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Posso perfeitamente adivinhar o instante em que começou a definhar numa espécie de decrepitude apressada. Ainda que no inicio tenha sentido algo semelhante a uma pontada de lamento, depressa se desvaneceu essa impressão, sujeita ao rigor da tirania de uma constatação: em si nunca se agitou um espírito sagaz e felino no sentimento. Antes a presença dessa semente de ignorância, abundantemente travestida de jocosidade que servia apenas para abafar uma simplicidade ornamentada, numa textura sem definição, frouxa e mal nutrida, cansada e envelhecida. Não possui ainda hoje a virtude dos que envelhecem magnânimos, sábios e blindados na certeza do que conseguiram viver, naquele respirar indescritível de quem verdadeiramente se sentiu vivo escutando outros cantos que lamentavelmente, apenas agora, nestes últimos passos, reconhece nunca ter celebrado.

Porque nunca viveu realmente. 

Apenas respirou até definhar. 

Um primeiro gesto de violência no agarrar dos pensamentos enquanto foi esfregando a minha consciência na terra até sangrar. Acho que foi necessária essa humilhação muito pessoal, como se toda essa brutalidade fosse um despertar de algo em mim que descansava em coma profundo, alimentado num soro de raiva e ódio tão venenoso que não era possível vomitar, esvaziar de mim. Tudo porque aceitar a cegueira se torna muito mais fácil mesmo que nos aproxime do abismo. 

Sempre foi certa em mim a ideia que impõe as margens da comiseração auto infligida como um acto de fraqueza destrutiva, e sempre foi muito mais do que isso que alimentou e atravessou os meus dias ao extremo de se tornar num eclipse sem fim, um caminhar cego de mãos estendidas, demasiado absorto em pensamentos de morte e no fim destes dias. Um primeiro rasgão tão violento e doloroso que agita os nossos dias a as noites nunca mais é esquecido. O reconhecimento da sua necessidade para a minha sobrevivência abriu as portas para mais golpes. E é tão estranho, quase absurdo, que um processo de flagelo nos torne mais fortes.

No entanto é tão verdadeiro como os instantes desta minha dispersão. 

Um despertar necessário. Alinhado por pontas perfeitas. Tão necessário como as mãos no meu rosto que levantaram a minha  cabeça. Finalmente com os olhos longe do chão.

Tão fundamental como aquela palavra de amor sussurrada aos meus ouvidos.

Uma. Apenas uma.

(Fleuma)

 

É neste preciso instante que eu gosto do cansaço, como uma solene recompensa por tudo aquilo que faço enquanto não chega. Por muito gloriosas que sejam as riquezas da insónia para a alma, o que eu quero é cair na cama sem pensamentos, raspar de mim todos os resíduos do dia, escorrer os seus minutos e mergulhar nesse Nada. 

Gosto. 

... Desses momentos de quase não-existência e prelúdio que nos ensina a morte como esquecimento apagado. 

Gosto!

Achas estranho?

E no entanto hoje estes são os meus pensamentos a rasparem na tua porta de entrada, como assombros distantes, suaves como os caminhos da minha paixão, frementes para não me esquecer de ti, mesmo já não pertencendo a este circulo e mundo. 

Mesmo assim quebro a minha marcha e ainda regresso, nem que seja apenas com a brevidade da ponte dos curtos minutos que antecedem esta quase não-existência dos que adormecem. Finalmente. Esta recompensa final que gosto ainda de cultivar dentro de mim nunca esquecendo para onde vou mesmo olhando para trás.

Talvez nunca seja algo que te apeteça compreender. Talvez seja algo que rapidamente afastes com um gesto suave como quem afasta fumo. Mas eu prefiro negar isso. Quero pensar que consigo ultrapassar as tuas fronteiras e agarrar no teu resguardo, mesmo que no teu poiso mais escuro e raramente palmilhado. Esta é uma virtude de quem dorme sem sonhar porque é de olhos abertos que o sonho tem sabor e alimento. Só por isso vale a pena regressar aqui. 

A Ti ...

(Fleuma)

Compreendo porque vejo nele um espelho de mim próprio muito para além da falsidade na crença de uma "alma-gémea" e na banalidade que se tornou pressentir-lhe os caminhos como se fossem os meus, mesmo sabendo que somos de outros locais e de outras passagens mas que acabaram por se cruzar. 

" ... um espelho de mim próprio ..." como se fosse um irmão de sangue, um apoio numa parede sólida mesmo em dias negros e de sombras penosas, um reflexo que puxa as minhas incertezas e abandonos. Um irmão de existência lenta como um fogo que aquece nas noites de gelo inclemente, áspero como eu, o meu diário pessoal, muito meu, uma viagem da alma se quiserem. Sempre pensei nele como uma sublevação e um ditador de si mesmo, violento contra as suas emoções, perfeitamente adaptado aos rigores de um mundo de merda - imperfeito. Tal como eu.

