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(999)

 

É vital a consciência do peso e vitalidade da palavra " Singular". As criaturas singulares são mais belas e mais brilhantes na sua singularidade.

 

- Singularidades ...

 

Fascino-me intensamente com esta palavra, com todas as suas curvas e arestas. Como se a razão não tivesse força suficiente para justificar - explicar -, a potência anímica de ser único. Inigualável.

 

Singularidade naquele pensamento no exacto segundo em que a promessa é feita, quando pressinto que será cumprida. E não apenas atirada como promessa de fuga. Eu gosto dos que cumprem as suas promessas porque são como traços escritos nos versos de canções minhas. Minhas.

 

Às vezes basta apenas que outros sejam os meus olhos; que consiga apenas olhar na pressa de olhares que não são meus. E é quase possível sentir o cheiro e limpar a humidade da brisa de outros recantos. É quase a ponta de um clarão distante. Tão fugaz como um fogo fátuo.

 

Singularidade que depois se esconde. Transformada em segredo entre os dias de normalidade igual a muitos outros dias. Só conhecida por quem lhe pressente os segredos e fragilidades.

 

Gostaria que ficassem um pouco mais. Mesmo que fosse apenas para dormirem uns minutos mais. Sim - mesmo quando se apagassem as estrelas e o tempo parece não perdoar -, sei que fecharia os meus olhos e seria seu companheiro de viagem.

 

Respiração "Singular". Tracejando singularidades.

 

 

 

 

 

 

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OS TRAÇOS QUE DEIXAMOS ...

 

 

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48340248

 

 

A Vida um dia perguntou à Morte " Morte, porque razão sentem as pessoas amor por mim e ódio por ti? A Morte respondeu " É porque tu és uma bela mentira e Eu sou a dolorosa verdade"

 

 

Este amor que nos torna arrogantes entre palavras de fé e a necessidade de permanecer vivos. Este amor, estranho amor, que nos transforma em alcoólicos sedentos de comandar os outros, mesmo entre os últimos espasmos e respiração diluída. Este amor que não permite o descanso da morte enquanto dormimos e insiste na crença do consolo piedoso enquanto o corpo permanece imóvel e silencioso, um idiota desabrigado ...

 

Este amar em desconsolo, como que mastigando as lâminas de um desejo de libertação deste mundo, decide, insiste, no ouvir da respiração do menino perdido, como que venerando um artefacto que não escolheu a sua condição. Como se cada homem não fosse, afinal, uma ilha em si, mas uma peça deste imenso todo a morrer lentamente.

 

Este amor que não perdoa partidas sem despedidas; esquecendo que se perdeu a cidade, o cheiro do mar e a vontade de abrigo. Este amor que se veste de devoção mas não concede perdão a quem já não sente passarem os dias ou o calor do sol; que o corpo permanece sem dormir e sem acordar, entre os dias que se chamaram anos.

 

Este amar resoluto e insensível ao cessar do labor físico, este amor intolerante a deixar que esse corpo descanse na sepultura, torna-se cego, surdo e mudo ao momento mais belo e único da nossa existência - ouvir o nosso nome pronunciado pela última vez.

 

Existe quem ache amar tanto que para isso não deixará entrar a Morte. Mas eu sei melhor. Sei que quem ama assim sonha que a vida tudo de belo concede, mas no entanto existe quem queira o abraço da Morte. E porquê?  Porque não entendem que para alguns a Morte tem as mãos frias e retira a vida. Mas para outros a Morte é liberdade.

 

... I´m a ghost now ...

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Pequena. Humilde.

Minúscula homenagem.

Onde surgem virtudes de tamanho planetário.

Merecida. Mesmo merecida.

Para que não se diga que o meu caminho são apenas sombras e escuridão

 

 

 

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Assistir ao teste foi apenas confirmar algo. É como agarrar as palavras de Nietzsche pela milésima vez e saborear a noção do encontro com a verdade que eu já conheço: nesta confirmação está uma certa pacificação.

 

O inferno não tem fogos eternos de sofrimento impossível. Existe até uma certa ternura nas consequências de certos testes; quase sinistramente irónico, mas ao observar e depois concluir, apenas consegui saborear no palato o exasperar desiludido de quem falha perante uma solidão que consentiu triunfante, para que o teste fosse mais do que prova de força mental. Que se conseguem viver as horas e os dias absolutamente só.

