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Eu.

 

Sombra.

 

O reflexo da saudade apareceu. Saudades de ti. Sem as viagens e os dias corridos. Lamento a palavra que ainda não te escrevi - porque não sou como tu: alquimista profana. Secular na tua própria sombra. Laical na atmosfera recolhida.

 

A tua nostalgia força-me o descanso. Vou interrompendo a meada dos pensamentos porque me deixo dormitar nesses traços de punho delgado. Uma outra libertação, não necessitada de dias ou discursos. 

 

Afinal, tão simples. Tão saborosamente cósmico. Tão dissonante por estes dias.

 

Talvez em breve te diga adeus. Finalmente, adeus. Serás a única.

 

Talvez as minhas mãos consigam acompanhar-te em arte - ainda que minhas não sejam as artes de tecer universos.

 

Como as tuas.

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" Tudo se inicia nos pedaços ..."

 

A reverência está morta. Enterrada na profundidade de uma vala comum - " grupos de risco"-, como breve elogio fúnebre. Não existem justiças poéticas para os velhos monstros. Sequer a vaidade dos cabelos grisalhos e o olhar turvo dos anos. Não são os contos de encantar ou o bolo traçado pelas mãos envelhecidas. É a sinistra tristeza de observar nos olhos antigos o medo da morte suprema. 

 

A pacificação pela idade avançada é uma quimera de vidro frágil. Alimenta-se de Picos e Planaltos de rocha sólida como a desilusão da fraqueza impotente da estatística draconiana e pandémica. 

 

Darwin em arrebatamento.

 

Sonhei com velhos monstros. Com antigos navios encalhados no mar gelado. Sonhei com a escolha da misericórdia e da espera envelhecida pelo vinho tinto do abandono.

 

Amaldiçoei Darwin.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A Luz de outros Dias...

...

 

Não me esqueço dos dias debaixo daquela luz nas manhãs de sol. Das palavras e frases enquanto me banho no cinzento chumbo que jorra pela abóbada, como se o próprio céu estivesse presente e em escuta. Existe um cheiro a flores que não identifico, mas sei que os pequenos bolos castanhos que engordam o frasco de vidro transparente são de canela. E chocolate fino. E que é sabido como gosto de os devorar com o café. E que, mesmo contra a sua vontade que sempre se pauta por um sorriso cúmplice, partilho metades com o cão que se junta a mim silencioso - como dois companheiros de insensatez.

 

São os olhos como gemas brancas que transportam a reverência do silêncio. Revelam como a alma consegue ser solene por momentos. Apenas em  fugazes instantes, porque depois assento os pés na aridez terrestre e acompanho o piano de  Rachmaninoff, como uma poção de salvamento. Como se a solenidade fosse coisa de deuses e outras criaturas de mito.

 

Li algumas das tuas palavras escritas. Em voz serena e a deixar escutar a chuva que explodia nos vidros grossos das janelas da sala de livros. Não tudo o que escreves. Apenas traços que prefiro e escolho. Egoísta. Não são palavras carentes de elogios e são, demasiadas vezes, atiradas como sementes para alimento. Para alguém que não a mim ou a quem me escuta. Mas escolho as tuas frases como caminhos de sombra - porque afinal é isso que me interessa. Nestes momentos. Sombras. Os teus multiversos mais cinzentos.

 

São as tardes feitas de momentos breves como essa solenidade transparente. Palavras imaginadas no sentimento tinto e amargo de quem as ouve com outros sinais - olhos cor  de neve que não precisam de Tolstói para sonhar alto.

 

Gosto de purgar a tua escrita naqueles momentos. Transformar o que permanece em alimento apenas saboreado pelo silêncio de quem a escuta. 

 

Enquanto bebo mais um trago de café. Enquanto mastigo mais uma metade de bolo de canela. Enquanto, aos meus pés, o cão enorme antecipa a sua parte do prazer.

 

 

 

 

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(999)

 

É vital a consciência do peso e vitalidade da palavra " Singular". As criaturas singulares são mais belas e mais brilhantes na sua singularidade.

 

- Singularidades ...

