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Há dois anos, em plena  Buenos Aires, deixei que aquela artesã das cores traçasse no meu corpo a palavra Metanoia. E sempre que esta palavra consegue ser destingida no meio de outros traços sou normalmente brindado com olhares de ignorância tolerante ou questionado pelos poucos que lhe conhecem os significados.

 

A questão é que esta é uma palavra que poderia perfeitamente designar tudo e nada. Porque simplesmente abrange tudo. Pode significar o conhecimento pela alteração do pensamento. Das ideias que criam o caminho para uma maneira nova de viver. Gosto da ideia de expansão da consciência sem ter de me sacrificar pelos outros. Mas também quero aceitar  ( e muito!) a perceção de que alguém sente amor  ou amizade por mim. Metanoia torna-se fundamental para me avisar da necessidade de aceitar que alguém, algures, sente saudades minhas. Que consigo cravar um sorriso  no rosto de outra pessoa.

 

A artesã riu-se timidamente quando lhe solicitei a arte para a palavra. Que os traços fossem seus mas o significado ficasse marcado em mim. Mesmo que tenha estranhado porque razão Metanoia se não se tratava de uma aceitação de fé. Creio que a fé não é deus. É tomar a consciência do que mora nas franjas da minha vida e estar disposto a viver com isto. Que egoísmo é querer tudo para todos mesmo sabendo intimamente que alguém irá sempre ficar para trás. Prefiro deixar-me estar e atrasar o passo para poder acompanhar estes.


11 comentários

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Maria 29.12.2016

Vou fazer uma tatuagem no pé. Um dia.


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Gaffe 30.12.2016

Metanoia é também, em psiquiatria, o estado que pode eventualmente seguir-se a um surto psicótico, quando este dá lugar, depois de findo, a um processo que pode ser altamente criativo.

Não é comum, mas é possível.
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Fleuma 30.12.2016

Acredite cara Gaffe, era fundamentalmente na psiquiatria que eu falava. Corro o risco de ser julgado por mentes estúpidas, mas foi um psiquiatra que me deu a conhecer esta palavra. Será conversa para outras alturas, mas as marcas estão lá.

É possível, sim.
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Gaffe 30.12.2016

Em Carl Jung é essencial.
Pedro Paixão - o escritor - é provavelmente um bom exemplo de metanoia.
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Fleuma 30.12.2016

Nietzsche, Cioran, Hieronymus Bosch ...

Exemplos.

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Gaffe 02.01.2017

É curiosa a sua escolha.
Não sei se os seleccionados tinham surtos psicóticos que provocavam a metanoia.
Relembro que nem sempre a explosão criativa foi periódica. Alguns tiveram-na constante.
Embora o pensamento do primeiro caso que aponta tenha sido manipulado para se moldar ao pensamento nazi (o grande surto psicótico de uma nação e mesmo da humanidade),o segundo, creio, ter sido, não nihilista, mas um céptico romântico (o que o torna de certa forma forma antepassado de Sartre) e o terceiro, o grande percursor do surrealismo, há discrepâncias na eclosão, ou na constância, de criatividade que me parecem dificultar a suas inclusões imediatas no âmbito da metanoia.
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Fleuma 02.01.2017

Gaffe, creio que nesta questão, o problema parece ser o facto de estar a observar a palavra apenas no sentido psiquiátrico. E se calhar torna-se um pouco redutor. Veja, é uma palavra imensamente abrangente e não se reduz apenas a sintomas psicóticos, porque no âmbito da metanoia, não podem ser apenas atribuídos os acessos psicóticos ou o distúrbio bipolar. Sim, são elementos que despoletam a metanoia. Mas não são os únicos e em numerosas vezes até são menos frequentes.

A metanoia pode surgir em surtos religiosos, onde, por uma qualquer experiência, a fé se renova ou, tal como aconteceu a Bosch, se fanatiza, dando lugar a uma descarga criativa absoluta.

Ou também pode ramificar-se na filosofia, onde se procura uma alteração da forma de pensamento para uma nova vida (resumidamente ... ).

A metanoia é amplamente usada nas retóricas mais diversas e segundo me parece, acho que foi Peter Senge que associou a metanoia à organização empresarial.

Falei em Nietzsche porque este afirmava escrever não por pensamentos mas trovões. Nietzsche tinha surtos de criatividade que o levavam a escrever horas numa espécie de transe ao ponto de não se recordar do que escrevera. E era muitas vezes intensamente neurótico.

Também não acho Cioran nihilista. Mas, se tiver tempo e disponibilidade, leia a versão francesa de "Cumes do desespero" e principalmente o imenso " Silogismos da amargura" para ter uma pequena ideia de surto criativo e suicida deste monstro.

No meu post, destaco imensa cobertura desta palavra. E se a nível psiquiátrico é importante, creio que que não se limita apenas a ela.
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Gaffe 03.01.2017

Claro que sim.
Repare que só abordei a perspectiva psiquiátrica apenas porque senti que talvez não a tivesse contemplado.
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Bruno 31.12.2016

Assumo que desconhecia essa palavra, até lê-la aquo, neste teu canto tão especial... e gosto da maneira como descreves o significado da mesma, tal como gosto da ideia que a Gaffe dá nos seus comentários. Metanoia! Soa-me bem!
Quanto à ideia, pela qual tens apreço, de sentir que possam amar-te, mesmo sob a forma de amizade, sinto que isso é um tipo de sentimento fácil de sentir por ti. Tenho aquela ideia de que tens daquelas almas lindas, vincadas pela própria vida, que nunca deixaram de amar os outros, de preocupar-se com os demais, mesmo quando atacado por outros, quando te davam todas as razões para desistires das pessoas. E isso é um sinal de uma alma linda, capazes de se elevar acima de... bem, tudo. Ou quase tudo.
Acredita, meu querido Fleuma, fazes sorrir as pessoas. E, se me fazes sorrir, seguramente não serei o único.

Um abraço apertado, meu querido.
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Fleuma 01.01.2017

Talvez corra o risco de te desapontar, Bruno. Mas eu não me preocupo com os outros quando sou atacado. Tenho até a tendência para os odiar. Lamento se te desaponto.

Em minha defesa, creio, posso afirmar-te que as poucas pessoas que respeito e amo, essas sim, daria a minha miserável vida por eles. E esses sabem que sim. O resto não importa porque é acessório.

Agradeço o teu companheirismo e presença.

Saúde,
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Rii* 02.01.2017

obrigada e bom ano também para ti

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