 

Acredito na capacidade humana de produção de infernos pessoais. São como correntes que deixamos enroladas. E existe uma forma infernal particularmente monstruosa que abocanha o incauto incapaz de enfrentar o estar completamente só. 

 

Estar encerrado durante dias a fio, entre quatro paredes, um tecto e uma porta fechada. Só. Sem comunicação com o exterior. Com conforto e alimento mas sem redes sociais; sem os ritmos do rádio e as palavras ocas da televisão; longe do pequeno telemóvel. Nada. Apenas consigo próprio e os seus próprios pensamentos. Arquétipos de Jung.

 

A revelação que destrói a quimera em toda esta incapacidade de solidão ao exteriorizar humano, senta-se cínica e confortável no velho cadeirão dos pensamentos íntimos. Porque se é forçado a pensar, a estar apenas consigo e em si próprio. Jung esfregaria as mãos em delicia. A solidão dos pensamentos revela a criatura humana. Tantas vezes gregária e sorridente apenas revela o terror de, ao ritmo dos dias que avançam e as noites estão já prenhes de escuridão abandonada, deixar fluir a mente livremente e em silêncio.

 

Revelam-se as criaturas que pensam na sua própria desilusão e solidão. Miseravelmente dependentes e frágeis no arquétipo da sombra e reconhecimento instintivo de fraqueza, repressão e desejos. Negros tão negros desejos!

 

Não existe pior inferno do que este, onde habitam os pensamentos em solidão absoluta. Sem fuga possível. Onde apenas se escutam palavras pessoais em frente ao próprio espelho. Onde, cristalino e voraz, se revelam os passos elásticos para os monstros de Jung.

 

E quando a torrente de lágrimas infantis destroça a face adulta - que se abra a porta, por favor! - o inferno é confirmado na visão pessoal, intima e obesa de sombras do monstro oculto. Vivo.

 

Por isto se reserva o seu vulto ao sonho. E a sua beleza à insanidade do inferno.

 

 

 

 

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O supremo teste de força não se regista em quilos. Não se revela na capacidade de absorver dano físico. Ou persistir na ignorância de oferecer a outra face. Nem sequer reside no sacrifício.

 

Tudo testes de força. Sim.

 

Insignificantes.  

 

A verdadeira magnitude de força tem tanto de épica como visceral. Começa com um pequeno, quase imperceptível, acender interno. Cósmico. Mesmo não sendo da grandeza de um planeta. É capaz de crescer em proporção com um universo.

 

Exemplo?

 

O confrontar pessoal com a nossa mortalidade. Os passos e dados que se apresentam aos olhos pessoais. O medo nascido e que imediatamente procede a saciar-se na fonte dos receios e estimativas de vida. Mesmo que sendo apenas possibilidades. Está dentro. Entrou.

 

E o teste soberano inicia os primeiros passos no "porquê?". Para os verdadeiros guerreiros(as) perceber que afinal a morte existe, mesmo que não expressa com certezas, está ali a espreitar na curva, desistir de resistir será, inevitavelmente, o mesmo que a rendição sem convocar os exércitos. Sem glória e para esquecimentos.

 

Existe uma estranha luz na pessoa comum que  confronta a certeza da sua mortalidade. Eu já o fiz.

 

Mas o portento de ver uma criança deitada em sombras a pelejar uma vileza torpe a arrastar-se onde não pertence nem sequer é homérico. É um embaraço a tudo o que considero digno. Ultrapassa todas as minhas convicções de bravura tresloucada.

 

A virtude de quem se vê frente-a-frente com um asqueroso corpo estranho, intruso, uma possibilidade de muros desconhecidos mas que devem ser ultrapassados, e se recusa a deitar no leito da doença, mesmo que consumida por dúvidas e anseios, é o inicio deste teste. Creio.

 

Pequenos passos. Invocação de forças. Mesmo nas lágrimas e nos lamentos. Mesmo no espelhar dos locais familiares. Mesmo na sensação de nada sentir.

 

Faz com que eu, sacana cínico e descrente, incline a cabeça em cedência. Afinal ainda há esperança oferecida por algumas criaturas.

 

Mesmo permanecendo descrente deixo de o ser estupidamente. Nesta aparente fraqueza e fragilidade dos primeiros sinais, alguém se revira e prepara para destilar força.

 

Resistir antes de desistir.

