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Adormeci ao som de palavras desconhecidas, orgulhosamente ditas por gente mais velha. Adormeci, quando o espírito, mesmo cansado, se recusava a ceder aos feitiços do sono. Para mim, cínico e descrente, teimosamente em fuga de um niilismo cada vez belo, deslumbrar-me nestas palavras tem aquele fulgor intenso e proibido de uma estrela de alva, como uma mortificação antes de um reconhecimento.

Adormeci quando se falava de Fraternidade, incapaz de aceitar o sonho da Igualdade, mas dolorosamente encantado pela melodia desta palavra; disseram-me que adormeci pacificamente, como uma criança, embalado por um feitiço conjurado, brindado, rendido a essa suprema ilusão que habita este miserável planeta, que teima em transformar criaturas imperfeitas em heróis: a Liberdade.

Creio que, por algumas horas de sono, deixei entrar estas e outras palavras afinadas por bocas antigas, com muito mais vida. Como um fantasma entre monólitos desconhecidos, tragicamente perdido, embriagado por portentos de libertação e devoções a uma unidade que me transcende.

E antes de adormecer, mesmo antes de fechar os olhos, como um animal espantado pelo desconhecimento, senti o cheiro perversamente quente, vi o vermelho vampiro, dos cravos amontoados ao meu lado. 

Adormeci embalado pela ilusão de outras palavras. Sonhadas. Quase capaz de acreditar nelas.

Fleuma,

 

 

 

" He will endure or be forgotten"

 

Mesmo para quem se deixa encantar por uma certa solitude, necessária, para restabelecer harmonias internas, ainda que sejam preciosos os momentos cultivados pelo silêncio, esse estranho culto sem palavras, mas muitas vezes imenso de expressões primárias, o afastamento de algo assume o sabor de um vazio doloroso. Creio que muitos lhe chamam saudade; outros nostalgia - como se fosse necessário articular um nome que pelo menos sossegue a alma,  que consiga encher um pouco de espaço ocupado pelo vazio do que já não está perto. 

E talvez até seja um engano cismar com algo que se afastou, mas é a ditadura de natureza humana não aceitar espaços ocos, vazios e por preencher. É um absurdo violento observar o afastamento, enquanto, desesperadamente, olhamos em volta, mergulhados numa sonolenta imbecilidade que aceitamos como natural perante a ausência. Nem sequer será muito diferente para quem se recusa ao amontoar das gentes, mas é igualmente doloroso cada um destes raros afastamentos - porque não são frequentes os prazeres da companhia para certas criaturas, o distanciamento é revelador da incapacidade de conjugar a alquimia que consiga alimentar a certeza de que tudo continuará como sempre.

Não. Nunca irá ser como foi.

O que se afasta deixa apenas passos, palavras, sorrisos e até uma atmosfera de companhia que não voltarão a nós. Misture-se, com uma sabedoria odiosamente ancestral, a incapacidade de os substituir ( por mais que se tente), a falsa verdade de que o tempo tudo corrige, que o mundo está cheio do encanto dos que partem e dos que ficam, e tudo o que resta é beber deste veneno de morte lenta.

E a vontade de rir com a teoria sonhadora de que o Universo sabe o que faz.

Deus! ...

 

Para ti ...

 

Não tenho este hábito, sabes? Nem sequer acho que seja necessário que o faça porque, de alguma estranha forma, acho que tu pouco te importas com isso, mas gosto da tua companhia, e mesmo não sendo minha a  rotina das palavras para o expressar, sei do teu silêncio que é uma companhia sempre presente, creio eu. Talvez  penses que sou demasiado distante.  E talvez tenhas razão. Mas distante não será indiferença em mim. Não. Porque me sinto bem também nas tuas palavras. Porque não tentas fazer um esforço para entender o que sou, nem verter absurdos sobre os "meus demónios" pessoais. É algo mais raro e precioso vindo de ti: ficas comigo enquanto navego nos meus abismos. Admiro isso intensamente. Essa capacidade de caminhares ao meu lado silenciosa  e persistente. 

Talvez estas até sejam palavras a mais. Se calhar a música é suficiente para te abraçar mesmo sem a beleza das notas que preferes, mas quero que tenhas a certeza de que não me esquecerei  de ti  e da tua presença. Serão pálidas as saudades das poucas palavras que viajaram entre nós. Que retenho em mim a certeza  da preciosidade que seria partilhar contigo  labirintos e sombras.