 

Fascino-me intensamente com esta palavra, com todas as suas curvas e arestas. Como se a razão não tivesse força suficiente para justificar - explicar -, a potência anímica de ser único. Inigualável.

 

Singularidade naquele pensamento no exacto segundo em que a promessa é feita, quando pressinto que será cumprida. E não apenas atirada como promessa de fuga. Eu gosto dos que cumprem as suas promessas porque são como traços escritos nos versos de canções minhas. Minhas.

 

Às vezes basta apenas que outros sejam os meus olhos; que consiga apenas olhar na pressa de olhares que não são meus. E é quase possível sentir o cheiro e limpar a humidade da brisa de outros recantos. É quase a ponta de um clarão distante. Tão fugaz como um fogo fátuo.

 

Singularidade que depois se esconde. Transformada em segredo entre os dias de normalidade igual a muitos outros dias. Só conhecida por quem lhe pressente os segredos e fragilidades.

 

Gostaria que ficassem um pouco mais. Mesmo que fosse apenas para dormirem uns minutos mais. Sim - mesmo quando se apagassem as estrelas e o tempo parece não perdoar -, sei que fecharia os meus olhos e seria seu companheiro de viagem.

 

Respiração "Singular". Tracejando singularidades.

 

 

 

 

 

 

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OS TRAÇOS QUE DEIXAMOS ...

 

 

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48340248

 

 

A Vida um dia perguntou à Morte " Morte, porque razão sentem as pessoas amor por mim e ódio por ti? A Morte respondeu " É porque tu és uma bela mentira e Eu sou a dolorosa verdade"

 

 

Este amor que nos torna arrogantes entre palavras de fé e a necessidade de permanecer vivos. Este amor, estranho amor, que nos transforma em alcoólicos sedentos de comandar os outros, mesmo entre os últimos espasmos e respiração diluída. Este amor que não permite o descanso da morte enquanto dormimos e insiste na crença do consolo piedoso enquanto o corpo permanece imóvel e silencioso, um idiota desabrigado ...

 

Este amar em desconsolo, como que mastigando as lâminas de um desejo de libertação deste mundo, decide, insiste, no ouvir da respiração do menino perdido, como que venerando um artefacto que não escolheu a sua condição. Como se cada homem não fosse, afinal, uma ilha em si, mas uma peça deste imenso todo a morrer lentamente.

 

Este amor que não perdoa partidas sem despedidas; esquecendo que se perdeu a cidade, o cheiro do mar e a vontade de abrigo. Este amor que se veste de devoção mas não concede perdão a quem já não sente passarem os dias ou o calor do sol; que o corpo permanece sem dormir e sem acordar, entre os dias que se chamaram anos.

 

Este amar resoluto e insensível ao cessar do labor físico, este amor intolerante a deixar que esse corpo descanse na sepultura, torna-se cego, surdo e mudo ao momento mais belo e único da nossa existência - ouvir o nosso nome pronunciado pela última vez.

 

Existe quem ache amar tanto que para isso não deixará entrar a Morte. Mas eu sei melhor. Sei que quem ama assim sonha que a vida tudo de belo concede, mas no entanto existe quem queira o abraço da Morte. E porquê?  Porque não entendem que para alguns a Morte tem as mãos frias e retira a vida. Mas para outros a Morte é liberdade.

 

... I´m a ghost now ...

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Pequena. Humilde.

Minúscula homenagem.

Onde surgem virtudes de tamanho planetário.

Merecida. Mesmo merecida.

Para que não se diga que o meu caminho são apenas sombras e escuridão

 

 

 

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Assistir ao teste foi apenas confirmar algo. É como agarrar as palavras de Nietzsche pela milésima vez e saborear a noção do encontro com a verdade que eu já conheço: nesta confirmação está uma certa pacificação.

 

O inferno não tem fogos eternos de sofrimento impossível. Existe até uma certa ternura nas consequências de certos testes; quase sinistramente irónico, mas ao observar e depois concluir, apenas consegui saborear no palato o exasperar desiludido de quem falha perante uma solidão que consentiu triunfante, para que o teste fosse mais do que prova de força mental. Que se conseguem viver as horas e os dias absolutamente só.

