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Que estranho, num vírus, a virtude do distanciamento. Como se fosse agora, nos dias d´hoje, que se  exponham máscaras e luvas na mais absurda necessidade de afastamento - como muros contra o avanço dos dedos da morte.

 

Há muitos anos que aprendi e aceitei a soberba da distância social. Como abrigo da consciência. Como purgatório mental. Creio que tudo se revela quando se sujeita a criatura humana ao extremo isolamento, sem passeios, sem o roncar das ruas encharcadas de gente. E multidões.

 

Aceitei a necessidade e a distância. Eu e mais alguém - no distanciamento de centenas de quilómetros da cidade, entre a floresta e a neve dos vinte graus abaixo de zero. Assim, não completamente só. Um teste de força mental a partilha de tão intensa solidão é a mais perfeita das sinapses, quando o retiro imposto se veste  imaculadamente de lendas contadas, de canções entoadas na voz que eu tão bem conheço e sinto. Como se a praga fosse uma conspiração para me obrigar a compreender onde mora a mais profunda das melodias, num dialecto que se torna cada vez mais meu. Ainda e como se, habilmente, para adormecer o receio e a saudade de outros.

 

O meu isolamento tem a coroa da melodia  da voz mais bela. Serve, para mim. Tem o caminhar na neve mais suave e o vigor dos banhos na água gelada - coisa de saudar o Inverno - disse-me. Mas tem sido também o calor humano de um estranho anjo. Indescritível na discrição da sua beleza. Calor de madeira a estalar e de abraço caloroso.

 

O vírus parece revelar-se em nós. Em mim. Voltei a aceitar heróis. Não da filosofia ou das guerras. Salvadores que sempre dei como presentes e que agora se revelam num campo de batalha sem trincheiras, tanques ou misseis. Se alguma virtude tem o vírus  para o descrente é a da revelação. Olhar para esta realidade e compreender que em breve surgirá uma outra mitologia; novos mitos. Habitam entre as camas e ventiladores. Ajudam a sacudir a mão da Morte nas horas que não dormem e parecem assustar o desespero de quem teme morrer.

 

 

E enquanto embalo  esta nova noção, consolo, novos mitos que quero alimentar,  vou alargando espaço além dos próprios heróis que já permiti na minha mitologia.

 

 






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