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Reconheço a minha incapacidade de surpresa com os livros que se publicam nestes dias. Não me lembro das últimas páginas capazes de me espantar muito além daquele mero acenar da cabeça ou de uma satisfação arrefecida pelas repetições. Durante anos entre tantos livros, sempre a seguir um purgatório deslocado no tempo, apenas encontrando revelação numa espécie de "velha guarda" muitas vezes demasiado radical para estes tempos modernos, época que deveria ser a minha mas onde me sinto velho e deslocado, nunca deixei de procurar sem encontrar aquela ignição da alma que apenas certas palavras conseguem produzir em mim.

Até há poucas semanas. 

Até "What the Silence Tried to Say " de Alira Sennel ter caído nas minhas mãos. Alguém que me conhece demasiado bem, deixou o livro em cima da mesa junto à cadeira onde gosto de me sentar antes de amanhecer, quando ainda faz muito frio e está escuro e onde gosto de beber o meu café silencioso. Bem no centro da mesa e meticulosamente alinhado com os meus pensamentos. O meu cinismo falou alto - mais um! Mas por ser quem é peguei nele e fiz o que sempre faço, cheirei o papel novo e a estrear nos meus dedos e pura e simplesmente comecei a ler. Não tinha sequer a intenção de escrever sobre isto. Raramente escrevo sobre um livro aqui ou noutros lugares, mas algo nestas páginas rasgou o cinismo e a dúvida em mim. Absorvi esta leitura numa manhã sem parar e ainda não consegui deixar de ruminar sobre isso. Porque sempre abominei os livros escritos com a intenção de motivar. Odeio-os! São inúteis e perversamente imbecis no que pretendem. "What the Silence Tried to Say " é um paradoxo em tudo o que tenho lido. Desconheço quem o escreveu e isso não importa porque é como se a conhecesse desde sempre, e nada absolutamente nada no que escreve visa motivar-me. 

Não.

É algo mais visceral e violento.

Não acho sequer que o tenha lido realmente porque acordou memórias em mim, como se estivesse a ler a minha própria consciência sem se preocupar com factos ou razões, reflectindo uma imagem minha que insisto em esconder muito abaixo da superfície. 

Não consigo olhar para estas páginas como um livro. Antes como um reflexo intimo que se recusa a provocar boas emoções em mim. Recusa e não me sinto confortável com isso porque consegue expor-me ao que tento evitar, esventra as minhas defesas e principalmente evoca instintos que ainda cintilam dentro da minha consciência. É estranhamente poético na forma como dispõe as minhas sombras mais adormecidas. Magoa como um golpe que rasga. E vai no entanto sarando ao mesmo tempo. Estranho e assustador. Não pretende sequer mostrar um caminho ou a  solucionar com princípios imbecis de auto motivação e auto estima. Nada disso.

Obriga ao confronto pessoal. Ao reflexo olhos nos olhos. Eu e Eu. A procurar inflexões nos silêncios forçados que mantenho.

Não existem conselhos nem garantias de que tudo acabará bem. 

É absurdamente realista porque reflecte a imagem do sufoco de tudo o que escondemos com as nossas máscaras. 

"What the Silence Tried to Say " pontifica o silêncio com as minhas questões, as minhas hesitações e é neste pausar que algo se alterou em mim. Fui repetindo uma e outra vez a leitura das frases não por me sentir perdido mas porque poderiam ter sido escritas pelo meu punho - como se retalhadas da minha alma. É dolorosamente real para mim. Não me atira conselhos nem pontos de apoio mas algo muito maior. É um entoar intimo e muito escondido lido no silêncio mais absoluto que não responde, antes questiona e relembra o que sou e nunca deveria deixar de ser. E no entanto é neste silêncio que encontro o que este livro pretende, um espelhar de trauma enterrado que não insinua qualquer cura ou caminho a seguir. É tão aterrador o que um silêncio me pode oferecer! Acabamos por descobrir como se torna dolorosa a façanha de retirar a máscara e a decisão de permanecer em escuta o que diz a nossa própria consciência, sem conselhos ou luzes no fim do túnel. 

Para mim não revela soluções. Antes portas de fuga e sobrevivência nas agonias pessoais que tento calar.

Não foi escrito para me pacificar com a ilusão de que tudo ficará bem.

Não ajuda a mastigar a minha comiseração mais profunda.

