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Há dois anos, em plena  Buenos Aires, deixei que aquela artesã das cores traçasse no meu corpo a palavra Metanoia. E sempre que esta palavra consegue ser destingida no meio de outros traços sou normalmente brindado com olhares de ignorância tolerante ou questionado pelos poucos que lhe conhecem os significados.

 

A questão é que esta é uma palavra que poderia perfeitamente designar tudo e nada. Porque simplesmente abrange tudo. Pode significar o conhecimento pela alteração do pensamento. Das ideias que criam o caminho para uma maneira nova de viver. Gosto da ideia de expansão da consciência sem ter de me sacrificar pelos outros. Mas também quero aceitar  ( e muito!) a perceção de que alguém sente amor  ou amizade por mim. Metanoia torna-se fundamental para me avisar da necessidade de aceitar que alguém, algures, sente saudades minhas. Que consigo cravar um sorriso  no rosto de outra pessoa.

 

A artesã riu-se timidamente quando lhe solicitei a arte para a palavra. Que os traços fossem seus mas o significado ficasse marcado em mim. Mesmo que tenha estranhado porque razão Metanoia se não se tratava de uma aceitação de fé. Creio que a fé não é deus. É tomar a consciência do que mora nas franjas da minha vida e estar disposto a viver com isto. Que egoísmo é querer tudo para todos mesmo sabendo intimamente que alguém irá sempre ficar para trás. Prefiro deixar-me estar e atrasar o passo para poder acompanhar estes.

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A palavra "amo-te" perdeu o significado. Creio que nos dias de hoje se diz demasiadas vezes esta expressão. Talvez por influência de filmes. Talvez por causa de anos e anos de poemas ou prosas, não tem o mesmo significado. Como pode ter qualquer sentido quando atirada em direção a outra pessoa, saindo dos lábios de um adolescente de 12 anos para certificar sentimentos em relação a um suposto amor? "Amo-te" escorre nestes dias como uma banal aquisição sem nunca passar pelo crivo do verdadeiro sentido.

 

Sempre fui desconfiado de quem sistematicamente afirma "amo-te". Nunca senti verdade numa palavra que salta tão facilmente de outra pessoa. E não me refiro ao "amo-te" maternal ou paternal, que muitas vezes é dito e bastas vezes não é sentido. Porque se convence os pais que é mister assim ser, na tentativa de justificar ainda mais amores pela prole. Refiro-me à palavra dita entre amantes, marido e mulher ...

 

"Amo-te" tem de ser dito como desferindo um soco. E entre os verdadeiros amantes, aqueles resistentes que muitas vezes desistem de tudo para permanecer lado a lado nunca deixando que o fogo se apague, é um segredo guardado com a vida. Raramente os verdadeiros amantes proferem a palavra "amo-te". Porque dói e arde cruelmente.

 

Quando oiço esta palavra maldita toda esta solidão que ergui em muitos dias de esperanças soltas é varrida. Porque deixei de acreditar na maioria das vezes em que é dita, algo em mim se recolhe em fragilidade. E não deve ser dita em gritos ou sequer em voz alta. Tem de ser sussurrada ao ouvido e também preciso de me sentir aprisionado por braços. Assim não é possível fugir. Escapar.

 

Sou um daqueles animais raros que muito raramente consegue proferir esta palavra, embora a sinta. Não por arrogância. Porque "amo-te" é como cuspir algo vital em mim e de importância fundamental. Não consigo explicar o que se torna e retorna em mim, creio. Mas é como se perdesse uma das minhas vidas. E absorver o impacto de outra pessoa é ainda mais assustador porque existe quem sadicamente saiba desferir este soco em mim. 

 

Esta preciosidade é maldita. Usada por arqueiros que realmente são consumidos por ela é letal. E como é verdade que apenas uma pequena minoria é realmente grande nesta arte o seu valor não se mede. Por isso tudo o que resta é aquele "amo-te" vago e forçado. Superficial e desolador. 

 

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A pergunta foi feita a uma pequena criança quase em surdina. Mesmo entre tantas outras pessoas, consegui ouvir a resposta dada à mãe pela criança e futura mulher,

 

" Bárbaro!"

 

A mãe sorriu ainda em surdina. Um pouco embaraçada pela resposta pronta da sua cria mas ainda assim em concordância. E sabemos como são as mães e os pais quando o rebento corresponde exactamente ao que pensam e desejam: crescem e expandem. 

 

"  Bárbaro!"

 

Serve. Porque se calhar a pequena cria não conhece outro caminho para designar a beleza. Ou falta dela. Ajuda. Muito porque a progenitora também não conhece outra maneira de identificar o que se distancia da presença que com ela dorme todas as noites. Incapaz de abarcar o que a rodeia para além da ida para o escritório; logo a seguir ao alivio de quem se liberta, por algumas horas, da pequena criança à entrada da escola.

 

E morde o lábio inferior de maneira meticulosa, como que manejando o chicote metal do arrependimento pelo julgamento do que não conhece. Embora assim o desejasse. Assim fosse possível ultrapassar décadas de cegueira. A mãe cumpre assim o seu papel sagrado e divino. Não porque algum deus assim o tenha ordenado. Não porque nasceu desta maneira. Porque com toda a sua autoridade materna ainda não foi capaz de matar a complacência. 

 

Mas talvez fique a imagem. Pode ser que à noite, arrumada a loiça suja na máquina, deitada a cria e finalmente sentada para mais uma dose de novela, a mãe se recorde. Pode ser até que comente com o seu homem que muito provavelmente já se encontra a dormitar. Ou então, que lhe surja uma única epifania para  o resto da sua existência: o meu olhar não foi de compreensão. Foi de inevitabilidade.

