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Eu acredito em velhos feiticeiros ...

Paixão ...

 

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“Somente o que está escondido é profundo e verdadeiro. Daí a força dos sentimentos vis.”

Emil  Ciorán

 

Tu consegues saborear quando me perco irremediavelmente. Sentir o sabor das manhãs em que desperto de sonhos intranquilos, quando o mundo é apenas mais um dos muitos labirintos onde caminho. Quando te prometo, e recuso faltar-te, mesmo que isso custe pedaços de mim.

Tu sabes o caminho de todas as minhas estradas, como conheces o meu nome; por meu espanto, todos os traços e desenhos do meu corpo são perfeitamente reconhecidos por ti, e também conheces, na ponta da tua língua, nas tuas unhas penetrantes, os caminhos que vão dar a eles.

Tu já saboreaste a cor dos meus olhos,  e sentiste o frio dos meus pesadelos nas noites que se tornam longas; já reclinaste a tua face em mim, enquanto dormes e eu zelo por ti.

E tantas vezes já sentiste o sabor da minha fome de ti. E tantas vezes já descobriste onde estão os meus céus escuros, enquanto te sentas ao meu lado e olhas as estrelas comigo. Eu vou murmurando algo sobre a vastidão e imensidão que acabo por esquecer, mas tu não. 

Tu sempre me recordas.

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"Todos vamos morrer, e é isso que nos torna pessoas de sorte. Existe uma imensa maioria que nunca vai morrer, pois nunca vai nascer. As pessoas que em potencial poderiam estar no meu lugar, mas que nunca verão a luz do dia, superam em número os grãos de areia do Saara. Entre estes fantasmas com certeza há poetas superiores a Keats. E cientistas superiores a Newton. Disso sabemos porque o conjunto de pessoas possíveis que o nosso DNA permite supera maciçamente o número de pessoas que existem. A despeito dessa probabilidade chocante, somos você e eu, em toda a nossa banalidade... que aqui estamos ..." 

 Richard Dawkins

 

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As pessoas acreditam. É o que fazem. Acreditam e parecem não sentir o peso da responsabilidade pelas suas crenças. Aceitam conjurar coisas, mas desconfiam sempre disso. Fascina-me a capacidade de povoar a escuridão com fantasmas, deuses e contos; as pessoas imaginam e acreditam: erram! Maravilhoso errar! Essa capacidade de cometer erros na escuridão e conseguir recomeçar, nesse mesmo pez negro. Fascina-me perdidamente.

Cedo, muitas vezes, à tentação de encher um catecismo, de coisas que nunca me foram ensinadas. Nunca aprendi a dominar essa emoção onde supostamente rasgamos o que é nosso, e deixamos um lugar vago para outra criatura; não me foi ensinado nada sobre a riqueza ou a pobreza de espírito, e muito menos qual a chave secreta desse labirinto. Nunca aprendi a arte de me afastar de quem preenchia a minha vida de algo inexplicável, com a graciosidade de uma nota infalível - apenas com a fragosidade dos incultos imperfeitos. Não me foi ensinada a alquimia do pensamento, vou abusando dos meus sentidos para ouvir outros pensamentos, e o que pensam sobre mim.

Acreditar é o processo mais fácil - o caminho de luzes antes do escuro -, mas não é o suficiente para mim. É dolorosa a minha ignorância porque nunca aprendi as palavras certas daquele encantamento sublime, que parece pacificar a alma de quem se encontra a morrer. A minha garganta aperta-se como um cadeado, as palavras retornam sem que tenham sido atiradas, com todo o caos de uma torrente que não se liberta.

O mundo seria perfeito se fosse possível aceitar que outra criatura fosse importante para nós, sem que para isso, um pedaço nosso fosse arrancado. E que cada beijo cintilante de desejos ou que cada deslumbre causado por uma pele incandescente, não fossem a confirmação de mais um remendo em nós, por mais um fragmento nosso retirado da nossa vontade.

 

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Tenho tanto para te contar!

E tão pouco tempo ...