Magoa porque me despe dentro de mim mesmo.

É escrito como um espelho silencioso de realidade para quem deixou de acreditar em terapias. 

(Fleuma)

 

Deixei de acreditar em impossibilidades depois da sua morte. E nem sequer foi de repente, como quem desliga um interruptor e volta as costas à escuridão. Descobri pela morte, muito antes desta descrença, que o vazio tem uma origem e uma falta de presença de carne e osso, que a verdadeira saudade é espessa e não deixa raiar a luz, que afinal tudo tem um principio e um meio, mas que eu, cego pela impossibilidade, não cheguei a assistir ao seu fim. 

Não me recordo de chorar por ele nem sequer do triturar do seu último gesto a tresandar a niilismo porque sempre soube que seria ele a escolher a sua hora, mas ainda acreditava em impossibilidades como se a sua eternidade fosse um facto consumado. Creio não ter ainda hoje uma noção sóbria e racional da extensão da ruína que este "Deixei de acreditar ..." teve em mim, do cinismo que me abraçou, da futilidade dos meus medos, e do sentimento a traição que nunca me abandonará. 

(Fleuma)

 

 

A saída pelas portas deslizantes deixa atrás de nós os corredores brancos e o ruído dos passos de gente - demasiada gente...

O meu nariz saturado pelos odores. E a pacificação de mais um diagnóstico tranquilo que ainda assim, sistematicamente, agitam as minhas noites e os meus caminhos enquanto a acompanho. Porque nada mais posso fazer - apenas acompanhar e aceitar a memorização destes passos entre as paredes imaculadamente brancas e o assobiar do calçado no chão esterilizado, que eu sumamente abomino e vou sempre odiar, porque nunca deixará expiar as recordações de um passado onde a morte pareceu sentar-se junto à sua cabeceira, pacientemente. Uma velha Senhora. Uma sábia artesã de incertezas e derrotas sem regressos.

Devia antes rejubilar pelas suas vitórias, quando na sua face já se traçavam os esquissos de um fim prematuro. Antes dobrar um joelho para o chão e baixar a cabeça em absoluto sinal de reverência, porque afinal, isso é o que deve ser feito diante dos que verdadeiramente combateram, perante o brilho cego da sua armadura veterana de mil noites de tormenta, mas vencedora. 

Tudo isso eu faço. Esse reconhecimento existe em mim. Esse reconhecimento e assombro por essa criatura que venceu, Ela e apenas Ela, uma escuridão onde eu já me havia perdido. Tudo isso eu assumo. A minha fraqueza de espírito e descrença, vergaram os meus pensamentos a uma rendição vergonhosa e subtilmente cruel porque não aceito essa derrota. Nada é mais venenoso em mim do que o pensamento que aceita e pacifica a minha derrota como um "gesto causado por uma exaustão absoluta"! Recuso negar a mim próprio este flagelar porque recuso esquecer-me. Eu nunca me esqueço! Eu nunca me esquecerei. 

Permito, mesmo assim, o consolo de um privilégio raro, a virtude do olhar que insisto sempre que seja muito breve, por um receio visceral do que passou afinal ainda esteja presente, tudo não seja mais do que um sonho. Mas preciso deste olhar para um descanso breve. Necessito de testemunhar a sua transmutação de um calvário frio e escuro, das noites agarrado à sua mão pálida, a sussurrar a sua melodia preferida, mal conseguindo ver uma luz nos olhos verdes. Sei perfeitamente o sabor do desespero mais surdo! Sei qual é o seu gosto - sabe a desesperança e reduz tudo o que nos rodeia a meros flocos de pó - é cozinhado em labirintos que não deviam existir. Mas estão vivos. 

Necessito de ver como se tornou bela com o passar do tempo num portento criado pela conjugação perfeita. O cintilar dos olhos verdes, vivos e sagazes, a força de um corpo forjado na guerra, o assombro de uma alma cuja essência só consigo explicar por pensamento, a palavra nunca lhe fará a justiça! A minha indiferença perante o que me rodeia quando a acompanho combate o pensamento que não me deixa esquecer um momento de derrota. E o sabor de uma bola de chocolate negro gelado banhado em café morno, esse repetir do primeiro instante de libertação, de vitória, esse ritual que jurámos ser eterno, é o momento mais magistral da minha miserável existência! Este e apenas este instante justifica a minha sanidade.

