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Existe uma percepção da paixão que sempre me perturbou intensamente, pela forma como sempre conseguiu deixar-me indeciso e em terreno escorregadio. Na existência de uma química deslumbrante em quem consegue, sem remorsos de culpa secreta, uma entrega em abandono total, quase violento. Que rasga as emoções em farrapos. 

Por vezes, naquele principio quase solene em que o pensamento se retrai mudo entre o turbilhão da lógica fria e o mais intenso instinto animal, livre das correntes, inconsciente de si próprio, incapaz de se domesticar, é nessa capacidade de abandono que segredos são elevados, insónias glorificadas.

A arte de quem se abandona perante instintos primários é ainda de caminhos que não são os meus. É ainda alquimia de outra criatura, pacientemente terna, zelando para que a minha capitulação não seja a humilhação da derrota. Subtilmente sábia perante  mãos trémulas, por instantes impotentes.

Quem se entrega em abandono escreve pelo seu próprio tracejar um domínio que muito  raramente consigo quebrar. Reconheço-lhe as virtudes do mito porque é exactamente disso que se trata: sintoma de lenda encantada cantada por bardos poetas, dançada nas noites mais longas da memória.

Que alguém respire junto a mim sem temor, de olhos cerrados e em quase perfeita sintonia, nunca deixará de me espantar. Decidir isto, pelo seu próprio abandonar de defesas,  diluindo-se comigo, será sempre uma das mais perfeitas e verdadeiras provas de fogo. E amor. Todas as minhas defesas em fragmentos. Toda a minha capacidade de lutar em cinzas.

Este abandono. Falso abandono que tantas vezes veste o traje da submissão. Um engano que se torna caro para o incauto que se embala na sua canção.

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"Oração das cinzas ..."

Memórias que alimento ...

(999)

"Caminhos: são os meus caminhos, escolhidos por mim."

 

Escolhidos por mim. Que estranhas parecem estas palavras. Como se nesta possibilidade algo de maligno existisse; e escolher não fosse próprio da liberdade pessoal. Algo meu. Muito meu. E escolho diferente, sempre escolhi como quis e quero, apropriando-me das minhas decisões e capacidade de me arrepender delas, negando-as mesmo,  regressando a pontos de entrada para refazer tudo. Muitas vezes, metodicamente lambendo feridas.

Gosto de beber nas escolhas os meus caminhos. Fascinam-me os passos e as sombras deles porque são vastas em nós. Adoro-as! Diferentes da consciência diária, essa ponta de gelo que flutua ao alcance dos olhos. Não. Vivo para essa imensa escuridão de emoções, paixões, instintos cegos que habitam o universo abaixo da superfície como se estivesse  de mãos esticadas e  tocando. Sentindo. Ouvindo em silêncio as suas notas.

São caminhos que tantas vezes me levam a regressar ao refúgio de outros cúmplices de braços abertos, porque sim,  são companheiros de outras atmosferas e mundos. Meus e eu deles. Assim. Mesmo em saudades amargas ensinaram-me a perseguir escarpas e labirintos. A voltar sempre. A cantar algo maldito que alimenta. A verter as notas nas noites em que muitos dormem num sono solto mas sem sonhos.  A deixar (ansiar!) que tudo se apague para que apenas permaneçam sombras amadas.

Apaixonadas.

Não são os caminhos de outros. Eu sei. É onde está o vento e bate forte o coração porque as noites são longas, quase eternamente voluptuosas, e nem sempre silenciosas como gosto. Mas acredito nos que fecham os olhos, e no escuro, se entregam a uma liberdade sem preço.

Mesmo que aterrorizados com o seu sabor.

 

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As palavras escritas na pele são a recordação permanente de algo. Quando pensadas nos momentos mais obscuros gravitam como sombras nossas. Dançam no nosso corpo como menções, como epitáfios em batalhas vencidas. Os pensamentos têm uma cadência nos traços desenhados apenas possível a quem se submete a esse estranho profanar pessoal, a essa transmutação que transforma o corpo num diário de memórias.

Mas quando vi a palavra escrita naquela pele não consegui reter a torrente de sensações numa intermitência de raiva, frustração, desassossego e recordações malignas. Apenas porque sou estupidamente orgulhoso é que não coloquei um joelho no chão e inclinei a cabeça, no mais sincero gesto de cedência perante aquela palavra. Talvez porque já há muito lhe reconheci o panteão máximo me recusei a qualquer lágrima. Ou talvez tudo já tenha secado durante as suas batalhas. Sei que ambos ficámos destroçados. Sei que ainda estamos feridos.

E não será o tempo que remediar isso.

