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"Se houvesse um deus da tristeza, ele não poderia deixar de ter asas negras e pesadas para voar não na direção dos céus, mas na do inferno." -  CIORAN, Emil, Nos cumes do desespero

 

Doce é o seu suspiro ...

 

Já alguma vez sentiste o sabor da submissão? No pescoço oferecido em subjugação ao toque do beijo. À carícia da língua. Ao  extâse da primeira dentada suave como a mais deslumbrante ousadia. Um sacrificar consentido, exposto e entregue, numa sinuosa manobra felina abraçando músculos tensos e dolorosos.

Como numa peça de paixão, pescoço entregue a mãos trémulas, incapazes nesse instante de magoar, numa submissão de respiração saboreada pelos meus suspiros. 

Olhos cerrados numa beleza frágil, protegida contra um corpo denso, de pele reluzente mesmo na meia-luz, enquanto o vento ciumento, descendo pela montanha branca, uiva contra as janelas - uma morte nesta entrega sem temores seria o fim sem mágoas: a minha morte por outras mãos.

Esmagado pelo esforço de uma rendição, retendo a respiração para aprisionar um silêncio cúmplice da minha paixão, em gestos lentos e temerosos para não rasgar uma obra de arte, fecho todas as portas para fora com cadeados forjados por fogos desconhecidos e aguardo a minha morte feliz ...

... No verdadeiro sabor da submissão, apenas entregue por uma criatura demasiado impossível para a minha luxúria primária, partilha, entre suspiros arquejantes, um suave mas firme abraço, e um sussurrado "amo-te" no ouvido, cravado depois por uma dentada capaz, por vontade própria, de criar uma nova Estrela.

E sei que a morte seria tão bela nesse momento, na suavidade do seu choro tranquilo - sei que morreria feliz.

Silencioso. Porque as palavras devem ser ocultadas de uma voz incapaz.

Os Deuses seriam então generosos comigo.

 

Acredito com toda a veemência que a saudade não me vencerá.

É preciso que assim seja. Necessito, sinceramente, que assim seja.

Não existe outro método de travar uma forma tão lenta de morte como esta força que vai ocupando o espaço do pensamento que vai embalando a vontade de romper com tudo. Incendiar esta loucura e voltar as costas a onde não pertenço.

 

Não sou capaz de escrever poemas. Não sei nada da exímia arte das palavras que tão próximas ficam de solicitar o suspiro  das paixões. Enquanto vão banhando as certezas e assegurando as virtudes do verbo cúmplice e amante.

Mas sou capaz do silêncio que enche os pensamentos. De silenciar-me durante horas a fio nas noites de insónia - enquanto observo a respiração e vou contando os primeiros traços que me contam sonhos. 

Enquanto dorme.

Não gosto de luzes. Não são boas companheiras dos meus silêncios e vigílias. Rasgam os meus sentidos e o suave remexer dos lençóis finos e frescos.

O que devo fazer?

Abraçar com força? Já o fiz antes.

Beijar tão suavemente que não desperte, mas aceite o meu silêncio sem poemas como o catecismo de tudo o que quero dizer e não consigo? É sabido que sim. Sabe que sim.

Ou então ...

... Ficar imóvel na escuridão, em observação. Como se fosse uma estranha criatura diante de algo demasiado precioso e cujo toque poderia quebrar. Como se depois fosse impossível resgatar a realidade.

Não tenho nomes para dentro de mim. Não consigo derramar a razão neste mar. Consigo apenas segredar um pouco desta tormenta que me consome incansável.

Por isso, o silêncio é a salvação. Os sentidos. E o rasgar doloroso das minhas paredes.

 

.

 

"Tom Waits"

 

Mistificação. Creio ser esse o nome deste labirinto: mistificação.

E é estranho pensar nessa palavra que me recuso a verbalizar,  sempre e teimosamente. Como se proibida em mim. Ainda inclinada para o lado mais escuro da submissão. Talvez porque a vejo mergulhada em véus ou noites de nevoeiro. Talvez porque em cada traço e gesto lhe sinto o gosto intenso do amargo e do doce.

Se calhar porque esse é o labirinto da minha luxuria - imensa e raivosa - que desejo ser eterna. 

Temo essa mistificação e o prazer que me afoga. Entrego-me a esse divino e estranho arrepio que me contorce as palavras e os movimentos - mesmo quando o cansaço me estende a mão para que me entregue em salvação.

E o seu feitiço soa a notas que apenas eu conheço. Os seus sonhos obrigam ao cerrar dos olhos. 

Primário. Animal. Monstro sem trela. Sem açaime. Raivoso e incansável.