 

Acredito na capacidade humana de produção de infernos pessoais. São como correntes que deixamos enroladas. E existe uma forma infernal particularmente monstruosa que abocanha o incauto incapaz de enfrentar o estar completamente só. 

 

Estar encerrado durante dias a fio, entre quatro paredes, um tecto e uma porta fechada. Só. Sem comunicação com o exterior. Com conforto e alimento mas sem redes sociais; sem os ritmos do rádio e as palavras ocas da televisão; longe do pequeno telemóvel. Nada. Apenas consigo próprio e os seus próprios pensamentos. Arquétipos de Jung.

 

A revelação que destrói a quimera em toda esta incapacidade de solidão ao exteriorizar humano, senta-se cínica e confortável no velho cadeirão dos pensamentos íntimos. Porque se é forçado a pensar, a estar apenas consigo e em si próprio. Jung esfregaria as mãos em delicia. A solidão dos pensamentos revela a criatura humana. Tantas vezes gregária e sorridente apenas revela o terror de, ao ritmo dos dias que avançam e as noites estão já prenhes de escuridão abandonada, deixar fluir a mente livremente e em silêncio.

 

Revelam-se as criaturas que pensam na sua própria desilusão e solidão. Miseravelmente dependentes e frágeis no arquétipo da sombra e reconhecimento instintivo de fraqueza, repressão e desejos. Negros tão negros desejos!

 

Não existe pior inferno do que este, onde habitam os pensamentos em solidão absoluta. Sem fuga possível. Onde apenas se escutam palavras pessoais em frente ao próprio espelho. Onde, cristalino e voraz, se revelam os passos elásticos para os monstros de Jung.

 

E quando a torrente de lágrimas infantis destroça a face adulta - que se abra a porta, por favor! - o inferno é confirmado na visão pessoal, intima e obesa de sombras do monstro oculto. Vivo.

 

Por isto se reserva o seu vulto ao sonho. E a sua beleza à insanidade do inferno.

 

 

 

 

 

 

 

O supremo teste de força não se regista em quilos. Não se revela na capacidade de absorver dano físico. Ou persistir na ignorância de oferecer a outra face. Nem sequer reside no sacrifício.

 

Tudo testes de força. Sim.

 

Insignificantes.  

 

A verdadeira magnitude de força tem tanto de épica como visceral. Começa com um pequeno, quase imperceptível, acender interno. Cósmico. Mesmo não sendo da grandeza de um planeta. É capaz de crescer em proporção com um universo.

 

Exemplo?

 

O confrontar pessoal com a nossa mortalidade. Os passos e dados que se apresentam aos olhos pessoais. O medo nascido e que imediatamente procede a saciar-se na fonte dos receios e estimativas de vida. Mesmo que sendo apenas possibilidades. Está dentro. Entrou.

 

E o teste soberano inicia os primeiros passos no "porquê?". Para os verdadeiros guerreiros(as) perceber que afinal a morte existe, mesmo que não expressa com certezas, está ali a espreitar na curva, desistir de resistir será, inevitavelmente, o mesmo que a rendição sem convocar os exércitos. Sem glória e para esquecimentos.

 

Existe uma estranha luz na pessoa comum que  confronta a certeza da sua mortalidade. Eu já o fiz.

 

Mas o portento de ver uma criança deitada em sombras a pelejar uma vileza torpe a arrastar-se onde não pertence nem sequer é homérico. É um embaraço a tudo o que considero digno. Ultrapassa todas as minhas convicções de bravura tresloucada.

 

A virtude de quem se vê frente-a-frente com um asqueroso corpo estranho, intruso, uma possibilidade de muros desconhecidos mas que devem ser ultrapassados, e se recusa a deitar no leito da doença, mesmo que consumida por dúvidas e anseios, é o inicio deste teste. Creio.

 

Pequenos passos. Invocação de forças. Mesmo nas lágrimas e nos lamentos. Mesmo no espelhar dos locais familiares. Mesmo na sensação de nada sentir.