Que quero assegurar-te  que o filósofo se enganou nas histórias: não é preciso escolher porque  por vezes  são vividas para serem contadas.

 

Gosto do sabor intenso do riso fácil. Da sensação quase profana que me consome quando consigo observar essas estranhas criaturas que dominam esta arte tão arcaica, aquela inefável luz que parece banhar todo o rosto com os traços, marcas, de uma alegria que me fascina intensamente. É como observar uma outra margem mais distante. Hipnotizado pela raridade do riso sonoro coroado pelo brilho intenso e sonhador no olhar. 

É então a minha prepotência que me cobre de ciúme porque estas não são artes minhas. Arrogantemente, embaraçado, vou consumindo essa virtude como uma quimera pessoal, intermitente nos pequenos golpes ao canto dos lábios, assaltando o semicerrar dos olhos e a dança das mãos que se agitam no ar - talvez expulsando demónios.

Uma virtude da consciência para mim: uma refracção detalhada na expressão tão primorosa quando o sorriso surge tímido, quase sem descerrar os lábios, deixando apenas antever um ligeiro brilho dos dentes, mas que transforma um rosto num perfeito arquétipo de culto - chega a tornar-se tão dolorosa esta potência. Tão magnifica!

Este não é o sorriso sóbrio do embaraço sem palavras. Tem o ruído de quem se rende sem pudores a esta emoção. Cintila, aparentemente fácil, mas é mais do que isso. É um portento único. Antigo. Universal. Impossível para certas criaturas.

Impossível para mim. Infelizmente.

 

 

 

"Journey Through Darkness"

Kurt Weston,

fotografo invisual

A ironia é um daqueles gigantes silenciosos que caminha entre nós. As mãos em cima dos nossos ombros exercem a pressão que pode esmagar e, aparentemente, apenas conseguimos senti-la na sua força mutilante quando é tarde.

Quando entramos em casa e olhamos para a cadeira onde, outrora, alguém se sentava, com a chávena de chá na mão - só tecemos amargas considerações sobre a saudade quando desaparece quem já demos como dado adquirido.

Como desejar o frio nos dias de calor debilitante; como ganhar aquele prémio tão cobiçado e tudo o que sobra veste o manto indescritível de nada! Vazio. Vago.

Talvez a ironia questione a natureza do solitário nos dias onde o cheiro daquele corpo não está presente. Que silêncio conseguirá ser mais pesado do que aquele que nos espanta quando uns lábios se colam aos nossos, quando imaginávamos estar tudo alinhado naquela nossa tão sensata solidão?

Uma vez mais, não sei. Irónico, também.

É quase sarcástico que uma serena ironia seja responsável pelo desmoronar de muros altos como torres. Porque não entrou repentina. Antes na ponta dos pés, como um astuto ladrão de campas. Instalou-se no monstro que necessita de ver para crer -naquele cujos olhos fazem viver respirando quimeras atmosféricas, quando o olhar é rapace e por vezes, demasiadas vezes, verbaliza volumes silenciosos.

Talvez seja uma ironia ainda maior e exista afinal, um Deus, com um supremo humor que ironiza, na existência de um Ateu que se julga convicto. Na ironia de uma criatura cega de olhos baços, por vezes levemente tingidos de azul, possuir a capacidade de morder o flanco do incauto que julga o mundo pelo olhar atento. Entre espaços cheios de prateleiras e livros, banhados pela abóbada no telhado que jorra tanta luz, que não raras vezes, os olhos que vêem devem cerrar-se.

É a distância destes dias, obrigados a afastamento, que fecunda esta gigantesca ironia. É uma saudade tão dolorosa não conseguir ouvir a voz serena e o tic toc da bengala nos móveis. Ou os passeios, entre os suspiros dos enormes ciprestes, enquanto, de braço dado, caminhamos falando - porque ele se recusa ao meu silêncio e demasiada reflexão. 

É como retornar onde pertenço. Uma soberba ironia esta: Caminhar como despojado pela mão de um invisual que consegue retirar-me do poço. Sistematicamente.

E Corto, o cão enorme, potente, olhos do velho cego, reconhece-me! Sempre. Atropela-me de alegria e ladra como uma criatura infernal, enquanto o velho cego emite risadas sonoras e infantis. 

Corto arrasta o meu corpo maciço para a praia para uma disputa amigável de força bruta; enquanto rebolamos na areia fria, o velho invisual pressente e aponta vencedores - quase sempre o seu cão fiel.