 

Os deuses estão orgulhosos.

 

Sim.

 

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Creio ser uma qualidade minha a capacidade de escutar. Consigo ouvir outra voz durante horas a fio; muitas vezes pela noite dentro até bem perto das primeiras luzes do dia seguinte. Creio ser uma virtude, esta capacidade de escuta mesmo que muitas vezes se trate de inutilidades. Ainda que muitas vozes depressa se convertam em tédio.

 

Resisto.

 

E quando no meio das palavras se aglutinam os meus testemunhos, a invisibilidade nos relatos torna-se absurdamente real. Presente. Dolorosa.

 

O seu silêncio rompeu-se comigo. Surpreendentemente articulado. Silêncio. Uma arte pungente de amizade quase fraterna com quem se esqueceu do que era. Viver junto de quem não se lembra, durante anos; incapaz de aceitar que o olhar dela já não o reconhece. Que a indiferença fria, esbatida no gesto antes afável e agora agitado, é apenas a dormência da lembrança.

 

Não reconheço melhor imagem de amor do que aquela que ardia nos seus olhos assombrados pela perda. Não aceito outra definição de paixão senão a que vinha de si, tresandando a saudade de quem não voltará. Que o corpo já velho se dobre ainda mais pela inutilidade de palavras ou gestos que iluminem, ainda que palidamente, o esquecimento de si e dos outros.

 

Assombram-me certas vozes. Por vezes é possível sentir que o desespero tem o peso do mundo carregado nos ombros. Torna-se certa a noção de Inferno: porque existe nas incapacidades e solidão de quem deixa de se recordar.

 

Entre os afectos respeitosos de filhos ou nas infantilidades dos netos algo falha. Falta. Não é apenas a velhice rendida aos anos. Olho aquele corpo dobrado com uma reverência que me surpreende. É possível notar que um dos seus lados é apenas sombra. Que lhe falta faísca existencial.

 

Creio que assim deve acontecer.

 

Quando se entregam tesouros nossos a outro, partes de composição pessoal, quem deixa de se lembrar nunca mais os devolve. E a morte tem os olhos lustrosos de quem pouco se importa. Aceita apenas que fiquem sombras entre espaços vazios.

 

Por muito que se escute quem fala recordando. Não existem lágrimas mais dolorosas.

 

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(999)

 

eu

 

...

 

O pior dos erros cometidos é a incapacidade de aceitar outros como diferentes. Tornam-se obstinadas as criaturas quando descobrem que outros não são iguais a si. Persistem obstinadas na ideia de alma-gémea, transformando-a caridosamente em reflexo. O seu conceito de transformação é aquele de uma lógica companheira, gostando do mesmo e rezando o mesmo terço. Falsamente aceitando no pensamento de que são seus semelhantes.

 

Não creio ser igual a ninguém. Não creio que os outros queiram ser iguais a mim. Não me interessa. Tenho caminhos apenas meus mas nem sempre os percorro só. Nesses dias é necessário que peça e muitas vezes estenda a mão, abrindo portas para companhia. Mas  estranho é o sentimento de conhecimento e solidão. Estou mais ciente da solidão quando acompanhado. Encaixa na perfeição.

 

Por estes últimos dias retive a noção da minha falta de beleza exterior. Um pouco pior do que isto: alguém me afirmou perturbado achar ser também muito feio de alma!

 

Aceito ambos os juízos com a parcimónia e afectação da falta de surpresa. Porem devo reconhecer em meu próprio mérito que se tornou muito mais fácil viver comigo próprio do que com os outros. Que é apenas o meu egoísmo a latejar, mas não somos todos iguais e merecedores do mesmo amor. O oposto é também uma realidade. Existe quem encontre beleza em mim. Na mais profunda essência isto basta.

 

 

 

 

 

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(999)

 

 

Temos a falsa noção dos Invernos que passam. Enquanto o sangue corre pelas veias de maneira vital e os dias são brilhantes, esquecemos que o inverno tem olhos antigos de tanto tempo que o esquecimento é o seu melhor agasalho.

 

Alguns Invernos, crispados por monções e gelos dolorosos, são únicos entre outros Invernos. As suas rugas, meticulosamente traçadas, desfiam os anos de vida silenciosamente guardada e não falam. Apenas parecem desejar sussurrar; sabem que dos seus lábios caminham sabedorias antigas e isso parece incomodar os astros brilhantes da primavera.