Mas a palavra escrita numa pele tão clara e jovem transforma-se pela intensidade e significado. Absorve o mundo e martela a mente como algo mais do que uma mera decoração. Voltou a agarrar-me pela face e a mergulhar  os meus pensamentos nas noites de vigília contadas pelos minutos de um pesadelo. Nas palavras segredadas ao seu ouvido afastando o monstro da sua face. Nas promessas feitas. Na minha ignorante incapacidade de lhe reconhecer tanta força! Uma palavra que me  relembra um ódio a mim próprio por não ter reconhecido isso. Ódio por ter deixado que a descrença por vezes me consumisse.

E também será uma salvação para mim. Dizem que segue os meus instintos e caminhos agora. Que traçamos os mesmos orgulhos, os mesmos sintomas de superação  e a mesma vontade de partida.

Uma senhora velha, muito velha, que diz nunca ter mentido na sua vida, afirma desdentada, que somos a sombra um do outro, que a nossa beleza é estranha e que eu nunca consigo deixar de rir ao seu lado.

Talvez a velhota não esteja enganada. Talvez pressinta a minha capacidade de morrer por esta criatura. Talvez encontre a beleza nisso.

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Dizem que certas canções encantam porque são caminhos para Abismos. Ouvidas apenas por alguns. E dizem que estas canções nascem de estranhas melodias, entoadas como encantamentos aos ouvidos de quem delas se apaixona, sussurradas, jamais elevadas por gritos, que conhecem a alma despida. Nua. Sem defesa.

Recitam sobre sombras e paixões sombrias com sabedoria, desfiando nos batimentos do coração, promessas. E respostas. Finalmente respostas, que apenas surgem a quem esteve cego, dobrado em si próprio, a sentir o odor de um fim de chama.

Escutar as suas notas justifica a nossa própria lição: eu sei que posso destruir tudo o que consigo construir. Tanta força! Tanta raiva e veneno e as fronteiras tão ténues. Mas são ainda mais do que isto. São como escrever sem a luz do sol, com a claridade de uma vela ou até na maior escuridão. E se não conseguir escrever essas notas com tinta e papel, existirá sempre o sangue e muitas paredes esquecidas.

Não importa. Cada Abismo tem a sua canção e rendição.

As minhas notas são escutadas porque quero todas as noites deste mundo em cima dos meus ombros. Sou assim : ávido

E talvez a melodia seja a mesma quando passo por alguém e um sorriso impossível ocupe os seus lábios dizendo;

- " Hoje está tudo bem, senhor? Sinto-me bem! Sim, hoje é um bom dia para viver..." , talvez escute a mesma canção com outros abismos. Talvez também saiba o que escondem as luzes no fundo dos labirintos - umas vezes Abismos outras não.

 

 

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É tão doce o fim da severidade do olhar quando a luz se reacende num turbilhão que varre o pensamento. E é tão estranha a felicidade que consegue descobrir mesmo o rosto mais inóspito quando a luz e a escuridão se beijam naquele abraço de amantes  reprimidos, nos minutos que sabemos não serem eternos mas escassos como o momento em que descobrimos a nossa capacidade de sonhar, imaginar que o Universo bate dentro do nosso peito.

Estes são pedaços de sombra enamorados no respirar da mais sóbria claridade onde nos recusamos a uma despedida, ao beijo e últimas palavras. Somos animais subitamente deslumbrados por um brilho no olhar que desconhecíamos - por momentos esquecidos que nada brilha para sempre, que tudo o que queremos realmente amar se afoga na condição do tempo curto.

Sim.

Mesmo no mais negro dos desejos existe esta paixão. Mesmo quando os dias são o vidro desfeito onde respiro eu consigo achar-te imensamente bela. Recordar-te em desejos tão ardentes que me calam as palavras e aprisionam os sonhos. Nestes instantes em que respiro contigo, quero ser o idiota que dança e procura as respostas. Mesmo sabendo como a tua beleza é tão quebradiça aceito a tua mão e deixo de acreditar no que outros afirmam em juras escondidas ...

... Que afinal a vida é  apenas um carrossel; que este mundo está cheio de reis e rainhas que insistem em roubar os sonhos; que não, não estou cego, o negro não é apenas o branco e a lua não é simplesmente o sol à noite.

Acho que te vestes solene sem que o saibas porque o meu olhar se perde nessa forma de fustigar os sentidos. 

Acho que a loucura é a tua solenidade envolta num sorriso deslumbrado por um olhar de descoberta.

A minha loucura. O meu olhar. O teu beijo solene.

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Fica mais um pouco ao meu lado. Mesmo em silêncio. Quero falar-te sobre a minha saudade ...

