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(999)

 

Que estranho, num vírus, a virtude do distanciamento. Como se fosse agora, nos dias d´hoje, que se  exponham máscaras e luvas na mais absurda necessidade de afastamento - como muros contra o avanço dos dedos da morte.

 

Há muitos anos que aprendi e aceitei a soberba da distância social. Como abrigo da consciência. Como purgatório mental. Creio que tudo se revela quando se sujeita a criatura humana ao extremo isolamento, sem passeios, sem o roncar das ruas encharcadas de gente. E multidões.

 

Aceitei a necessidade e a distância. Eu e mais alguém - no distanciamento de centenas de quilómetros da cidade, entre a floresta e a neve dos vinte graus abaixo de zero. Assim, não completamente só. Um teste de força mental a partilha de tão intensa solidão é a mais perfeita das sinapses, quando o retiro imposto se veste  imaculadamente de lendas contadas, de canções entoadas na voz que eu tão bem conheço e sinto. Como se a praga fosse uma conspiração para me obrigar a compreender onde mora a mais profunda das melodias, num dialecto que se torna cada vez mais meu. Ainda e como se, habilmente, para adormecer o receio e a saudade de outros.

 

O meu isolamento tem a coroa da melodia  da voz mais bela. Serve, para mim. Tem o caminhar na neve mais suave e o vigor dos banhos na água gelada - coisa de saudar o Inverno - disse-me. Mas tem sido também o calor humano de um estranho anjo. Indescritível na discrição da sua beleza. Calor de madeira a estalar e de abraço caloroso.

 

O vírus parece revelar-se em nós. Em mim. Voltei a aceitar heróis. Não da filosofia ou das guerras. Salvadores que sempre dei como presentes e que agora se revelam num campo de batalha sem trincheiras, tanques ou misseis. Se alguma virtude tem o vírus  para o descrente é a da revelação. Olhar para esta realidade e compreender que em breve surgirá uma outra mitologia; novos mitos. Habitam entre as camas e ventiladores. Ajudam a sacudir a mão da Morte nas horas que não dormem e parecem assustar o desespero de quem teme morrer.

 

 

E enquanto embalo  esta nova noção, consolo, novos mitos que quero alimentar,  vou alargando espaço além dos próprios heróis que já permiti na minha mitologia.

 

 

 

Eu ...

 

 

A felicidade não deveria proporcionar a sensação de preenchimento. Nem sequer acarinhar a ideia de "um todo", de  totalidade sem receio. Imagine-se uma felicidade suprema, da mais completa entrega e confiança; onde todos os dias a mais intensa das realizações se tornasse realidade.

 

 Este sonho como absoluta realidade. Que esta felicidade, plenitude e realização,  libertasse esta esfera onde caminhamos de  toda a opressão e doença. Nada seria maligno. Apenas felicidade.

 

Imagine-se que seria possível destruir a  tirania da utopia, e ser perfeitamente feliz se converteria num absoluto.

 

Como se consegue sequer, antecipar tamanha noção de tamanho, totalidade e estado divino sempre foi algo que me provocou um esboçar sorridente; talvez porque me fascinam e assustam tais estados de total entrega ao absoluto impossível. Porque se revela impossível uma pequena abstracção que seja com conceitos onde todos os dias seriam de agraciamentos ilimitados, amores imensos e harmonia entre todas as criaturas deste mundo.

 

Um persistir no pensamento de que nada mais seria de desejar; feliz e perfeito tudo estaria de acordo com o bem de todos. Como se a felicidade fosse o que mais importa ...

 

Acho que sou feliz nos olhos de uma criança que se aperta contra mim. Acho que este estado de estranha evasão é ser feliz quando caminho lado a lado com ele, a bengala e o cão.

 

Ou porque me salva a emoção segredada num aperto extremo - "Amo-te".

 

São testes de força física - vencidos.

 

É música - exposta a outros ouvidos.

 

 

Talvez seja assim que vejo a felicidade que não  deverá ser absoluta. Creio que a perfeição se tornaria grotesca sem a sensação de Limite. Limites que são urgentes. Impossibilidades que tornam cada gesto, palavra e sabor, um caminho.

