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Vou falar-te de labirintos estreitos onde se rasgam os ombros nas farpas dos pensamentos. Creio que lhe chamam demónios. Também, algures, outros lhe chamaram Legião. Gosto dessa palavra: Legião.

Porque somos exactamente isso dentro de nós.

Legiões. 

Mas nada temas quando escrevo assim. Não sou realmente eu mas antes o cansaço, esse demónio. Creio que são estes os momentos em que é necessário deixar reclinar o espírito, enquanto espero que se apaguem as últimas luzes da insónia. O cansaço tem destes mistérios, sabes? É enquanto vou deslizando indolentemente para um sono de esquecimento absoluto, na mais cerrada escuridão, que insisto em deixar as portas abertas para outros demónios entrarem. Talvez seja uma semente de esperança, um último desejo, mas resisto a fechar os olhos, a  deixar o desconhecimento de Mim extravasar e percorrer cego os labirintos do meu sono. São estes instantes, que podem ser finais, que mais viajam em mim as saudades e a nostalgia da ausência, como se fossem carrascos de um sonho tranquilo, cósmico, desconhecido. Um delírio de vigília da insónia, antes de entrar na Grande Noite, dirás. Ou então, perdoarás estes ecos e sombras, as Legiões que assolam os locais estreitos do meu adormecer, e sentada na cabeceira, velarás pelo meu descanso.

Fleuma,

 

 

Tool,

Alfa e o Omega

Nada está acima, nem o próprio céu!

Tudo está abaixo.

(999)

 

Lamento estes silêncios absurdos, quando o que deveria suceder eram palavras, sons, descansos no pensamento. Lamento. Lamento a minha aspereza, a minha incapacidade  de verter uma lágrima.

Lamento que tudo se tenha transformado neste silêncio.  Mas a tristeza é estranhamente sóbria em mim, nestes dias; não a tristeza poética, vestida de agitações ternas e ainda assim, esperando um regresso ao passado recente. Esta é uma tristeza diferente, mesmo para mim. É uma procura de segurança. É como se esta tristeza tivesse um corpo sólido para me  reconfortar, mesmo que tudo seja angústia e desespero. 

Não existem lágrimas que exprimam certas ausências, apenas uma agonia que não tem punhos para magoar, mas morde raivosa, é rica em lamentos e desejos de regresso ao passado. Rasga os sonhos e deixa apenas o sabor do fracasso.

Eu consigo seguir os seus traços fielmente, descrever todas as suas horas de insónia, como a chuva que cai lentamente nestes dias. E afinal, não fui apenas eu que fiquei silencioso: algo se foi e deixou aqui uma monstruosa onda de raiva impotente, sem subtilezas, mas afogada numa estranha dor crua e de coração partido.

Não se pode escapar ao que não se consegue controlar. Lamentar é apenas uma ínfima parcela desta tristeza silenciosa que parece devorar os nossos dias. Consigo, estranhamente, sentir o sabor amargo e doce de uma melancolia que há muito  tempo me foi descrita, um reflexo do que perdi e do que quero, desesperadamente, recuperar.

Agarro estes pensamentos na minha incapacidade de escrever com a grandeza certa para despedaçar os silêncios. Traçar com a elegância do punho solene, esta criatura dentro de mim que me consome e mesmo assim me reconforta. Romper as correntes e deixar sair esta torrente de ódio, frustração e mágoa. Esta fragilidade inexplicável.

Se calhar era verdade o que me dizia:

" ... só quando sentirmos, realmente conseguirmos provar o sabor da verdadeira tristeza, poderemos aceitar a Morte como ela realmente é, a luz da salvação."

 

Fleuma,

 

 

 

Hoje choveu. Primeiro em gotas frias e grossas, vindas de um céu cinzento escuro como chumbo, apenas traçado por instantes prateados como pensamentos distantes. Depois, a chuva tornou-se neve, atormentada pelo cantar pesaroso dos ventos do Norte. Recordei os nossos passos na neve, o bater do frio, as canções da floresta, o calor da voz do Corvo vermelho que aquece como um toque de amor, mas mais profundo.

Recordei-me.

O sangue a viajar em mim, alegre, insolente, em bruto. Sem medos e sem cicatrizes. Uma essência fractal, como os raros raios de luz que atravessam os ramos secos e mergulham nos mantos de neve. Ainda assim, um sangue a fervilhar por promessas de redenção e salvação, enquanto me deixava embriagar pelos Céus lá em cima, muito acima dos braços dos pinheiros gelados.

