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É doloroso, aquele regresso às memórias, sempre que escuto as primeiras notas de violino daquele segmento especifico. Como se deixasse uma porta aberta e o vento venha suspirar aqueles velhos fantasmas. As recordações são, demasiadas vezes, um veneno necessário e tragado no vinho de estranhos demónios.

Poderia passar-lhe diante - até pisar as notas com as botas pesadas - que a expurgação não se consumaria. 

E estranhamente, não sinto qualquer semente de remorso ou arrependimento. Antes uma fome de falar o que não foi falado. Uma intensa vontade de regressar ao passado e, por breves instantes que fossem, rasgar o meu orgulho em tiras, e escutar com outros sentidos.

Nem sequer necessitar de um pedido de desculpas. Ou pedir perdão. Porque este sempre foi um terreno escuro e sem água que me sustente.

Não.

Compreender é algo exponencialmente mais difícil para mim. Mesmo que muitos pensem que os anos nos tornam mais sóbrios. Mesmo que muitos pensem nas graças do esquecimento que repetidamente teimam em afirmar na morte.

As notas não cimentam rancores, mas interrogações e incompreensão. Pregam na memória o voltar de costas e a solidão de quem escolhe partir com o peito cheio de palavras por dizer. 

Mas a necessidade de entender o que falhou nunca deixará de me consumir os dias e as noites. Mesmo que fossem apenas  escassos minutos - mesmo que apenas estivéssemos em silêncio - sei que nós, olhos nos olhos, sangue do mesmo sangue, conseguiríamos acenar e entender. Mesmo não perdoando. Mesmo não esquecendo. Conseguiria casar as notas daquela pauta com as correntes da culpa.

E por vezes, quando deixo que o violino me arraste no seu feitiço, pressinto-lhe a presença. O cheiro a perfume dos seus casacos e como sou um doloroso reflexo seu.

 

 

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2 comentários

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Fox 19.04.2021

Brutal.
Gostei muito.

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