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Portão de Valhalla 

(999)

Aprender os portentos onde não mora o sorriso ingénuo e fácil no seu brilho. Sem o respirar do som que enche os espaços em gargalhadas. Esta é uma arte sublime. Este pressentir quando os olhos penetram no rosto que nem sempre se acende, é uma ciência nascida nos poucos que quase não sorriem, talvez esculpida e criada por demónios onde o sorrir imenso não consegue descansar. É uma arte singular, esta. No rosto de sorriso raro é intenso o sabor da cumplicidade. Um  brilho nos olhos que depressa consegue destrancar os portões da alma,  e quando cruzamos esses velhos senhores é num fogo raro que encontramos abrigo.

Sei disso. Desses estranhos fogos de Marte que não existem em quem se perde naquele rir  que parece iluminar as órbitas. Sei... porque é minha a paixão pelos rostos feitos de luz e sombras - onde nem sempre cintila o sorriso mais rasgado.  E nem sempre são as sombras que comandam. Convidam a parar. A pensar. A planear. Cobertos por uma muralha desconhecida que parece inexpugnável, o caminho é feito tacteando, cheirando, ouvindo e saboreando.

E quando este rosto se abre, finalmente,  num sorriso que rasga a muralha de silêncio contido, é próximo de um esplendor divino! Um fogo que cresce alimentando preciosidades que conheço e protejo - por vezes durante semanas. Uma luz que cega  o incauto desprevenido e imprudente nesses momentos.

Quando a este gesto de expressão se une o som, todas as estrelas se alinham na perfeição. Não o som estridente e melodioso da gargalhada sonora dos dias de Verão. Não o ruído da risada infantil. É antes um som suave e manso como os passos de um gato. Mas vibra incandescente! De uma  felicidade etérea. Sem rasgar harmonias. Ainda assim assombroso: de uma beleza ora transparente como as manhãs do Norte, ora sombria nas suas promessas apenas conhecidas por poucos,  estranhos animais, de sentidos apurados e próximos da loucura por esta raridade. 

Misterioso - como o poeta que encontra a chave para a rima perfeita. Uma arte revelada apenas a quem adormece na sua mistificação. Apaixonado.

 

 

 

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Existe uma percepção da paixão que sempre me perturbou intensamente, pela forma como sempre conseguiu deixar-me indeciso e em terreno escorregadio. Na existência de uma química deslumbrante em quem consegue, sem remorsos de culpa secreta, uma entrega em abandono total, quase violento. Que rasga as emoções em farrapos. 

Por vezes, naquele principio quase solene em que o pensamento se retrai mudo entre o turbilhão da lógica fria e o mais intenso instinto animal, livre das correntes, inconsciente de si próprio, incapaz de se domesticar, é nessa capacidade de abandono que segredos são elevados, insónias glorificadas.

A arte de quem se abandona perante instintos primários é ainda de caminhos que não são os meus. É ainda alquimia de outra criatura, pacientemente terna, zelando para que a minha capitulação não seja a humilhação da derrota. Subtilmente sábia perante  mãos trémulas, por instantes impotentes.

Quem se entrega em abandono escreve pelo seu próprio tracejar um domínio que muito  raramente consigo quebrar. Reconheço-lhe as virtudes do mito porque é exactamente disso que se trata: sintoma de lenda encantada cantada por bardos poetas, dançada nas noites mais longas da memória.

Que alguém respire junto a mim sem temor, de olhos cerrados e em quase perfeita sintonia, nunca deixará de me espantar. Decidir isto, pelo seu próprio abandonar de defesas,  diluindo-se comigo, será sempre uma das mais perfeitas e verdadeiras provas de fogo. E amor. Todas as minhas defesas em fragmentos. Toda a minha capacidade de lutar em cinzas.

Este abandono. Falso abandono que tantas vezes veste o traje da submissão. Um engano que se torna caro para o incauto que se embala na sua canção.

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"Oração das cinzas ..."

Memórias que alimento ...