 

De que serve a totalidade feliz se tudo estiver realizado. Se não restar nada que exija um limite deixando o amargo da desilusão e do desejo falhado.

 

Como se pode sonhar com a  felicidade absoluta sem conhecer o que realmente cobre as criaturas de vida?

 

Desilusão. Dores. Imperfeição. Limite e fim.

 

Aprender. Quando todas as dúvidas se tornam cristalinas.

  

(999)

 

" Open, Ye Core ..." 

 

 

Violência controlada. Sente-se escorrer na pele. Bate asas e rodopia pela sala em escuridão. Como que feita de trapos sombrios; alimenta-se do suor banhado na frustração dos dias de incerteza e nos desejos. Desejos tão negros, ali, na distância de um tocar.

 

Como consegue ser majestosa a doce violência do som! Reunifica os pedaços da alma e alimenta a sofreguidão deste veneno. Envenenado na liberdade criativa sem limites ou deuses. 

 

E é amor, amar esta violência que se deixa domesticar. Como que na placidez dos crentes nas suas virtudes. Como no sossego que nasce da sabedoria. Quando o som cresce em monstruoso e na mente dançam as sombras enamoradas nas palavras atiradas, cuspidas, ásperas como lâminas, e é na escuridão que existem as respostas. 

 

Não nas luzes.

 

Em sangue. Amo-a. No indescritível comando de uma canção. Toda uma vida de cinzas existe. Acorrentada na noite.

 

Amo a violência do som negro ainda e quando tudo parece acalmar-se e pela sala restam as faces espantadas e as bocas abertas de sede. Venero a devastação que permanece. 

 

Quando tudo se silencia.

 

Eu ...

 

(999)

 

A ideia de conhecimento pessoal, voltado para dentro e com a extrema necessidade que nasce de aceitar o que transparece, longe de tudo e toda a atenção que não a nossa, revela acima de qualquer nota, a sombra do mais perfeito egoísmo. Engenhoso egoísmo que semeia a virtude de algo apenas nosso e nunca revelado, mesmo quando na troca de confissões intimas. Mesmo perante o olhar persistente do psiquiatra.

 

Alguém me afirmou que conhecer o que "habita" em nós é como pernoitar numa casa entre montanhas e durante uma tempestade de neve. Quem já testemunhou a fúria assassina da nevasca do Norte entende a incapacidade de responder sobre o que habita em nós. Podemos fechar  janelas e criar calor para aquecer. Existirão sempre frestas de imprevisibilidade e escuridão. E espaços que apenas eu conheço e tenho acesso.

 

E gosto dos meus recantos escuros e frios. E dos teus. Do que consigo transportar em mim enquanto bebo das tuas palavras. De ínfimas possibilidades. Assombros. Promessas cumpridas.

 

Conhecer.

 

Não gosto do que canto. É grotesco. Não existe realmente luz nele. Antes a tua canção. Infinitamente mais respirável. Mesmo que sonhadora, é respiração. Desgraçadamente necessária.

 

 

 

(999)

 

eu

 

...

 

O pior dos erros cometidos é a incapacidade de aceitar outros como diferentes. Tornam-se obstinadas as criaturas quando descobrem que outros não são iguais a si. Persistem obstinadas na ideia de alma-gémea, transformando-a caridosamente em reflexo. O seu conceito de transformação é aquele de uma lógica companheira, gostando do mesmo e rezando o mesmo terço. Falsamente aceitando no pensamento de que são seus semelhantes.

 

Não creio ser igual a ninguém. Não creio que os outros queiram ser iguais a mim. Não me interessa. Tenho caminhos apenas meus mas nem sempre os percorro só. Nesses dias é necessário que peça e muitas vezes estenda a mão, abrindo portas para companhia. Mas  estranho é o sentimento de conhecimento e solidão. Estou mais ciente da solidão quando acompanhado. Encaixa na perfeição.

 

Por estes últimos dias retive a noção da minha falta de beleza exterior. Um pouco pior do que isto: alguém me afirmou perturbado achar ser também muito feio de alma!