Sabes, ela não cintila na voz do fado como uma deusa radiante. Nunca a vejo nos poemas mais solenes. Não brilha deliciosa como uma preciosidade que sacia na ausência. 

Quero que saibas que é dolorosa como o tecido de uma cicatriz. Que consegue transfigurar os meus dias e noites como uma corrente no meu pescoço. 

Que não a aceito com o drama da paixão - vivo com ela sabendo que em cada dia que passa vou ficando mais pequeno e moribundo. Os seus segredos não são o sussurrar que desejo. As suas carícias nunca serão a sombra que refresca o meu instinto.

Por isso enquanto puderes, fica. Talvez assim se confunda e eu consiga escapar. 

Ainda não desisti de aprender outras artes de fuga. 

Um dia, eu sei, deixarei que adormeça e sairei para não regressar.

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Gosto de me perder pelos caminhos das minhas viagens. Sempre me senti mais próximo da mim próprio, ciente da minha paixão interior, quando percorro expansões vastas; sinto-me enamorado por esta prisão interior, esta ânsia de não estar quieto. Este turbilhão inexplicável torna impossível para mim admirar a quietude do corpo para que o pensamento se eleve.

Estranho isso. Porque nunca deixarei de ser um caminhante, um viajante físico que não consegue imaginar uma viagem sem a distância. Como se nesse distanciar, nessa estranha virtude de afastamento, tudo se conjugue para esta necessidade de devorar o que é novo. E o que vejo é muitas vezes apenas um leve sossego para mim.

Já viajei por locais e vi criaturas em lágrimas sem razão aparente, enquanto se cruzavam comigo. Artistas enfurecidos rasgando folhas de papel ao sabor do vento, silenciados por uma qualquer demónio que vive dentro do peito. Aceitei a  desilusão da descoberta: a beleza é frágil ainda que tirana.

Mas as minhas horas mais felizes pertencem ao comando dos instintos e na necessidade de caminhar por florestas longínquas. E como se  torna possível uma paixão violenta por estas florestas!

Sempre me deixei embriagar pelos seus perfumes e escuridão. As florestas são mulheres possessivas e de uma beleza extrema; vastas, geladas e misteriosamente sombrias, mas benignas para os que passam silenciosos. São também como dançarinas quentes, sensuais, na humidade do seu ar que respiramos e no ondular das suas árvores.

Oiço segredos entre viajantes - dizem entre dentes cerrados, que os verdadeiros viajantes são caminhantes que juntaram o seu sangue ao de um Demónio obscuro e que o fim chegará pela exaustão, pela incapacidade de continuar um metro que seja.

Quero que seja assim. Sei que se não puder caminhar e viajar o meu pensamento irá render-se, entregando a minha alma a esse Demónio.

 

 

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É doloroso, aquele regresso às memórias, sempre que escuto as primeiras notas de violino daquele segmento especifico. Como se deixasse uma porta aberta e o vento venha suspirar aqueles velhos fantasmas. As recordações são, demasiadas vezes, um veneno necessário e tragado no vinho de estranhos demónios.

Poderia passar-lhe diante - até pisar as notas com as botas pesadas - que a expurgação não se consumaria. 

E estranhamente, não sinto qualquer semente de remorso ou arrependimento. Antes uma fome de falar o que não foi falado. Uma intensa vontade de regressar ao passado e, por breves instantes que fossem, rasgar o meu orgulho em tiras, e escutar com outros sentidos.

Nem sequer necessitar de um pedido de desculpas. Ou pedir perdão. Porque este sempre foi um terreno escuro e sem água que me sustente.

Não.

Compreender é algo exponencialmente mais difícil para mim. Mesmo que muitos pensem que os anos nos tornam mais sóbrios. Mesmo que muitos pensem nas graças do esquecimento que repetidamente teimam em afirmar na morte.

As notas não cimentam rancores, mas interrogações e incompreensão. Pregam na memória o voltar de costas e a solidão de quem escolhe partir com o peito cheio de palavras por dizer. 

Mas a necessidade de entender o que falhou nunca deixará de me consumir os dias e as noites. Mesmo que fossem apenas  escassos minutos - mesmo que apenas estivéssemos em silêncio - sei que nós, olhos nos olhos, sangue do mesmo sangue, conseguiríamos acenar e entender. Mesmo não perdoando. Mesmo não esquecendo. Conseguiria casar as notas daquela pauta com as correntes da culpa.

E por vezes, quando deixo que o violino me arraste no seu feitiço, pressinto-lhe a presença. O cheiro a perfume dos seus casacos e como sou um doloroso reflexo seu.

 

 

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Tenho saudades de ti.

Não quero evitar.

É impossivel evitar-te.

 

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