(999)

"Caminhos: são os meus caminhos, escolhidos por mim."

 

Escolhidos por mim. Que estranhas parecem estas palavras. Como se nesta possibilidade algo de maligno existisse; e escolher não fosse próprio da liberdade pessoal. Algo meu. Muito meu. E escolho diferente, sempre escolhi como quis e quero, apropriando-me das minhas decisões e capacidade de me arrepender delas, negando-as mesmo,  regressando a pontos de entrada para refazer tudo. Muitas vezes, metodicamente lambendo feridas.

Gosto de beber nas escolhas os meus caminhos. Fascinam-me os passos e as sombras deles porque são vastas em nós. Adoro-as! Diferentes da consciência diária, essa ponta de gelo que flutua ao alcance dos olhos. Não. Vivo para essa imensa escuridão de emoções, paixões, instintos cegos que habitam o universo abaixo da superfície como se estivesse  de mãos esticadas e  tocando. Sentindo. Ouvindo em silêncio as suas notas.

São caminhos que tantas vezes me levam a regressar ao refúgio de outros cúmplices de braços abertos, porque sim,  são companheiros de outras atmosferas e mundos. Meus e eu deles. Assim. Mesmo em saudades amargas ensinaram-me a perseguir escarpas e labirintos. A voltar sempre. A cantar algo maldito que alimenta. A verter as notas nas noites em que muitos dormem num sono solto mas sem sonhos.  A deixar (ansiar!) que tudo se apague para que apenas permaneçam sombras amadas.

Apaixonadas.

Não são os caminhos de outros. Eu sei. É onde está o vento e bate forte o coração porque as noites são longas, quase eternamente voluptuosas, e nem sempre silenciosas como gosto. Mas acredito nos que fecham os olhos, e no escuro, se entregam a uma liberdade sem preço.

Mesmo que aterrorizados com o seu sabor.

 

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As palavras escritas na pele são a recordação permanente de algo. Quando pensadas nos momentos mais obscuros gravitam como sombras nossas. Dançam no nosso corpo como menções, como epitáfios em batalhas vencidas. Os pensamentos têm uma cadência nos traços desenhados apenas possível a quem se submete a esse estranho profanar pessoal, a essa transmutação que transforma o corpo num diário de memórias.

Mas quando vi a palavra escrita naquela pele não consegui reter a torrente de sensações numa intermitência de raiva, frustração, desassossego e recordações malignas. Apenas porque sou estupidamente orgulhoso é que não coloquei um joelho no chão e inclinei a cabeça, no mais sincero gesto de cedência perante aquela palavra. Talvez porque já há muito lhe reconheci o panteão máximo me recusei a qualquer lágrima. Ou talvez tudo já tenha secado durante as suas batalhas. Sei que ambos ficámos destroçados. Sei que ainda estamos feridos.

E não será o tempo que remediar isso.

Mas a palavra escrita numa pele tão clara e jovem transforma-se pela intensidade e significado. Absorve o mundo e martela a mente como algo mais do que uma mera decoração. Voltou a agarrar-me pela face e a mergulhar  os meus pensamentos nas noites de vigília contadas pelos minutos de um pesadelo. Nas palavras segredadas ao seu ouvido afastando o monstro da sua face. Nas promessas feitas. Na minha ignorante incapacidade de lhe reconhecer tanta força! Uma palavra que me  relembra um ódio a mim próprio por não ter reconhecido isso. Ódio por ter deixado que a descrença por vezes me consumisse.

E também será uma salvação para mim. Dizem que segue os meus instintos e caminhos agora. Que traçamos os mesmos orgulhos, os mesmos sintomas de superação  e a mesma vontade de partida.

Uma senhora velha, muito velha, que diz nunca ter mentido na sua vida, afirma desdentada, que somos a sombra um do outro, que a nossa beleza é estranha e que eu nunca consigo deixar de rir ao seu lado.

Talvez a velhota não esteja enganada. Talvez pressinta a minha capacidade de morrer por esta criatura. Talvez encontre a beleza nisso.

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