Irónico, que esteja a escrever estas palavras e me sinta percorrido pela nostalgia e uma intensa felicidade.

Que neste preciso instante necessite de voltar a eles. Que irei regressar até morrer. 

Que morrerei. Ironicamente feliz.

Odeio ironias.

 

A timidez, inesgotável origem de tantas infelicidades na vida prática, é a causa directa, mesmo única, de toda a riqueza interior.

Emil Cioran

 

Existe um apaziguar que eu não consigo explicar, quando é possível permitir a entrada de outra consciência no meu universo pessoal. É como deixar, por momentos, ficar a um canto, a vontade de permanecer absorto nos meus próprios desígnios. Pequenos ou grandes.

Creio ser um desejo inconsciente de me afastar da minha própria Nebulosa. Observar outras atmosferas e outras dimensões; outras Nebulosas, se calhar bem mais vastas. 

Não sei. 

Talvez se torne necessário assentar amarras na ideia de que ninguém existe como uma ilha, antes como parte de uma totalidade com tantas galáxias - ainda que Carl Sagan já me tenha convencido da indiferença deste Universo para com todas as criaturas, gosto de matutar na ideia daquele ponto luminoso, diminuto, no firmamento, rodeado de outros pequenos astros. Mesmo que tudo se desfaça em poeira interestelar. Mesmo que perca a consciência e nada permaneça, quero que signifique algo para mim.

Este apaziguar com outra consciência que não a minha é uma melodia para mim, que persisto na crença desenfreada de Individualismo. Outras visões e outras palavras. Outros silêncios e outros labirintos que ajudam o monstro a caminhar menos solitário. Mais alegre na ideia de que nem sempre a justificação mais certa é a dos contornos draconianos do cinismo e do niilismo.

A companhia é isto. Química e exótica. Uma espiral de outras estrelas onde me permito  partilhar luzes e sombras apenas com as que nos seus espasmos mais cintilantes me cegam, e  desconhecendo, são portentos onde deito a cabeça.

E descanso.

 

 

Jair Messias Bolsonaro. Nascido a 21 Março de 1955 em Glicério, São Paulo, Brasil. 

Formação? Escola de educação física do exercito.

Actual presidente do seu país.

Característica interessante? Uma estranha capacidade de suscitar ódio. Não aversão. Não desinteresse. Sequer desprezo. Mas uma esfera espessa de ódio que alimenta tudo isto e bem mais do que tudo isto.

Não me interessam os ódios políticos a esta criatura. No Brasil a sujidade é comum - na esquerda ou direita. Só um ignorante da sua realidade aceita o contrário. A verdadeira economia desta nação é paralela. A sua moeda é a corrupção. Ponto. 

No entanto, com os seus maneirismo de pequeno ditador, absorto nas suas malhas vai, tristemente, imitando o seu outro ídolo. Zeloso. Sim. Imitador sem originalidade. Repetente. Exímio na ignorância que o transforma num boneco sem sentido de orientação; hoje assim e amanhã conforme será. Repetidamente martelando na mais viva cretinice, vive naquele limbo de quem ora bate neste muro ora bate naquele e volta sempre ao mesmo espaço.

O meu ódio contra si é igual ao que nutro por todos os outros, mesmo que de sensibilidade política diferente. Supostamente diferentes. Mas os motivos são outros. Mais viscerais. Mais lúcidos e passiveis daquele pragmatismo que me leva a perder esperanças de salvação.

Para este futuro tirano que pensa governar uma nação desfeita em multiplicações sem resolução, reservo a ironia do momento. Uma mistura conservadora imbecil e casta; como se o ser conservador fosse tudo isto: pertencer a uma elite macaca de ideologia manchada por imprecisões e nódoas da mais absoluta tacanhez; um simples acesso para justificar a estupidez. Irritam-me os Messias! As imitações em saldo.

Exaspera-me a necessidade de conviver com displicências temporais de aspecto asseado e cabelo imaculado. Testemunhar inépcia que se revigora num povo e numa religiosidade justificativa.

Um pequeno e fortuito tirano que embaraça futuros ditadores, nos seus arrufos tenebrosos de estupidez caótica. Pequena célula num universo virado para si mesmo, que se imagina um atleta intocável. 

Como se dotado de qualquer virtude divina! 

Como se não soubesse eu o caminho que esta pequena partícula irá trilhar - creio que lhe devo o mérito de me fazer rir. Coisa rara em quem odeio.

 

 

 

 

 

 

 






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