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Hallowed Be Thy Name ...

 

 

Reconheço a minha ignorância e negligente desinteresse em figuras públicas, menores ou maiores. Não me interessam personagens construidas em nome de novelas, festas sociais ou atribuição de estátuas por talentos que, manifestamente, não entendo. Não quero forçar a minha já restrita paciência no facebook ou instagram com toda a sua imbecilidade "likes" ou comentários pacóvios de quem raramente entende o que comenta além de banalidades de exposição pública.

 

Por isto não sabia do que se falava. Porque razão a comoção agitava as águas frouxas da sociedade. E tudo seria bom e tudo se revelaria óptimo, se em cada hora, em cada minuto que entro num ginásio ou pego num peso, não surgissem olhares vesgos e assopro pífio. Parece que a nova  revelação se chama anabolizantes. Creio que a criatura humana continua a padecer da patologia da generalização - somos todos iguais. Ou então, apenas alguns.

 

Segundo informação, alguém que não conheço, decidiu forjar um corpo. Decidiu que seria importante para a sua vida profissional dependente de "likes" e elogios alheios, aumentar o seu volume corporal e calibrar a estética para os suspiros femininos e masculinos.

 

Alguém decidiu por si. Não me interessam as pressões mediáticas ou sequer  o estado de condição cretina dos seus seguidores. Será necessário respeitar isso. Não aceito contemplações moralistas estupidamente ignorantes.

 

Aparentemente esta é uma sociedade que se anseia tolerante - tolerância na orientação sexual, contra a intolerância racial. Apenas alguns exemplos de aceitação propagada com a força das redes sociais. Tudo bem. Assim seja.

 

Mas a hipocrisia mora na próxima esquina. É asquerosa e feia. Escondida debaixo da iniquidade ideológica que depende da escolha colectiva e por isso  deve ser defendida. Deve ser berrada a plenos pulmões.

 

Portanto, uma escolha pessoal, mesmo que para babugen alheia,  deve ser respeitada ou tolerada mas apenas secretamente.Tolerância sim! Mas apenas para certas escolhas. E então se isso significar o proverbial tiro no pé, martelam-se as massas com exemplos estúpidos e conselhos a seguir.

 

A grande maioria dos seres humanos vive da observação assente no trono do " faz o que eu digo e não o que eu faço"; sonha com os seus ídolos de barro mas não estende a mão para os ajudar na sua queda. Esta grande manada procria na inveja e na procrastinação perante criaturas decididas a criar uma personagem mediante qualquer meio. Não respeita nada, de facto. A sua suposta tolerância é ditada por um qualquer drone. Não aceita decisões pessoais que pura e simplesmente não trazem contributo para as suas frágeis existências - para além dos sonhos.

 

Sei por experiência pessoal o que significa para uma grande maioria possuir uns braços enormes. Sei dos pensamentos de muitos quando observam dorsais como asas, pernas como rochas e ombros forjados no peso. O que pensam das mãos grandes. E nada disso me interessa. Sei das minhas fragilidades e do sofrimento anterior a tudo isto. Eu sei do poço - o abismo mental e destroço físico de quem se arrastava durante vinte longos minutos do quarto para a casa-de-banho, matutando na cadeira de rodas onde sabia ir sentar-se. Tarde ou cedo. Sei do meu esforço e dos gigantes que me retiraram desse poço imundo. E não foram anabolizantes. E se fosse? Decisão minha.

 

Os comentários e olhares de que vou sendo alvo revelam o que me rodeia. A ignorância das ovelhas que não entende que o meu corpo não se destina aos seus suspiros de admiração. Uma máquina alterada por minha decisão e força de vontade. Que pouco me interessam os seus pensamentos cavernosos sobre o meu tamanho excessivo.

 

Torna-se perfeitamente claro que a grande maioria das criaturas humanas deste planeta não gosta de si: são seres com excesso de peso e em permanente estado depressivo compensado com comida e insultos; vivem curvados e em dores porque não entendem que o excesso dobra os ossos e as vértebras.

 

Regurgitam absurdos ignorantes e vão esquecendo os cinco quilos que trouxeram no corpo depois das férias. Sentam-se nos cantos como pombos e vão soltando arrulhos sobre a sua  falta de sorte e como o sujeito é assustador com tanto músculo - " provavelmente, anda na droga!", só isso justifica conseguir caminhar erecto e sem dores  quando o seu lugar era na cadeira de rodas.

 

A ignorância veste muitas vezes a burka da tolerância. Creio que a decisão pessoal, não prejudicando outros, deve ser respeitada. Comentários imbecis e depreciativos apenas justificam reflexos de incapacidade, falta de inteligência e acima de tudo, mentalidade de rebanho.