 

 

 

A distância tem o carisma das mais intensas paixões. Possuí a alquimia da saudade. Entrega aos reencontros os sintomas de uma estranha panaceia que tudo parece cicatrizar - nem que seja por breves momentos. É no confronto com as distâncias que tenho visto muitos a vergar debaixo do peso das lágrimas. Como uma inevitável consequência da imensidão de espaço repleta de ausência. Pela conclusão fria, lógica, de que mesmo em companhia, existem universos distantes - finalmente concluir esse facto.

E os dias são preguiçosos. Naquele estranho ladainhar que conta os minutos mergulhado nos dias e nas noites sem fim.  Sempre recitando a prece que consola os sentidos - porque já se foi outro dia. Porque já restam menos dias.

Mas eu gosto de me sentar com a distância num lânguido e silencioso pacto entre dois demónios que se conhecem de outras Eras. 

Sei que a minha distância anseia por este café negro e espesso. Amargo como as saudades que alimenta. Sei como gosta de ser acarinhada e possuída com violência despojada. Encanta-se com a ilusão de que chega para me salvar. Nunca revelando os seus portentos.  Insinuando-se nua e perversamente bela.

E eu? 

Escondo sempre algumas migalhas de esperança em mais um dia que finalmente se esbate em traços de carvão.

 

 

 

 (999)

 

 

As noites são muitas vezes encharcadas nas pequenas maravilhas, atiradas como alimento aos seus devotos servos. As minhas noites são de pouco sono. Gosto de deixar entrar aquela estranha fragrância que fascina apenas os mais experimentados na arte do seu silêncio. Onde poisam os sentidos e o mais leve dos suspiros. E onde as luzes se apagam arrastadas pelas sombras em observação atenta.

 

O mais experimentado nos fascínios geniais nocturnos prefere olhar em vez de dormir. O corpo nu, exposto e indefeso, não deve ser perturbado enquanto suspira suavemente no seu sono compassado. O turbilhão mental nunca parece apaziguar-se e no entanto? Funciona como uma alquimia de ritmos, onde um corpo de massa rochosa se perde entre as curvas de um rio solene. É embaraçosa a potência arcaica que parece subjugar certas noites de fascínio e onde certos olhos nunca parecem cansar-se de transparências e fragmentos.

 

Talvez seja esta uma condição atribuída aos demónios. Tranquilizar-se em sombras pela gentileza do subir e descer de um peito descoberto. Deixar que se vacilem os sentidos nos lábios semicerrados e de onde esvoaçam suaves sopros de vida. Talvez.

 

Certas noites existem sem as mentiras dos dias de luz solar. São as noites de revelação absoluta. Tudo seria negado e atirado para um canto se assim fosse necessário.

 

 

 

 

 Imagine-se o insuportável de saber tudo. Do conhecimento total e absoluto. Sem que restasse uma pinga de ignorância sadia e por descobrir. Absorver a certeza de nada mais existir para alimentar a gula de conhecer. Imagine-se a certeza absoluta como um fardo e castigo porque os olhos foram abertos e se acabou o espanto das ilusões por descobrir.

 

E a consciência absoluta, fria e resoluta, de que todos são sábios; a certeza sem erros ou hesitações de que quando a outra face se voltou enfadada e já sem paixão, traçou o caminho sem regresso. Pensar por antecipação perfeitamente confirmada nas palavras de amor que serão articuladas em sussurro, adivinhando porque são ditas sabendo que amanhã não farão sentido.

 

Quando a imaginação deixa de florescer entre as águas do descobrimento, imagine-se no leito de morte, o fardo insustentável de conceber tudo como aprendido e provado. Que Deus foi uma mentira nas mãos de todos e nunca um farol de luz entre as estrelas; mitigar a fome da desilusão no consolo de tantas viagens e encontros na mais absoluta escuridão.

 

Antes de fechar os olhos cansados, sabendo que será mais uma noite de sono, conhecer sem nenhum dos rigores que fustigam a dúvida, o dia de amanhã: igual ao de hoje e de ontem; com as mesmas vozes e batidas, entre as acções semelhantes e sempre, inevitavelmente, com a mesma neura mestra em pragmatismo depressivo. Porque seriam os dias sem necessidade de cálculos, já que ninguém cometeria o erro de errar. Não se levantaria uma mão; não se entregariam as palavras ao praguejar e deixariam de ter importância as mãos de conforto com um sorriso na face.

 

E o pensamento já não seria feito de sonhos. Porque já tudo tinha sido sonhado.

 

E mesmo a morte já era enfadonha e prevista no seu mais intimo detalhe.






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