 

E cheiro. Tresandam a odores de desilusão e abandono. Ensopados na geada de promessas não cumpridas e dedicação cega para obter nada.

 

Aliás, nada, parece ser o seu vergar aos anos.

 

Não são estranhos aos olhos dos animais observadores estes Invernos. Sóis poentes com braços e pernas dormentes dos dias vividos, afastaram as sombras da pressa de viver. Sabem, entre os tragos dos dias cada vez mais pacificados e as virtudes da espera, que são assim mesmo: Invernos onde tudo termina.

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Cantico della dea

 

 (999)

 

São estranhos, certos fogos que nos consomem. Rapaces no seu sossego escondido, necessitam, imploram por alimento. Para alguns são uma mãe serena em dias mais escuros. Um ventre de alabastro onde se repousam sonhos e descansam preces silenciosas. É possível que se viaje também entre labirintos e compassos, mas o que consome arde sem ruído. É distância.

 

Outros são fogos incandescentes, fogueiras de São Vito que transformam a alquimia das almas. Inspiram o espaço onde faltam deuses, encharcando-o no ópio dos estados d´alma; é música quando expirada para pacificar a dor e uma soberana liberdade de si para si. Pessoal e supremamente egoísta.

 

Os animais mais vitais conhecem estes fogos. Nem sempre ardem chamados pelas chamas. Muitas são as vezes em que é a paixão a alimentar o mais tenebroso dos fogos. São a mescalina turva e doce dos desejos mais negros. Palavras, gestos e expressões que apenas servem o propósito sussurrado da fragilidade envelhecida.

 

Ou fogos de consumo tão imenso que permanecem. Não se apagam. Deslumbram o juízo mais escuro. É com estes arquétipos que se procuram sonhos e vozes. E ainda que fugazes, são o espanto das noites de desejo mal dormido. Revelam-se em impossibilidades e crenças sempre acesas de utopia.

 

 

 

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Eu já o sabia, sinceramente, mas por estes dias uma voz me confirmou:

 

" Não existe ressurreição! Desta vez, confirma-se! Ist tot!"

 

Remexer com as memórias é bastas vezes como o sinistro hábito dos que gostam de agarrar na roupa suja e sentir-lhe odores; revela-se um exercício maçador e inútil. Além de pateticamente semelhante a um bizarro fétiche de surdos tentando excitar-se com gemidos de prazer. Melhor seria não remexer o que não deveria ser remexido.

 

E no entanto ...

 

"Mas eu sempre disse que não existe ressurreição...", atirei  debilmente e sabendo como era fraca a afirmação. Rumino, amaldiçoando, entre dentes, a adorável criatura que alegremente acabara de escancarar a pequena porta do armário onde guardo rancores de purga e ódios de lamparina. Maldição!

 

Eu sou dos que acreditam em preferências pessoais. Devemos poder escolher. E eu, por exemplo, escolhi afastar-me das inutilidades que me rodeiam. Uma virtude desta escolha mora empoleirada no esquecimento e em certos casos, fico a pensar que essa inutilidade finalmente se desintegrou no pó dos dias; se remeteu ao silêncio da sua condição.

 

Claro que, por vezes, acabo por ser apanhado na desilusão e percebo que não se silenciara ainda. Que ainda restavam chispas de vida inútil. Embora fugaz, talvez por indelicada desatenção minha, havia suposta vida entre buracos existenciais. Dupla maldição!

 

Existe portanto quem escolha, porque tem esse privilégio, manter-se em vida artificial quando deveria escolher uma morte digna: não acreditando na ressurreição. A escolha seria a da procura do afastamento e silêncio absoluto. Aceitando o fim dos seus dias com um cêntimo de dignidade.

 

Permaneço céptico e de coração apertado. Apesar das boas noticias. Por muito que se alegrem os incautos prefiro esperar que o tempo me confirme a morte anunciada. Que, como me foi lembrado, ainda não se voltou a erguer o monumento aos temporais da vida. Pode ser que afinal, as estrelas se tenham alinhado, conjugando o momento perfeito para o fim de algo perfeitamente inútil para a humanidade.

 

Que o meu coração, sempre incrédulo, afaste esta nuvem de pó antigo que muito gosta de se

vestir de licença de nojo. Porque são muitas as vezes que um "até já " me irrita.

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