Juro que me senti vivo! A estalar em faíscas, como um fogo primário adormecido em mim. A Sombra de uma outra Sombra, capaz de cantar e dançar entre as chispas do Fogo Maldito.

Esta noite choveu. Choveu muito. E sou capaz de jurar que consegui ouvir,  nas bátegas surdas, a tua voz a cantar e o teu riso a erguer-me  das sombras.

 

Fleuma,

"As últimas folhas caem dançando. É necessária  uma grande dose de insensibilidade para fazer frente ao outono."

Emil Cioran

(999)

 

A consciência é uma reles parasita do descanso. Uma imunda imagem dos pensamentos que não cedem perante nada. Cega! Incansável! Uma piada sem humor que insiste,  teima, em não deixar que certas lembranças morram! Uma metáfora cruel do desperdício da nossa capacidade que aceita o sofrimento dos outros como algo distante. E o silêncio pessoal, nosso, apenas nosso, que em todos os santos dias desta existência miserável,  relembra os erros - principalmente os erros da escarpa. E as quedas. E a inutilidade das despedidas. Ainda que se queimem os dias no remorso de  não dizer adeus.

Não há nada realmente a lamentar. Nem sequer a odiar. Aceitar sem conseguir explicar porque razão persistem memórias antigas de felicidade, tintas entre sinais de aviso, é um inferno nutrido pela nossa própria consciência e cegueira. Não interessam as cicatrizes ou retalhos. Pouco importam os discursos e o perdão, esse maldito veneno coberto com o lençol  de uma iluminação feita de migalhas. Apenas isso.

Pouco importam.

Porque não é necessário perdoar rigorosamente nada. Nada! Não existem revelações messiânicas onde se consigam guardar defesas contra o arrependimento de quem esteve cego e surdo. Tudo o que resta a quem fica é uma consciência envelhecida e amargurada no berço da resignação: aceitar e nada mais conseguir fazer.

A morte lenta escolhe os seus passos sabiamente enquanto abre a porta ao desespero.

Aprendi que, afinal, o desespero não é negro. Não é sombrio. É vermelho escuro. Gosta de se esconder nos dias. Pacientemente. Sem dormir. 

 

 

Hoje...

... é necessária a reverência para quem não está sentado ao meu lado. Deixar que a memória se apague - enquanto sossego nas palavras. Enquanto volto a colocar os pensamentos nas gavetas mais distantes.

Hoje, escuto as palavras entre os lábios prometidos. 

Enquanto espero.  Enquanto deixo que as saudades fiquem. Sentadas aos meu lado.

 

 

"Se houvesse um deus da tristeza, ele não poderia deixar de ter asas negras e pesadas para voar não na direção dos céus, mas na do inferno." -  CIORAN, Emil, Nos cumes do desespero

 

Doce é o seu suspiro ...

 

Já alguma vez sentiste o sabor da submissão? No pescoço oferecido em subjugação ao toque do beijo. À carícia da língua. Ao  extâse da primeira dentada suave como a mais deslumbrante ousadia. Um sacrificar consentido, exposto e entregue, numa sinuosa manobra felina abraçando músculos tensos e dolorosos.

Como numa peça de paixão, pescoço entregue a mãos trémulas, incapazes nesse instante de magoar, numa submissão de respiração saboreada pelos meus suspiros. 

Olhos cerrados numa beleza frágil, protegida contra um corpo denso, de pele reluzente mesmo na meia-luz, enquanto o vento ciumento, descendo pela montanha branca, uiva contra as janelas - uma morte nesta entrega sem temores seria o fim sem mágoas: a minha morte por outras mãos.

Esmagado pelo esforço de uma rendição, retendo a respiração para aprisionar um silêncio cúmplice da minha paixão, em gestos lentos e temerosos para não rasgar uma obra de arte, fecho todas as portas para fora com cadeados forjados por fogos desconhecidos e aguardo a minha morte feliz ...

... No verdadeiro sabor da submissão, apenas entregue por uma criatura demasiado impossível para a minha luxúria primária, partilha, entre suspiros arquejantes, um suave mas firme abraço, e um sussurrado "amo-te" no ouvido, cravado depois por uma dentada capaz, por vontade própria, de criar uma nova Estrela.

E sei que a morte seria tão bela nesse momento, na suavidade do seu choro tranquilo - sei que morreria feliz.

Silencioso. Porque as palavras devem ser ocultadas de uma voz incapaz.

Os Deuses seriam então generosos comigo.






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