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"O homem que não atravessa o inferno das suas paixões também não as supera."

Carl Jung

 

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A Morte em si nunca deveria ser temida. Um fim absoluto e sem retorno que não conseguimos vencer  porque se trata de uma inevitabilidade pragmática, cruelmente absoluta, implacável. É interessante, conseguir que o pensamento se unifique na órbita da inevitabilidade da Morte. E Estranho, que na Morte tudo se desfaça nos fumos amargos do Nada.

Talvez a Morte, ainda assim consiga trilhar as  estradas de mão dada com a eternidade, nessa maldita sina que nasce em nós, porque insistimos em recordar ideias, gestos e vozes; talvez a eternidade bata como batem os corações, pela incapacidade que temos de esquecer os que foram, e pelo sadismo pessoal de não deixar espaços vazios por preencher.

Temos medo do vácuo  da morte em nós. Creio.

A eternidade que inventamos desde a primeira golfada de ar é uma corrente de pensamentos entre cheiros e visões. E somos tão escravos dela! Somos tão indefesos às suas garras.

Porque é desta incapacidade para rasgar este acordo forçado com a eternidade imaginada pela mão da Morte, que nasce daquela criatura outrora resplandecente na sua teoria de felicidade em conjunto com uma outra, a  tragédia  de imaginarmos o para sempre. Como se justificam eternidades quando a outra criatura morre sem aviso? Como se justifica o mais profundo Vazio na alma, quando a  felicidade se esbate na orfandade? Onde  estão os poetas, os bardos da eternidade, quando se entra na casa, antes rodopiante de sons e estalar de gargalhadas, se percorrem corredores, se abrem portas de quartos e tudo está silencioso? Quando  sabemos exactamente onde vão jorrar os primeiros raios de sol da manhã, como estão alinhados os livros preferidos, como está inclinada a cadeira para o café da tarde.

A eternidade é mais dolorosa do que a Morte. Quem se apaga deixa em seu lugar o sabor sorumbático da solidão mais extrema, que nos força ao desespero de caminhar nas mesmas rotinas, estranhamente, devorando a nossa quietude.

Talvez o pior não seja a Morte. Talvez a dor não sejam as  escarpas onde perdemos a Voz do Fadista. Talvez o maligno sobreviva antes no peito de quem fica e recorda. Na falta de esquecimento de expressões e contornos.

Pode ser que Sam Harris esteja certo porque todos nós iremos sofrer a perda de alguém demasiado importante na nossa existência. E se calhar, por causa desta nossa incapacidade de aprender como os erros, insistamos na ideia de uma outra vida para além desta. 

E por isso decidamos não viver.

Catarse ...

 

Algumas palavras são como antigas fermentações mágicas. Por vezes, com a raridade do que é precioso e único, é possível ter um breve lampejo do latejar de quem escreve pensando. Um clarão momentâneo! Como se, naquele exato segundo, o reconhecimento, com as  duas mãos, virasse a nossa atenção para as palavras escritas. Palavras entre muitas outras palavras que se desviam de milhares de frases que nada dizem, iguais entre si.

Eu gosto de vampirizar estas singularidades como quem saboreia a emoção da revelação. É o pressentir de uma mão que se estende para mim e me oferece outros olhos, odores misteriosos e sons só possíveis de escutar enquanto vou viajando pela arquitetura das  frases. Consigo perfeitamente sentar-me ao lado de quem escreve e sentir a aragem dos dias ventosos; ou então caminhar com o calor do Sol; se calhar ajustar a mente infatigável a pormenores que me rodeiam, como um fantasma silencioso.

Existe uma centelha intensa na minha vontade de viajar. Continuo a viajar fisicamente porque sei que por muito que sonhe jamais me dará o mesmo prazer do viajante de muitos passos, mas o néctar de ler excertos de outras vidas e neles me reconhecer gera aquela embriaguez apenas reservada a uma rara elite de vampiros. Permito ser arrastado sem receio. Intruso sem culpa. Criatura treinada na arte dos que se baloiçam gentilmente na cadeira dos momentos esquivos em que pode realmente descansar a mente e o corpo.

Raro. Estranhamente embriagado. Aquele último e breve momento em que a mão estendida se afasta e consigo aquele muito suave sorriso  de reconhecimento.

Raro. Precioso. Necessário ao monstro.

 

 

 

 

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" Auf der Schwelle ... "

Alguns afirmam que a morte representa o final, determinado pelo fim físico. A falha dos órgãos vitais é um pacto máximo com a realidade: no coração que não bate escreve-se o fim absoluto.

Discordo.

Sei que não é uma verdade absoluta. As verdades absolutas são muitas vezes casulos de merda que a cultura humana se encarrega de transformar em potentados de nada.