Imperfeito. 

De algum modo, um dia destes serei capaz de explicar porque será esta a verdadeira essência de um irmão nos seus reflexos e nas suas paisagens negras como se fossem minhas, sem retoques de primor na sua beleza difícil, crua e severa, mas que oculta uma pacificação sem os ventos da tempestade. Um reflexo pessoal que pinta o Inverno nas cores da nostalgia e onde eu gosto de descansar nos silêncios que me ensinou a proteger.

Antes temia que tudo isto me tornasse menos "humano" e ainda mais vulnerável. É difícil aceitar uma intensa "ausência de luz" como um acto pessoal de libertação e por vezes tão necessária, onde assume a proporção de uma preciosidade que respira dentro de mim. Não poderia estar mais equivocado. Mesmo que nem sempre imune à fragmentação.

Não conseguiria estar mais errado. 

(Fleuma)

"Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir." - G. ORWELL

(999)

 

Uma das mais raras pérolas do distanciamento é a capacidade de análise ao que nos rodeia. De tal forma que, se bem nutrido e experimentado, esse analisar se converte num processo de desbaste lato, frio e atrito a inutilidades. Este pragmatismo criado por um distanciar que muitos afirmam mergulhar a pessoa num cepticismo incorrigível, num cinismo demasiado ácido e vazio, é uma forma de arte obscura, cultivada entre sementes de estoicismo e observação pessoal quase a roçar um frio glaciar e que, com demasiada regularidade transforma coisas, pessoas e acontecimentos em mentiras ou absolutas referências de comportamento. Por vezes implacáveis e dolorosas, mas tão essenciais a quem se afasta e observa como o respirar. Essa é a virtude de quem olha também para si próprio com a clareza clínica das suas imperfeições, fruto de anos e danos pessoais, não se reconhecendo como um modelo a seguir, enquanto vai destronando os seus ídolos um por um. 

Esta capacidade de auto critica parece ter desaparecido nas atrocidades destes tempos "modernos", na simplicidade e imbecilidade do caos das atitudes e acções mais incoerentes, ao exercitar mais corrosivo de um pequeno número de bastardos ideológicos que há muito deixaram de respeitar o individuo em nome de um conceito moribundo: o bem de todos os seres humanos!

A pouca tolerância para venerar a real e verdadeira definição de Liberdade de Expressão principalmente quando outros discordam da nossa forma de pensar, é sistematicamente apresentada aos nossos olhos como um gesto de preconceito, que demasiadas vezes cobre com uma capa de vitimização a idiotice mais indefensável e absurda. É apenas mais uma prova do gozo que dão os extremos e do prazer que parece oferecer a bota a esmagar a nossa cabeça. Esta predestinação para reverenciar tudo o que é dito como verdade absoluta apenas porque é partilhada em massa, é parte de um epicentro de ignorância obtusa, tão glorificada porque vem das emoções, esquece demasiadas vezes os factos e o incontornável pormenor de que estes não querem saber dos nossos sentimentos! É uma horda de preguiçosos infantis que balança quando ordenado, indefesos e incapazes de suportar um espasmo de contrariedade que ofenda o seu bem estar ou a sua formatação cerebral. 

Esta é uma das maiores justificações para as mudanças que se observam nestes dias - que aliás não são novas. Sempre foi assim. O problema é que a Liberdade de Expressão arrasta consigo a Liberdade de Escolha, uma abençoada alquimia que nos torna criaturas ímpares, mas a sua omnipotência assenta na suprema ironia da insatisfação: a nossa escolha nunca terá a concordância dos outros. Nunca seremos capazes de concordar com as escolhas doS outros e iremos sempre encontrar motivos para impor as nossas visões pela força. 

Ponto.

A virtude que idealiza a escolha livre e sem pressões de um Povo através de um sinal no quadrado de um símbolo, é apenas e só eloquentemente aceite se for em acordo com a "minha" defesa doutrinária. Fora dessa zona cinzenta de ideias os "outros" são o perigo que é preciso combater. A liberdade de voto nunca foi realmente aceite no silêncio de que uma maioria escolheu e decidiu. Apenas se for em concordância com a nossa visão. 

Esta Liberdade para Escolher tem uma última e deliciosa ironia: não existe nenhum Povo que aceite de Livre Vontade as consequências das suas decisões e a punição que germina as ditaduras autoritárias. Sejam de Esquerda sejam de Direita.

E porquê?

Porque não existem Povos arrependidos e muito menos os que se recordam. 

Todos votam no esquecimento. 