( Esta necessidade de expurgar.

Este veneno digerido pela força.)

(Fleuma)

 

"A única confissão sincera é aquela que fazemos indiretamente - ao falarmos dos outros.“
Emil Cioran

 

Eu sempre olhei para ele como o aproximar de uma tempestade, quanto mais próximo mais perfeita se torna.  Nunca houve em mim esse principio de cultivar a ideia do culto, transformar algo e muito menos alguém num objeto de adoração intocável. Todos rigorosamente todos são imperfeitos e incapazes, por mais admiração que exista. No entanto, havia dentro dele uma tempestade em torvelinho, um método de loucura quase a cheirar a niilismo descompensado e despreocupado. Uma escuridão saturnal que facilmente assustava porque demasiadas vezes se tornava espessa e impenetrável.

A minha atenção repousava teimosamente no seu sentido de humor que manipulava com a arte de quem possui algo em si como força natural e por isso domina como respira - eloquente e capaz de me provocar o riso. Um demónio de ironia por vezes tão áspera que tornava esse sentido de humor numa sinfonia profana e solene. Surgia como um fantasma, por espaços e repentinamente, rasgava-me a face em traços de descanso descontraído, e logo a seguir desaparecia, deixando-me coberto naquela fome de quem se sabe incapaz do riso fácil e libertador. Havia algo naquele sentido de humor escurecido que conseguia caminhar de pés descalços com a minha dificuldade em aceitar graças irónicas. Rasgava os instantes mais sérios e abria as portas ao pensamento mais iconoclasta que se atrevesse a cruzar a minha mente naqueles dias.

Cruzei muitas vezes os braços. Inclinei as costas para trás na mais submissa das pacificações, enquanto  escutava os seus rasgos implacáveis, tantas vezes em partilha com outros igualmente detidos. 

Nunca imaginando que um dia iria perseguir um fantasma.

(Fleuma)

 

 

 

Funkenflug

(999)

Aqueles primeiros passos. Recordo-me bem do caminho estreito pela enseada escura e do estarrecer, enquanto caminhava entre os dois gigantescos promontório de gelo, ali, mesmo junto à praia gelada. Certas memórias são como amantes ciumentas, nunca deixam de permanecer entre as nossas sombras, predadoras em lugar distante, mas em espera. E creio que guardar uma e outra lembrança é mesmo a chave de uma certa reconciliação - uma emoção que nesses dias, havia escapado de mim. 

Lembro-me vivamente desse dia/noite. E recordo-me desses promontórios gelados e pálidos, faróis naquele cinzento escuro, gigantes a varrer o céu de chumbo carregado de frio e gelo. Não gosto de me esquecer deles. Gosto de os rever uma e outra vez como um regresso longo e intensamente familiar a Casa - a minha morada.  Regresso e caminho até às águas frias enterrando as botas pesadas na areia escura. As correntes aqui são fortes mas a água não explode na margem, antes convida ao nosso silêncio mais espesso, vergados pelo som taciturno do correr da ondulação. 

Este espaço pode bem ser o inferno gelado, escuro e melancólico, de muitos. Uma permanente saudade dos brilhos de um Sol tantas vezes ausente. Um bater ritmado para a loucura que quase, quase deixa um vislumbre do fim do caminho. Se não deixarmos abrir as janelas, se mantivermos as portas fechadas com cadeados, é fácil, demasiado simples abrir página a página, o catecismo pessoal dos flagelos mais cruéis, neste mundo sombreado.

Sempre que regresso traço a minha imperfeita humanidade, a minha racionalidade mais estoica regressa a um grau humilhantemente raso, a tormenta de euforia e uma tristeza absurda, pálida, consome aqueles passos até às margens negras. O peso mais colossal espreme a respiração, um medo primário soa aos ouvidos com uma voz rouca de velho conhecido. Tudo reconhecido e tudo já antes sentido.

E depois?

E por fim?

Uma solidão de fortaleza. Um lugar antes indicado e agora visitado sozinho. Reconhecimento e entropia em comunhão. Uma dispersão substituída por certezas que ainda hoje não consigo explicar. Mas deixo que entrem em mim e nestes preciosos instantes ermos e despovoados, sou verdadeiramente mestre de mim próprio. É terrivelmente assustadora esta realidade, porque me abandona numa dimensão de perceção tão cristalina, tão absurdamente liberta de inutilidades desnecessárias, que se fosse um estado permanente já me teria transformado num louco delirante. Horas a fio junto ao mar num turbilhão indescritível, em assomo de recordações, arrancando memórias novas, sonhando perdido.