 

Faz com que eu, sacana cínico e descrente, incline a cabeça em cedência. Afinal ainda há esperança oferecida por algumas criaturas.

 

Mesmo permanecendo descrente deixo de o ser estupidamente. Nesta aparente fraqueza e fragilidade dos primeiros sinais, alguém se revira e prepara para destilar força.

 

Resistir antes de desistir.

 

Os deuses estão orgulhosos.

 

Sim.

 

 

 

Creio ser uma qualidade minha a capacidade de escutar. Consigo ouvir outra voz durante horas a fio; muitas vezes pela noite dentro até bem perto das primeiras luzes do dia seguinte. Creio ser uma virtude, esta capacidade de escuta mesmo que muitas vezes se trate de inutilidades. Ainda que muitas vozes depressa se convertam em tédio.

 

Resisto.

 

E quando no meio das palavras se aglutinam os meus testemunhos, a invisibilidade nos relatos torna-se absurdamente real. Presente. Dolorosa.

 

O seu silêncio rompeu-se comigo. Surpreendentemente articulado. Silêncio. Uma arte pungente de amizade quase fraterna com quem se esqueceu do que era. Viver junto de quem não se lembra, durante anos; incapaz de aceitar que o olhar dela já não o reconhece. Que a indiferença fria, esbatida no gesto antes afável e agora agitado, é apenas a dormência da lembrança.

 

Não reconheço melhor imagem de amor do que aquela que ardia nos seus olhos assombrados pela perda. Não aceito outra definição de paixão senão a que vinha de si, tresandando a saudade de quem não voltará. Que o corpo já velho se dobre ainda mais pela inutilidade de palavras ou gestos que iluminem, ainda que palidamente, o esquecimento de si e dos outros.

 

Assombram-me certas vozes. Por vezes é possível sentir que o desespero tem o peso do mundo carregado nos ombros. Torna-se certa a noção de Inferno: porque existe nas incapacidades e solidão de quem deixa de se recordar.

 

Entre os afectos respeitosos de filhos ou nas infantilidades dos netos algo falha. Falta. Não é apenas a velhice rendida aos anos. Olho aquele corpo dobrado com uma reverência que me surpreende. É possível notar que um dos seus lados é apenas sombra. Que lhe falta faísca existencial.

 

Creio que assim deve acontecer.

 

Quando se entregam tesouros nossos a outro, partes de composição pessoal, quem deixa de se lembrar nunca mais os devolve. E a morte tem os olhos lustrosos de quem pouco se importa. Aceita apenas que fiquem sombras entre espaços vazios.

 

Por muito que se escute quem fala recordando. Não existem lágrimas mais dolorosas.

 

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(999)

 

eu

 

...

 

O pior dos erros cometidos é a incapacidade de aceitar outros como diferentes. Tornam-se obstinadas as criaturas quando descobrem que outros não são iguais a si. Persistem obstinadas na ideia de alma-gémea, transformando-a caridosamente em reflexo. O seu conceito de transformação é aquele de uma lógica companheira, gostando do mesmo e rezando o mesmo terço. Falsamente aceitando no pensamento de que são seus semelhantes.

 

Não creio ser igual a ninguém. Não creio que os outros queiram ser iguais a mim. Não me interessa. Tenho caminhos apenas meus mas nem sempre os percorro só. Nesses dias é necessário que peça e muitas vezes estenda a mão, abrindo portas para companhia. Mas  estranho é o sentimento de conhecimento e solidão. Estou mais ciente da solidão quando acompanhado. Encaixa na perfeição.

 

Por estes últimos dias retive a noção da minha falta de beleza exterior. Um pouco pior do que isto: alguém me afirmou perturbado achar ser também muito feio de alma!

 

Aceito ambos os juízos com a parcimónia e afectação da falta de surpresa. Porem devo reconhecer em meu próprio mérito que se tornou muito mais fácil viver comigo próprio do que com os outros. Que é apenas o meu egoísmo a latejar, mas não somos todos iguais e merecedores do mesmo amor. O oposto é também uma realidade. Existe quem encontre beleza em mim. Na mais profunda essência isto basta.

 

 

 

 

 




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