 

Aceito ambos os juízos com a parcimónia e afectação da falta de surpresa. Porem devo reconhecer em meu próprio mérito que se tornou muito mais fácil viver comigo próprio do que com os outros. Que é apenas o meu egoísmo a latejar, mas não somos todos iguais e merecedores do mesmo amor. O oposto é também uma realidade. Existe quem encontre beleza em mim. Na mais profunda essência isto basta.

 

 

 

 

 

 

 Eu

 

(999)

 

 

Ninguém na sua perfeita racionalidade deveria esperar retribuição de um olhar frio e distante. E portanto, existem os que persistem, teimosos de convicção. Incapazes eles próprios de aceitar o fracasso e suposta impossibilidade de transpor paredes e muros altos. Creio na minha incapacidade de partilha em larga escala. Não por arrogância  ou presunção Deus Ex Machina; é um facto penoso mas existe quem não consiga absorver tanta gente ao pé de si. Por absurdo que seja, consigo com dificuldade, reter um reduzido número de verdadeiros amigos. Impossível conceber rodeado de gente em festas. É sintomaticamente aterrador.

 

 

A palavra "amo-te", exprimida com brilho no olhar e por quem consegue descarregar doses letais de certeza emocional, funciona como a destruição do ferrolho; mesmo prevalecendo a minha noção do quanto distorcida e vulgarizada tem sido esta expressão. Ainda que insista no questionar da sua importância, alguém persiste e afirma claramente a noção de excepção que confirma a regra.

 

Eu nunca imaginei qualquer tipo de imunidade a ser amado. Sei por análise frequente que existe uma dualidade na primeira observação de quem me encontra. Uma nuvem de incerteza muitas vezes extremamente visível; e receio, que acredito ser causado pelo aspecto físico. Não me parece que haja um meio-termo ou outra possível comparação. A minha irritação inicial pelo facto desta reacção ser tão estupidamente comum foi sendo progressivamente substituída por um certo divertimento pessoal; é fácil despertar comportamentos embaraçados a quem receia ou está incerto. Basta que mostre de forma bastante suave os dentes num sorriso afável. Observam que afinal, as presas do urso até parecem inofensivas e se calhar houve precipitação. Mesmo desconhecendo que sou criatura apaixonada pelas artes da mordidela dada e principalmente recebida.

 

Por um qualquer desvairo existencial, entre tantos "amo-te" atirados ao vento de forma banal e absolutamente asquerosa, existe um, segredado nas horas mais escuras, quando o pensamento se tornou numa massa turva e nebulosa, que possui alquimia de salvação.

 

Alguém insistiu.

 

Falta agora que me habitue a aceitar uma derrota.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(999)

 

 

A redenção tem um preço. Escorre com um sabor acre. A mim sempre me pareceu. Só os conscientes do naufrágio procuram a redenção, como se de uma amante infiel se tratasse. Vamos desfiando os dias no falso sossego da salvação; talvez dentro de horas anoiteça e consigamos dormir.

 

Sono.

O verdadeiro pathos para a redenção. Ironicamente, dormir é rendição. Redimir sem batalhar. Nem sequer será o afago terno do abraço transformado em caricia. É não lutar. É descansar. Dormir.

 

Eu tenho visto tentativas de redenção em poucos rostos. Mentiria se afirmasse acreditar nas faces que sorriem, tentado a salvação. É meu descrédito, mas quem respira uma vontade de redenção não consegue sorrir. Sei antes que vamos apodrecendo um pouco mais em cada tentativa. Temo que um sorriso se revelaria demasiado penoso pela consequência.

 

Não tenho a certeza mas numa espécie de arremesso deixei de procurar a redenção nas cápsulas e pequenas substâncias redondas como ilusões de esperança, e reconheci a necessidade de vagar sem a doce certeza de que o que foi deixado seria sempre uma garantia de pacificação. Sintética juíza da minha incapacidade de salvação.

 

Estranhamente, não existe deus na redenção. Apenas uma monstruosa noção de vazio e da sua necessidade de preenchimento. Um brilho intenso nos olhos como numa permanente vontade de devorar. E uma certeza, clara como uma manhã de verão, de que não existe uma cura. Apenas se vive entre mundos.