 

E por uma decisão pessoal que deve ser respeitada também se devem aceitar responsabilidades pelas suas próprias acções. Más decisões pagam-se caro. Porque nada nesta merda de mundo é oferecido sem retorno.

 

 

 

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Uma das mais raras virtudes do ser humano consiste no reconhecimento tácito da necessidade de desaparecer; é tão rara esta virtude, tão absortas estão certas criaturas na sua ânsia de não deixar que se apaguem os seus sonhos, que o esquecimento do que são e já deixaram de ser transforma os poucos anos que restam da sua vida numa paródia - uma ingénua natureza morta.

 

Há quem já esteja morta há anos. Existe quem seja sábio ao extremo de reconhecer que as cortinas baixam e urge que se retire com a elegância artística do velho anjo ou demónio. Mas na decrepitude mais estúpida se manifesta, sistematicamente, o mais ardente dos fanatismos sonhadores; numa bizarra incapacidade de ultrapassar a incoerência vegetativa, certo é o abraçar final do estado verminoso: último espasmo que garanta alguma sobriedade perante o cair do pano.

 

Quem se recusa a aceitar o desvanecimento mesmo diante do patamar do que foi a sua já longa vida, perante as virtudes da realidade do seu passado inútil e de estéril importância para os que vivem ao pé de si, persiste na mesma naquele furor imbecil descrente de hierarquias e topos, onde jamais ascenderá - apenas poderá sonhar com a sua própria consciência de verme, incontáveis vezes profanada por elites intocáveis.

 

Sempre farejei a podridão nos que aguardam no mais escuro buraco enquanto vão sonhando distracções alheias,  na sanha de uma pequena dentada que seja no calcanhar dos titãs. O fedor do símio covarde sem um pingo de vigor moral que se imagina policia de virtudes, insultando e difamando quem nunca lhe será semelhante, consigo sentir a quilómetros. O raquitismo mental de quem ousa vestir a túnica da inocência e foge acossada como uma sanguessuga tentando apagar todos os seus traços no meio da mais vasta sujidade, já há muitas luas deixou de me espantar - apenas provoca um imenso bocejo de reconhecimento ... E sola da bota suja.

 

É imediato o meu reconhecimento da criatura que se recusa a aceitar a derrota. Persiste na visão míope de que não existe um pé que lhe esfrega a face desgastada por anos de incompetência existencial, na sua própria saliva imunda; um ser sombriamente cretino vislumbrando o próprio Seppuku e que ainda assim, mesmo assim,  recusa fechar os olhos.

 

Guardo um rancor muito brilhante ao verme delator e mentiroso que apenas progride nos seus já  escassos dias de luz com a falsidade das palavras e obscenidades das  ratas de esgoto.

 

Cultivo com paciente amor e carinho um ódio de estimação a certos erros respiratórios. É quando o velho verme se vitiminiza nas graças da inocência e cai no atrevimento de imaginar que algo no Universo se importa consigo, que mais gosto deste ódio. Como ferve e borbulha.

 

 

 

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(999)

 

 

Eu ...

 

O ser humano é uma criatura estranha. Quando no estado mais puro de companhia, entre o êxtase do grupo e o uníssono da partilha comum, transfigura-se. Talvez  assim se justifiquem as ideias  que afirmam não sermos talhados para estar sós; morre o conceito da ilha deserta ou do lobo solitário. Comungar paixões tem sido revelador nos últimos meses. Talvez demasiadas vezes para os meus sentidos.

 

Assim tem sido comigo. Entre a descoberta da faculdade de respiração entre multidões e a aceitação de que por vezes se tornam necessárias as saídas urgentes de uma solidão que se torna venenosa na sua dependência, tudo tem sido revelador; tanto tem sido escrito e tanto tem sido negado. Nada permanece como antes. Nada.

 

Creio que apenas quando envolvidos nesta corrente, respirando na asfixia e intensidade destes momentos se atinge o que sempre procurei.

 

Saborear um caos tão distinto como fonte de alimento e sobrevivência.

 

 

 

 

 

 

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(999)

 

" Open, Ye Core ..." 

 

 

Violência controlada. Sente-se escorrer na pele. Bate asas e rodopia pela sala em escuridão. Como que feita de trapos sombrios; alimenta-se do suor banhado na frustração dos dias de incerteza e nos desejos. Desejos tão negros, ali, na distância de um tocar.

 

Como consegue ser majestosa a doce violência do som! Reunifica os pedaços da alma e alimenta a sofreguidão deste veneno. Envenenado na liberdade criativa sem limites ou deuses. 

