. Porque razão os movimentos são tão ásperos no seu mais profundo cansaço; porque se deveria elogiar o vigor e apenas se procuram mais métodos para facilitar os passos de quem quer apenas mover-se.

Imagine-se que o espírito envelhece nesta condição humana: endurecido pela batalha de quem, todos dias, consegue pequenos vislumbres de inferno pessoal nos vinte cinco minutos de caminhar tortuoso entre um quarto e uma banheira; que este espírito não se torna mais virtuoso na  descoberta de respostas, antes ermita de questões sem limite.

Imagine-se que a salvação é um soletrar sem melodia sobre a necessidade inadiável de uma cadeira de rodas, porque o corpo não suporta mais tensão e os músculos são o espelho de um Inverno que nunca terminará. Calculando com a precisão de um velho artesão a falta de esperança nos olhos do cientista que parece rendido ao destino do espírito em frente.

E se, como último fôlego de quem já mal caminha, a ideia fosse aquele suspiro necessário para gastar as reservas finais na viagem a um Norte mítico e sonhado? E quando já nada mais houvesse, morrer?

Imagine-se os passos dolorosos e curvos do espírito que batalha para mais um pouco de caminho na neve que escorre densa e branca, e decide entrar pelos portões onde soava o trovejar do ferro fundido, para conseguir descansar uns momentos.

Foram olhos azuis de gigantes nórdicos que brilharam, cabeças loiras  e longas barbas claras, que se aproximaram do espírito de olhos verdes prostrado e derrotado.

Imagine-se que o espírito jamais esquecerá quem o ergueu do pó com mãos rudes e braços fortes. Que sempre se recusará a esquecer as horas, os dias, os meses de esforço para fortalecer um corpo condenado, enquanto a mente reservará para si mesma a desilusão, o lamento da rendição, a reverência por quem, desde aquela noite de Inverno, nunca o abandonou. Ou abandonará. 

O  espírito cresceu e quer agora ser também gigante mesmo nos dias mais próximos do Abismo, enquanto vai aceitando o calor do caldo primordial de quem todos os dias se torna mais forte e consegue agora caminhar na condição ambicionada - erecto e  de queixo levantado.

Mesmo que vá marcando o corpo com traços de lembrança porque a mente é traiçoeira. Ainda que tema ser um sonho este. 

Poder existir pela sua decisão.


2 comentários

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naomedeemouvidos 31.12.2020

Venho só desejar-lhe um bom ano novo.

Este espaço é um dos poucos por que me apaixonei irremediavelmente, por aqui. E um dos que me custou mais deixar ao "abandonar" o naomedeemouvidos. Gosto muito de o ler, mas, isso já não é um segredo. Nunca foi um segredo.

Espero continuar a ouvi-lo. É um viajante, como eu, em vários sentidos do termo, embora eu nem sempre consiga decifrar os caminhos por que se perde. Que ousadia, a minha. Mas é também por isso que gosto tanto de voltar.

Um abraço cheio desta amizade que se constrói virtualmente, palavra a palavra, a que sempre fui avessa e que desconsiderei quase sempre. Há uma série de certezas de que nos julgamos donos. Ou de que eu me julgo dona.

Que 2021 possa corresponder-lhe em tudo o que deseja. Para si e para os que lhe são mais queridos. E espero poder continuar a lê-lo, por aqui.
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Fleuma 31.12.2020

Sabe, o seu espaço "abandonado" é um dos que mais me custou a aceitar? Deixou-me uma sensação de perda e nostalgia. Como se tivesse perdido algo pelo caminho ...

Estranho e desconfortável. E eu que sistemáticamente penso em encerrar este local, não ajudou rigorosamente nada.

É uma sensação que ainda hoje persiste, estranhamente.

Admiro profundamente a sua capacidade de escrita atmosférica, quase consigo sentir sabores, cheiros...

Por isso gosto ler o que escreve com olhos rapaces, quase vampiros. Coisa rara.

Tambem não será nada de novo para si.


O que escrevo é pessoal e por experiência e só posso agradecer a sua leitura sem se assustar ou sentir desconfortável - sabe que eu não sei escrever de outra maneira. lamento.


Agradeço a sua companhia, sinceramente. Creio que não poderia desejar melhor.

Um bom ano para si e sim, a Croácia é demasido bela.

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