Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 

A alma permanece acólita do Druida. Pelo menos é como lhe chamo e persisto. Mesmo que haja quem me informe desconhecer por onde caminha ele. Porque escolhe essas escarpas, quando tão fácil seria o voo rasante. O Druida é caminhante entre destroços. 

 

Mas eu chamo-lhe Druida e ele não o nega. Sorri em desvelo enquanto o vento agita a imensa barba branca que lhe cobre o rosto ossudo. Esfrega as mãos ásperas e ergue as sobrancelhas espessas e pálidas pela idade. O Druida não me confirma os seus anos. Nem tantos outros que o conhecem há décadas.

 

Os olhos ficam vermelhos enquanto o Druida consulta o seu Bong. Afasta com desprimor a farta cabeleira cuja cor me recorda a lua. Conhece os segredos universais pelo seu cachimbo de água enquanto une e volta a separar as raízes da alma - da sua alma. O Druida tem a alma profana mas fala com os deuses. Olhos nos olhos. E afirma com a certeza das escaras que não existe inferno algum! E o paraíso acaba por se tornar uma merda!

 

Eu gosto de chamar as coisas pelos seus nomes. E as pessoas são como as coisas, precisam de ter nome. Necessitam de ser chamadas. Mesmo que estejam a morrer o nome é a última coisa a ficar. Por isso chamo-lhe Druida. Entre outros nomes - tantos que ele mesmo os desconhece. Ou não. O seu Bong ajuda a desfiar a décadas e os nomes. O fumo abraça o vidro enquanto o homem entoa algo semelhante a uma aurora de notas. As suas botas pesadas marcam o passo da melodia e o pó das estrelas está diante de si - a um esticar de braço.

 

Ele sabe dos dias de solstício invernal. Ampara a liberdade das noites em serena liberdade. E prefere a companhia dos gatos que se aquecem contra o seu corpo. Em longas horas fica atento ao crepitar decadente da alma humana. Por isso se deixa embalar pela ilusão de solidão.

 

O Druida revela-se deus. Enquanto solta uma imensa baforada pelo nariz e entre os lábios, encosto a cabeça à parede para ouvir as virtudes de um sol que se transformou em réptil e se arrasta atrás da raça humana. Um Sol sem pés e escamoso. Inóspito e de sangue - frio.

 





Arquivo

  1. 2020
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2019
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2018
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2017
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2016
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2015
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2014
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ
  92. 2013
  93. JAN
  94. FEV
  95. MAR
  96. ABR
  97. MAI
  98. JUN
  99. JUL
  100. AGO
  101. SET
  102. OUT
  103. NOV
  104. DEZ
  105. 2012
  106. JAN
  107. FEV
  108. MAR
  109. ABR
  110. MAI
  111. JUN
  112. JUL
  113. AGO
  114. SET
  115. OUT
  116. NOV
  117. DEZ
  118. 2011
  119. JAN
  120. FEV
  121. MAR
  122. ABR
  123. MAI
  124. JUN
  125. JUL
  126. AGO
  127. SET
  128. OUT
  129. NOV
  130. DEZ


topo | Blogs

Layout - Gaffe