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"As últimas folhas caem dançando. É necessária  uma grande dose de insensibilidade para fazer frente ao outono."

Emil Cioran

(999)

 

A consciência é uma reles parasita do descanso. Uma imunda imagem dos pensamentos que não cedem perante nada. Cega! Incansável! Uma piada sem humor que insiste,  teima, em não deixar que certas lembranças morram! Uma metáfora cruel do desperdício da nossa capacidade que aceita o sofrimento dos outros como algo distante. E o silêncio pessoal, nosso, apenas nosso, que em todos os santos dias desta existência miserável,  relembra os erros - principalmente os erros da escarpa. E as quedas. E a inutilidade das despedidas. Ainda que se queimem os dias no remorso de  não dizer adeus.

Não há nada realmente a lamentar. Nem sequer a odiar. Aceitar sem conseguir explicar porque razão persistem memórias antigas de felicidade, tintas entre sinais de aviso, é um inferno nutrido pela nossa própria consciência e cegueira. Não interessam as cicatrizes ou retalhos. Pouco importam os discursos e o perdão, esse maldito veneno coberto com o lençol  de uma iluminação feita de migalhas. Apenas isso.

Pouco importam.

Porque não é necessário perdoar rigorosamente nada. Nada! Não existem revelações messiânicas onde se consigam guardar defesas contra o arrependimento de quem esteve cego e surdo. Tudo o que resta a quem fica é uma consciência envelhecida e amargurada no berço da resignação: aceitar e nada mais conseguir fazer.

A morte lenta escolhe os seus passos sabiamente enquanto abre a porta ao desespero.

Aprendi que, afinal, o desespero não é negro. Não é sombrio. É vermelho escuro. Gosta de se esconder nos dias. Pacientemente. Sem dormir. 

 

 

Hoje...

... é necessária a reverência para quem não está sentado ao meu lado. Deixar que a memória se apague - enquanto sossego nas palavras. Enquanto volto a colocar os pensamentos nas gavetas mais distantes.

Hoje, escuto as palavras entre os lábios prometidos. 

Enquanto espero.  Enquanto deixo que as saudades fiquem. Sentadas aos meu lado.

 

 

"Se houvesse um deus da tristeza, ele não poderia deixar de ter asas negras e pesadas para voar não na direção dos céus, mas na do inferno." -  CIORAN, Emil, Nos cumes do desespero

 

Doce é o seu suspiro ...

 

Já alguma vez sentiste o sabor da submissão? No pescoço oferecido em subjugação ao toque do beijo. À carícia da língua. Ao  extâse da primeira dentada suave como a mais deslumbrante ousadia. Um sacrificar consentido, exposto e entregue, numa sinuosa manobra felina abraçando músculos tensos e dolorosos.

Como numa peça de paixão, pescoço entregue a mãos trémulas, incapazes nesse instante de magoar, numa submissão de respiração saboreada pelos meus suspiros. 

Olhos cerrados numa beleza frágil, protegida contra um corpo denso, de pele reluzente mesmo na meia-luz, enquanto o vento ciumento, descendo pela montanha branca, uiva contra as janelas - uma morte nesta entrega sem temores seria o fim sem mágoas: a minha morte por outras mãos.

Esmagado pelo esforço de uma rendição, retendo a respiração para aprisionar um silêncio cúmplice da minha paixão, em gestos lentos e temerosos para não rasgar uma obra de arte, fecho todas as portas para fora com cadeados forjados por fogos desconhecidos e aguardo a minha morte feliz ...

... No verdadeiro sabor da submissão, apenas entregue por uma criatura demasiado impossível para a minha luxúria primária, partilha, entre suspiros arquejantes, um suave mas firme abraço, e um sussurrado "amo-te" no ouvido, cravado depois por uma dentada capaz, por vontade própria, de criar uma nova Estrela.

E sei que a morte seria tão bela nesse momento, na suavidade do seu choro tranquilo - sei que morreria feliz.

Silencioso. Porque as palavras devem ser ocultadas de uma voz incapaz.