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 Estar próximo do abismo traz as memórias de um passado ainda pouco distante. Não sinto necessidade de justificar nada. Tudo o que aceitei  vai deixando marcas desgraçadamente presentes. E no entanto nada se compara ás palavras escutadas quando tudo parece perdido. Quando começar de novo se parece com um sonho distante. Uma utopia de cores inexistentes.

 

Por vezes basta um tremor na voz do julgamento. A não aceitação daquele caminho escolhido, por entre tantos outros, porque razão aquele caminho? E eu tenho chegado perto do abismo. Do meu abismo. E por cada visão próxima, vou morrendo um pouco mais. Porque só assim se justifica esta cadência e necessidade de escuridão. Manter a recusa da satisfação ( ainda que breve e apaziguadora ) porque o pensamento está sempre no dia de amanhã. No que irá ser e poderá acontecer. De novo.

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 Não lamento o que já se passou. Raramente revejo porque razão agi em determinado momento de uma maneira, quando poderia ter dado outras voltas. Possivelmente, poderia ter pensado diferente. Mas realmente, muitas vezes tudo se dissolve naquele fumo ou naquele trago de gin. Porque por vezes e ainda que não se queira, a necessidade de esquecer torna-se numa tirania diária. Pouco me interessam os motivos do que já passou ou ficou para trás. Ainda que se julgue possível ouvir os gritos de certos momentos isso não acontece. Apenas são sussurros e eu sei perfeitamente com que facilidade deixo de escutar quem sussurra. 

 

A distância deixa-me à deriva. A insistência de apenas escutar as palavras de alguém que arrogantemente  cravou uma adaga na minha solidão enche aqueles dias em que me afasto do sol ou do calor dos dias. Porque veja-se, conheci-a na escuridão e quando o frio enchia a noite. A sua mão mostrou-me onde é que a aurora boreal se espreguiça e em que pontos se torna mais distante e bela. Daí que irei fugir para outra latitude, claro. Porque tenho uma estranha capacidade, voltar as costas a tudo o que me causa distanciamento do que realmente considero paz interior. Felicidade. Alguns, os poucos que realmente sentem, chamam-lhe assim.

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Eu nunca parei. 

A minha mãe desde cedo me confirmou uma certa estranheza pelo facto do seu filho não ter feito o percurso normal do récem - nascido: gatinhar e depois andar. Disse-me que me limitei a erguer-me, agarrado a paredes e recusei o gatinhar. E eu nunca deixei de andar. Marchar. Caminhar sempre para mais longe. Por isso sou um viajante. Desloco-me por espaços físicos com a mente sempre aberta ás distâncias a percorrer. E são imensas! Nunca acabam. Morrerei com o conceito atravessado  no meu corpo. Nunca conseguirei viajar o suficiente. Caminhar o necessário e desaparecer entre as neves por onde tanto me pacifico enterrando as botas no manto branco.

 

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Permanecer em plena floresta gelada. Rodeado por árvores secas e raquíticas. Nas últimas horas da noite mais gelada das últimas semanas. E em silêncio absoluto, sepulcral, escutar o uivo dos lobos. A chávena de café negro forte estremece na mão. O pescoço endurece e um arrepio incontrolável corre as costas. Até à nuca. 

 

Uma mão aperta-me o ombro. Puxa-me para a realidade. Recuso negar a embriaguez do momento. Ali, naquele lugar, poderia perfeitamente ser o meu local de morte. Eu que sonho tão pouco. Eu que me apaixonei por uma terra onde não nasci. Mas que me pertence. Que sei ser parte de cada fibra do meu corpo. Quanto mais me aproximo dela mais se apossa de mim. Por isso, volto as costas ao que supostamente deveria ser meu para o que eu sei, será o meu verdadeiro porto de abrigo.

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A memória exacta do primeiro dia em que comecei a viver sozinho nunca me deixará.

 

Recordo-me de que era já noite cerrada e eu tinha acabado de chegar, após mais um dia a trabalhar e a estudar. Sentado no chão da sala minúscula de um apartamento minúsculo, de costas contra a parede, sabia que provavelmente eu teria a melhor vista da cidade. Conseguia ver o largo da graça e tudo  o que o rodeava. Recordo-me de me perder num estado de cansaço absoluto. Esticar as pernas e ouvir os ossos a estalar. Nem sequer ainda tinha a luz ligada. Aquela escuridão até era bem vinda.

 

Também ainda não tinha mobília e por isso deixei-me ficar contra a parede, com o casaco de penas vestido e o capuz posto, porque aquele era um inverno duro e implacável. Sentia um misto de solidão descompensada e uma euforia que me deixava quase doente. Um silêncio absoluto para pensar e ruminar no que iria ser a minha existência a partir daquele dia, onde ( e eu sabia-o de maneira tão intensamente visceral) não haveria retorno ao passado recente de alguns dias.

 

Adormeci.

Com o queixo enterrado no colarinho do casaco e as mãos nos bolsos. Pela primeira vez em anos, sentindo-me quente e

confortável. Acordei no dia seguinte, num domingo, eram já quase cinco horas da tarde. Dormira muito para além de quinze horas e o céu continuava da cor do chumbo. Caía uma chuva suave.

 

Saí para a rua.

Dentro do meu peito havia uma emoção  de liberdade tão violenta que pensei que o meu coração iria parar. Caminhei horas pelas ruas. À chuva. Absorvendo o que me rodeava e contra todas as previsões, premeditações e agravos, sentindo-me feliz e livre.

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