 

E é amor, amar esta violência que se deixa domesticar. Como que na placidez dos crentes nas suas virtudes. Como no sossego que nasce da sabedoria. Quando o som cresce em monstruoso e na mente dançam as sombras enamoradas nas palavras atiradas, cuspidas, ásperas como lâminas, e é na escuridão que existem as respostas. 

 

Não nas luzes.

 

Em sangue. Amo-a. No indescritível comando de uma canção. Toda uma vida de cinzas existe. Acorrentada na noite.

 

Amo a violência do som negro ainda e quando tudo parece acalmar-se e pela sala restam as faces espantadas e as bocas abertas de sede. Venero a devastação que permanece. 

 

Quando tudo se silencia.

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Eu ...

 

(999)

 

A ideia de conhecimento pessoal, voltado para dentro e com a extrema necessidade que nasce de aceitar o que transparece, longe de tudo e toda a atenção que não a nossa, revela acima de qualquer nota, a sombra do mais perfeito egoísmo. Engenhoso egoísmo que semeia a virtude de algo apenas nosso e nunca revelado, mesmo quando na troca de confissões intimas. Mesmo perante o olhar persistente do psiquiatra.

 

Alguém me afirmou que conhecer o que "habita" em nós é como pernoitar numa casa entre montanhas e durante uma tempestade de neve. Quem já testemunhou a fúria assassina da nevasca do Norte entende a incapacidade de responder sobre o que habita em nós. Podemos fechar  janelas e criar calor para aquecer. Existirão sempre frestas de imprevisibilidade e escuridão. E espaços que apenas eu conheço e tenho acesso.

 

E gosto dos meus recantos escuros e frios. E dos teus. Do que consigo transportar em mim enquanto bebo das tuas palavras. De ínfimas possibilidades. Assombros. Promessas cumpridas.

 

Conhecer.

 

Não gosto do que canto. É grotesco. Não existe realmente luz nele. Antes a tua canção. Infinitamente mais respirável. Mesmo que sonhadora, é respiração. Desgraçadamente necessária.

 

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Cantico della dea

 

 (999)

 

São estranhos, certos fogos que nos consomem. Rapaces no seu sossego escondido, necessitam, imploram por alimento. Para alguns são uma mãe serena em dias mais escuros. Um ventre de alabastro onde se repousam sonhos e descansam preces silenciosas. É possível que se viaje também entre labirintos e compassos, mas o que consome arde sem ruído. É distância.

 

Outros são fogos incandescentes, fogueiras de São Vito que transformam a alquimia das almas. Inspiram o espaço onde faltam deuses, encharcando-o no ópio dos estados d´alma; é música quando expirada para pacificar a dor e uma soberana liberdade de si para si. Pessoal e supremamente egoísta.

 

Os animais mais vitais conhecem estes fogos. Nem sempre ardem chamados pelas chamas. Muitas são as vezes em que é a paixão a alimentar o mais tenebroso dos fogos. São a mescalina turva e doce dos desejos mais negros. Palavras, gestos e expressões que apenas servem o propósito sussurrado da fragilidade envelhecida.

 

Ou fogos de consumo tão imenso que permanecem. Não se apagam. Deslumbram o juízo mais escuro. É com estes arquétipos que se procuram sonhos e vozes. E ainda que fugazes, são o espanto das noites de desejo mal dormido. Revelam-se em impossibilidades e crenças sempre acesas de utopia.

 

 

 

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(999)

 

 

Existe um preço para os momentos felizes, dizem; é preciso que continue a caminhada enquanto se calibram sentimentos e se adaptam as palavras. E afinal, reconheço que nada disso é verdade. Pior, nada disso interessa.

 

Reconheço também que existe, de maneira estranhamente visceral, quem consiga despertar em mim outros sonhos vistos por olhos que não apenas estes. Que a escuridão é tão obscenamente encantadora, tão gigante se propaga quando acompanhada por desejos íntimos de libertação e luz, que parece apenas ser posse de uma única pessoa.

 

Não sinto que seja louco. Ou então não muito mais louco do que antes. Mas este fogo inesquecível deixou de me atormentar os dias. As emoções reveladas a cru sempre foram as mais elásticas e difíceis de descrever, mas são um alimento tão portentoso de energia! Creio ser bem capaz de esmagar o universo em estilhas: pura e simplesmente porque o calor emanado é tão intenso; porque o meu lugar assenta junto a um sacrilégio esfomeado por mim. E eu tenho tanta e tanta ânsia. E tamanha é a fome dilaceradora.

 

 

Gostaria de escrever nas consciências o quanto me faz rir o sentimento de calor humano. Seria importante gravar a ferros que o vazio se torna imenso quando não existe o animal emocional; quando se perde o brilho de um olhar que nos despe e queima, imolando todas as certezas e definições.

 

 

 

 

 

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