(Fleuma)

 

 

 

Sean Mundy

 

Um dos primeiros e mais seguros sinais de desvirtuação individual é a incapacidade do pensamento próprio - essa "magna atitude" que submete o orgulho, obtendo uma mistela asquerosa de narcisismo imbecil e submisso, confundindo a nobre arte da auto-estima com os acessos piedosos e infantis que recusam os factos porque estes ferem as emoções. Esta falta de pensamento, este acarinhar de um sentimentalismo desprovido de farpas que torna mansas certas criaturas, eterniza cismas e sectarismos, não aceita a nossa indiferença perante as escolhas pessoais dos outros como justificações para uma constante necessidade de atenções e massagens no ego. Emil Cioran escrevia, " Somente o que está escondido é profundo e verdadeiro. Daí a força dos sentimentos vis.", e não poderia ser mais premonitório no seu cinismo descrente numa sociedade que nada preserva, nada reserva, tudo expõe e pura e simplesmente odeia a palavra intimidade! 

( Fleuma )

"ERICA BERKOWITZ"

 

Tem a beleza insofismável. Firme e de maxilares cerrados. Nada comum nas criaturas calmas e alinhadas com a sua própria "natureza". Quando se senta na mesa à minha frente, quando coloca os cotovelos em cima do tampo de madeira escura com a suavidade de um bater de asa, é um reflexo cristalino de uma harmonia em confronto com a minha paixão pelo Caos. Fita os meus olhos de ombros erguidos e queixo que não parece ter sido rasgado pela violência das incertezas. Nunca. Sem a expressão do impacto da desilusão. 

Mente.

Sei que mente. 

Sei que se inquieta com o meu "sinistro" hábito de inclinar levemente a cabeça para um lado e para o outro quando aguço a minha atenção - "como se fosse um animal desconfiado".

Pior: como se fosse minha a intenção de consumir as suas defesas e predar no mais pleno dos abandonos. 

Mas não deixa de ter uma certa beleza a preciosidade do seu jeito ao tentar que nada disto afete as suas impressões. O esforço de me olhar e ainda assim conservar uma distancia segura, como se estivesse a observar pacatamente uma besta enjaulada - fascinada mas segura - firme e de maxilares cerrados mas alinhada com a sua "natureza". Qualquer gesto mais brusco, um agitar mais demorado do meu corpo, agita a fluidez de uma racionalidade nutrida na placidez de quem acredita na sua capacidade de caminhar por labirintos desconhecidos em segurança. Mesmo com os braços esticados como em cegueira. 

Falso. 

Sei da sua incapacidade para prever as minhas palavras. As minhas emoções que agitam as suas certezas e bom sangue. 

Sei.

Pelo fugaz desvio do seu olhar para os lados quando não entende porque não são os meus pensamentos transparentes. Como se, de repente, algo em mim acordasse em si um instinto primário de fuga que existe em todos, mas que a sua educação sempre afirmou superioridade sobre algo tão subliminar. Sou uma incerteza que aparece e desaparece à sua volta como um mau pressentimento, o estalar dos momentos iniciais de uma tempestade. 

Uma beleza agitada que corporiza a solidez de uma armadura oca quando as certezas se transformam em sombras indefinidas. E nada é mais doce do que o fino véu de uma frágil segurança que tenta ocultar a inutilidade de um maxilar firme e cerrado. 

(Fleuma)

Aquele preciso instante de lucidez que nos torna loucos.

 

Adormeci ao som de palavras desconhecidas, orgulhosamente ditas por gente mais velha. Adormeci, quando o espírito, mesmo cansado, se recusava a ceder aos feitiços do sono. Para mim, cínico e descrente, teimosamente em fuga de um niilismo cada vez belo, deslumbrar-me nestas palavras tem aquele fulgor intenso e proibido de uma estrela de alva, como uma mortificação antes de um reconhecimento.

Adormeci quando se falava de Fraternidade, incapaz de aceitar o sonho da Igualdade, mas dolorosamente encantado pela melodia desta palavra; disseram-me que adormeci pacificamente, como uma criança, embalado por um feitiço conjurado, brindado, rendido a essa suprema ilusão que habita este miserável planeta, que teima em transformar criaturas imperfeitas em heróis: a Liberdade.

Creio que, por algumas horas de sono, deixei entrar estas e outras palavras afinadas por bocas antigas, com muito mais vida. Como um fantasma entre monólitos desconhecidos, tragicamente perdido, embriagado por portentos de libertação e devoções a uma unidade que me transcende.

E antes de adormecer, mesmo antes de fechar os olhos, como um animal espantado pelo desconhecimento, senti o cheiro perversamente quente, vi o vermelho vampiro, dos cravos amontoados ao meu lado. 

Adormeci embalado pela ilusão de outras palavras. Sonhadas. Quase capaz de acreditar nelas.

Fleuma,






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