Os Deuses seriam então generosos comigo.

 

Acredito com toda a veemência que a saudade não me vencerá.

É preciso que assim seja. Necessito, sinceramente, que assim seja.

Não existe outro método de travar uma forma tão lenta de morte como esta força que vai ocupando o espaço do pensamento que vai embalando a vontade de romper com tudo. Incendiar esta loucura e voltar as costas a onde não pertenço.

 

Não sou capaz de escrever poemas. Não sei nada da exímia arte das palavras que tão próximas ficam de solicitar o suspiro  das paixões. Enquanto vão banhando as certezas e assegurando as virtudes do verbo cúmplice e amante.

Mas sou capaz do silêncio que enche os pensamentos. De silenciar-me durante horas a fio nas noites de insónia - enquanto observo a respiração e vou contando os primeiros traços que me contam sonhos. 

Enquanto dorme.

Não gosto de luzes. Não são boas companheiras dos meus silêncios e vigílias. Rasgam os meus sentidos e o suave remexer dos lençóis finos e frescos.

O que devo fazer?

Abraçar com força? Já o fiz antes.

Beijar tão suavemente que não desperte, mas aceite o meu silêncio sem poemas como o catecismo de tudo o que quero dizer e não consigo? É sabido que sim. Sabe que sim.

Ou então ...

... Ficar imóvel na escuridão, em observação. Como se fosse uma estranha criatura diante de algo demasiado precioso e cujo toque poderia quebrar. Como se depois fosse impossível resgatar a realidade.

Não tenho nomes para dentro de mim. Não consigo derramar a razão neste mar. Consigo apenas segredar um pouco desta tormenta que me consome incansável.

Por isso, o silêncio é a salvação. Os sentidos. E o rasgar doloroso das minhas paredes.

 

.

 

"Tom Waits"

 

Mistificação. Creio ser esse o nome deste labirinto: mistificação.

E é estranho pensar nessa palavra que me recuso a verbalizar,  sempre e teimosamente. Como se proibida em mim. Ainda inclinada para o lado mais escuro da submissão. Talvez porque a vejo mergulhada em véus ou noites de nevoeiro. Talvez porque em cada traço e gesto lhe sinto o gosto intenso do amargo e do doce.

Se calhar porque esse é o labirinto da minha luxuria - imensa e raivosa - que desejo ser eterna. 

Temo essa mistificação e o prazer que me afoga. Entrego-me a esse divino e estranho arrepio que me contorce as palavras e os movimentos - mesmo quando o cansaço me estende a mão para que me entregue em salvação.

E o seu feitiço soa a notas que apenas eu conheço. Os seus sonhos obrigam ao cerrar dos olhos. 

Primário. Animal. Monstro sem trela. Sem açaime. Raivoso e incansável.

 

 

 

A distância tem o carisma das mais intensas paixões. Possuí a alquimia da saudade. Entrega aos reencontros os sintomas de uma estranha panaceia que tudo parece cicatrizar - nem que seja por breves momentos. É no confronto com as distâncias que tenho visto muitos a vergar debaixo do peso das lágrimas. Como uma inevitável consequência da imensidão de espaço repleta de ausência. Pela conclusão fria, lógica, de que mesmo em companhia, existem universos distantes - finalmente concluir esse facto.

E os dias são preguiçosos. Naquele estranho ladainhar que conta os minutos mergulhado nos dias e nas noites sem fim.  Sempre recitando a prece que consola os sentidos - porque já se foi outro dia. Porque já restam menos dias.

Mas eu gosto de me sentar com a distância num lânguido e silencioso pacto entre dois demónios que se conhecem de outras Eras. 

Sei que a minha distância anseia por este café negro e espesso. Amargo como as saudades que alimenta. Sei como gosta de ser acarinhada e possuída com violência despojada. Encanta-se com a ilusão de que chega para me salvar. Nunca revelando os seus portentos.  Insinuando-se nua e perversamente bela.

E eu? 

Escondo sempre algumas migalhas de esperança em mais um dia que finalmente se esbate em traços de carvão.

 

 




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