A morte começa demasiadas vezes muito antes do coração ceder. Em pequenos passos de esquecimento e deriva como um barco abandonado. A verdadeira morte tem a mestria de impor o esquecimento na mente humana para que o corpo se torne numa ridícula concha vazia. Talvez ainda exista respiração ou raros momentos estampados numa claridade racional mas serão preciosos porque deixarão de ser definitivos.

E isto é a morte despida em absoluto êxtase! Esquecimento completo onde deixa de existir a capacidade de sorrir, de odiar, amar e principalmente de sonhar. Encerra-se o reconhecimento dos detalhes da expressão de quem viveu e sonhou connosco por décadas. O coração bate numa concha solitária que vai perdendo a esplendor dos verbos, do palmilhar terrenos, até que finalmente se deixe de lembrar porque raio bate aquele órgão que justifica a respiração.

Esquecimento demente não é um poema ao fim da vida. Apenas mais um discurso fúnebre pejado de imperfeições e detalhes de humor cínico. Ingrato. Nojento!

Mas gosto de encontrar consolação naquele sorriso firme de homem intenso, que matutava na ideia de Multiverso com a mesma intensidade com que retirava as bolachas do forno preenchendo cada recanto da cozinha com o cheiro divino da canela e do cacau em pó.

E talvez num desses seus Universos não exista quem se esqueça do que foi antes de morrer. 

Onde as horas sejam passadas em longas conversas pela noite dentro. Onde nunca falte o café mais negro nem as bolachas de canela e cacau.

Molhadas: sempre afogadas no liquído negro e deixando que se desfaçam no palato.

 

 

 

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"Im Labyrinth der Dunkelheit ..."

 

É estranha, a sensação que parece alimentar o retiro da cumplicidade. Como nos olhos muitas vezes se reconhece a ténue linha que separa a emoção da descoberta de semelhanças. Apetece romper essa frágil linha com um longo sorriso e uma discreta vénia. Talvez essa cumplicidade seja revelada naquele estalar de dedos de alguém de outros tempos, quando  dentro de si se acendiam a luzes do entendimento. Sim. Creio que algo tão colossal como a descoberta da existência de cúmplices pode esconder-se naquele sonoro estalar de dedos. 

Perfeitamente.

A cumplicidade é a química das químicas. O ingrediente que define portentos. O toque final que justifica o abraço, o beijo infernal e aquele meio sorriso que irremediavelmente me fascina os sentidos.

Onde o pensamento descansa as cumplicidades não são apenas as suas. São a companhia para caminhos onde gosta de se perder e saber não estar só. É afinal, a hábil mentora daqueles traços que tornam embriagadas apenas aquelas, muito raras criaturas, que mesmo em águas profundas não se esquecem da graciosidade de quem bebe para esquecer continuando a dançar virtuoso.

 

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"Alles wird in Flammen stehen ..."

 

Reconheço a saudade da sua escrita. Aparece, por vezes, de mansinho como uma fugaz chispa num qualquer canto da consciência. Creio ser algum pedaço de amargura pessoal, pois gosto de me afastar dos locais e das pessoas que em alguns momentos, significaram algo para mim. Que, ainda por breves instantes gratificantes, partilharam pensamentos escritos comigo.

É minha a culpa. Por pensar sempre que o silêncio se revela a maior das homenagens e a distância a melhor das fábulas de encantar - como se em certos momentos precisos como um relógio de Deus, a minha existência fosse a de outra criatura que me fala aos olhos e dos seus punhos as palavras fossem pernoitar onde procuro alimento raro.

O afastamento e a noção da preciosidade deste silêncio são algures o beijo de Judas, porque se perdem noções e companhias de batalhas, muitas delas escritas a fogo fátuo. Por vezes impacientes e extremas.

Esta é uma saudade diferente. Cinza, como quem visita um local abandonado. De quem bebeu nas palavras e cerrou os olhos esticando a mão para ser guiado por outras temperaturas, muitas vezes menos sombrias do que a minha fraca arte de sentir. 

É a saudade com sabor a malte e abandono, ainda assim. Pelas palavras escritas onde a alegria era rasgada, nua ficava uma estranha e sombria fragilidade ajoelhada com o peso de uma qualquer mágoa que eu desconhecia.

Demasiado humana. Uma luz vermelha entre muitas palavras.

 

 

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Eu.

 

Sombra.

 

O reflexo da saudade apareceu. Saudades de ti. Sem as viagens e os dias corridos. Lamento a palavra que ainda não te escrevi - porque não sou como tu: alquimista profana. Secular na tua própria sombra. Laical na atmosfera recolhida.

 

A tua nostalgia força-me o descanso. Vou interrompendo a meada dos pensamentos porque me deixo dormitar nesses traços de punho delgado. Uma outra libertação, não necessitada de dias ou discursos. 

 

Afinal, tão simples. Tão saborosamente cósmico. Tão dissonante por estes dias.