 

Nós, procurando um redimir, vamos pontuado o nosso corpo com cicatrizes e imagens, numa vertigem quase messiânica de aviso e arrependimento. Dolorosamente convencidos dos traços deixados transformados em cinzas.

 

999

 

...

 

Nada se revela de maior perfeição do que um restrito círculo de amigos. Um pequeno anel de cúmplices de todas e nenhumas horas. Companhia por caminhos estreitos e onde é a noite a verdadeira mãe. E mesmo ainda, companhia, quando brilham as luzes reverentes ao acordar de mais uma passagem de Hypnos.

 

A raiz da minha descrença na ideia de uma verdadeira felicidade apenas atingida pelo calor de muitas amizades nasceu do egoísmo. Sou um egoísta que aprimorou a solidão como fonte de inspiração a prosseguir a minha vontade. Os que sempre me chamaram arrogante e presunçoso desconhecem a minha indiferença e um facto absoluto: a solidão encadeia os sentidos do solitário e permite realmente desfrutar, saciando a sede, dos verdadeiros amigos. Reconhecer um entre centenas é uma alquimia rara e apenas concedida ao solitário penitente.

 

São imensas as criaturas que desdenham desta noção que estabelece as amizades restritas. Como se este mundo fosse um imenso circo onde se pensa, pateticamente, abrir os braços ao mundo com dezenas de amigos porque tudo se liga e relaciona na sacrossanta rede social. Santa ignorância! Como se fosse apenas isto o necessário. Um gosto na fotografia é coisa para ter muitos amigos.

 

Quantas serão as almas deste mundo que retendo em si mesmas a ilusão de muitas amizades, conseguem sentar-se frente a frente com alguns destes? Falar olhos com olhos. Sentir a solidão esvair-se graciosamente pela força do riso de quem nos acha demasiado sérios.

 

Um pequeno anel de amigos e amados. De viajantes embalados na cumplicidade de emoções e desejos.

 

Tudo o resto se revela sistematicamente de uma inutilidade medíocre e sem necessidade de um segundo olhar.

 

 

 

Poland 2017.

 

 

Thank you! We will never forget.

 

Until next time.

 

 

Besiege the thrones of reverence!

 " Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. ", Emil Cioran

 

(999)

 

Mil palavras não seriam  suficientes para o descrever. Talvez a viagem apressada do sangue pelo corpo seja um pálido reflexo. Talvez o medo de esmagamento. Talvez o incessante pensamento a martelar - que a manhã se encaminha e o esforço da noite findará - seja o suficiente para aceitar o descanso.

 

O que é este sentimento de gigante que sinto? Esta profana noção de força bruta assusta-me. Tentar significados quando se superam fraquezas não tem descrição. E mesmo a lógica mais fria não comanda o conforto da negação ao que foi antes vaticinado. Não se explica. Sente-se nas piores tormentas. É pele que não se veste como galhardo esforço para aparência. É carne temida pela mácula dos frutos que para ti, ele, ela e eles, geraram uma capacidade quase surreal de forçar uma força que nunca serão capazes de sonhar.

 

Mil palavras não descrevem as mãos gretadas pelo atrito no ferro. Como se tornam grandes para não deixar fugir o momento em que finalmente aquele peso, antes miragem de espantos, se eleva do solo. O sangue que escorre entre as narinas quando as costas lutam com o peso e a gravidade. E alguém consegue sequer vislumbrar  o êxtase de passar a língua por esse sangue que escorre quando  nos gritam, entre a névoa da dissipação mental, quase de mãos dadas com o desfalecimento: " - Conseguiste!! "

 

... Uma vez mais.

 

Já me foi afirmado que certas tentativas de superação são perfeita loucura e caminho para um fim rápido. Uma grande maioria.

 

Outros, poucos, quase irmãos, sabem do segredo religioso. O delírio que enche o corpo e a mente. O triunfo de uma dor partilhada por ombros, peito, costas e pernas em fogo. Alquimia de espessura muscular que cria gigantes ...

 

 




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