 

Talvez em breve te diga adeus. Finalmente, adeus. Serás a única.

 

Talvez as minhas mãos consigam acompanhar-te em arte - ainda que minhas não sejam as artes de tecer universos.

 

Como as tuas.

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" Tudo se inicia nos pedaços ..."

 

A reverência está morta. Enterrada na profundidade de uma vala comum - " grupos de risco"-, como breve elogio fúnebre. Não existem justiças poéticas para os velhos monstros. Sequer a vaidade dos cabelos grisalhos e o olhar turvo dos anos. Não são os contos de encantar ou o bolo traçado pelas mãos envelhecidas. É a sinistra tristeza de observar nos olhos antigos o medo da morte suprema. 

 

A pacificação pela idade avançada é uma quimera de vidro frágil. Alimenta-se de Picos e Planaltos de rocha sólida como a desilusão da fraqueza impotente da estatística draconiana e pandémica. 

 

Darwin em arrebatamento.

 

Sonhei com velhos monstros. Com antigos navios encalhados no mar gelado. Sonhei com a escolha da misericórdia e da espera envelhecida pelo vinho tinto do abandono.

 

Amaldiçoei Darwin.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A Luz de outros Dias...

...

 

Não me esqueço dos dias debaixo daquela luz nas manhãs de sol. Das palavras e frases enquanto me banho no cinzento chumbo que jorra pela abóbada, como se o próprio céu estivesse presente e em escuta. Existe um cheiro a flores que não identifico, mas sei que os pequenos bolos castanhos que engordam o frasco de vidro transparente são de canela. E chocolate fino. E que é sabido como gosto de os devorar com o café. E que, mesmo contra a sua vontade que sempre se pauta por um sorriso cúmplice, partilho metades com o cão que se junta a mim silencioso - como dois companheiros de insensatez.

 

São os olhos como gemas brancas que transportam a reverência do silêncio. Revelam como a alma consegue ser solene por momentos. Apenas em  fugazes instantes, porque depois assento os pés na aridez terrestre e acompanho o piano de  Rachmaninoff, como uma poção de salvamento. Como se a solenidade fosse coisa de deuses e outras criaturas de mito.

 

Li algumas das tuas palavras escritas. Em voz serena e a deixar escutar a chuva que explodia nos vidros grossos das janelas da sala de livros. Não tudo o que escreves. Apenas traços que prefiro e escolho. Egoísta. Não são palavras carentes de elogios e são, demasiadas vezes, atiradas como sementes para alimento. Para alguém que não a mim ou a quem me escuta. Mas escolho as tuas frases como caminhos de sombra - porque afinal é isso que me interessa. Nestes momentos. Sombras. Os teus multiversos mais cinzentos.

 

São as tardes feitas de momentos breves como essa solenidade transparente. Palavras imaginadas no sentimento tinto e amargo de quem as ouve com outros sinais - olhos cor  de neve que não precisam de Tolstói para sonhar alto.

 

Gosto de purgar a tua escrita naqueles momentos. Transformar o que permanece em alimento apenas saboreado pelo silêncio de quem a escuta. 

 

Enquanto bebo mais um trago de café. Enquanto mastigo mais uma metade de bolo de canela. Enquanto, aos meus pés, o cão enorme antecipa a sua parte do prazer.

 

 

 

 

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(999)

 

É vital a consciência do peso e vitalidade da palavra " Singular". As criaturas singulares são mais belas e mais brilhantes na sua singularidade.

 

- Singularidades ...

 

Fascino-me intensamente com esta palavra, com todas as suas curvas e arestas. Como se a razão não tivesse força suficiente para justificar - explicar -, a potência anímica de ser único. Inigualável.

 

Singularidade naquele pensamento no exacto segundo em que a promessa é feita, quando pressinto que será cumprida. E não apenas atirada como promessa de fuga. Eu gosto dos que cumprem as suas promessas porque são como traços escritos nos versos de canções minhas. Minhas.

 

Às vezes basta apenas que outros sejam os meus olhos; que consiga apenas olhar na pressa de olhares que não são meus. E é quase possível sentir o cheiro e limpar a humidade da brisa de outros recantos. É quase a ponta de um clarão distante. Tão fugaz como um fogo fátuo.

 

Singularidade que depois se esconde. Transformada em segredo entre os dias de normalidade igual a muitos outros dias. Só conhecida por quem lhe pressente os segredos e fragilidades.

 

Gostaria que ficassem um pouco mais. Mesmo que fosse apenas para dormirem uns minutos mais. Sim - mesmo quando se apagassem as estrelas e o tempo parece não perdoar -, sei que fecharia os meus olhos e seria seu companheiro de viagem.

 

Respiração "Singular". Tracejando singularidades.

 

 

 

 

 

 

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