Não procuro justificar nada disto. Todos temos formas de loucura implantadas em nós. Não há um traço de injustiça neste local perdido mesmo para os que vivem próximos. Apenas a virtude da quietude submissa que afirma realmente o que somos na escala planetária; é terrivelmente assustador chegar a esse local - ainda hoje. Porque antes tudo era apenas desilusão e um torpor venenoso. E esse local poderia muito bem ter sido o meu último poisar.

Mas não. Estranhamente não.

Apaixonei-me perdidamente. Sem retorno. Numa paixão cega.

Como Eu. 

(Fleuma)

É fácil, demasiado fácil, cultivar a arte de desaparecer; e mesmo que alguns transformem essa arte num oficio exímio, numa virtude quase intangível, com o tempo e a prática, depressa se consegue desaparecer. É fácil. Fácil.

O que nunca é fácil é aceder à virtude que aceita a inevitabilidade de uma promessa não cumprida. O prometido que não é cumprido não cria em nós apenas um espaço que desaparece, é um fosso que cresce em círculos de solidão indesejada. Senão, porque razão uma mãe aceita de forma cega e obstinada a promessa de que a vida de um filho será mais longa do que a sua? Senão, porque razão, não cumprida essa promessa, se transcendem todas as fronteiras do mais racional e pragmático aceitar do fim inevitável, transformando-se num abismo tão pessoal que se torna inexpugnável? Quando algo que sempre julgámos nosso por promessa desaparece, muitas vezes, demasiadas vezes, porque alguém se tornou mestre nessa arte é ainda mais cortante, porque a desilusão que nos abraça é um veneno em que apenas um ignorante cego não pressente o labirinto onde acaba de entrar.

Eu não consigo esquecer uma promessa feita, por mais insignificante que seja. Recuso-me a não cumprir o que prometo ao ritmo de obsessão. Não me esqueço e não perdoo uma promessa que me foi feita e não cumprida, porque reconheço o caminho do fosso - mesmo sabendo que sou um artificie nessa arte de desaparecer. Tudo o que nos resta é uma exposição sem abrigo à tempestade; um olhar de animal assustado em volta. 

Creio que quando a nossa existência se agarra desesperada a uma promessa feita por outra pessoa, e afinal, tudo o que fica, são ecos e um vazio desprotegido, esse é o verdadeiro teste da nossa capacidade de sobreviver a um desespero que não tem rival entre outros desesperos.

Uns tombam de frente em rendição.

Outros rasgam e arrancam o pedaço negro que ficou plantado mesmo que isso signifique existir envenenado.

E a arte de desaparecer acaba por se transformar muitas vezes naquela minúscula centelha que aponta a saída.

(Fleuma)

 

 

Creio que já tínhamos falado sobre a Morte. Creio bem que sim. Naqueles dias que antecederam o fim do sofrimento, das dores, estranhamente, ao falarmos Dela, finalmente vi um sorriso imenso! Como um intenso momento de lucidez e reconhecimento, aquele olhar distante para uma pilha de comprimidos amontoados, um  abrigo que nunca apagou a agonia, um altar de prostração inútil.

Da tua Morte, estranhamente, e não da tua Vida.E mesmo na viagem, enquanto a morfina viajava entre a tua consciência fria, calculista, racional, e o remoer da minha paixão pela tua virtude de escolher um Fim, o terminar de uma batalha há anos perdida, ainda alimentei a esperança do teu arrependimento.

Idiota.

É como se eu já não soubesse onde saciei a minha sede de mim próprio, desse vigor tão niilista do Individuo, na soberba que me consome, porque escolher o momento e como devemos Morrer é a nossa única e verdadeira preciosidade, que nada ou alguém consegue despojar. Segurar em mim a única centelha realmente minha, torna-me perigoso, sempre o soube. Mas é tão intensamente apaixonante e belo como o teu último e derradeiro pulsar de Liberdade. Afinal, que maior definição de libertação existe senão nesta escolha? Nesse voltar de costas ao tormento, quando assim foi decidido?

E porque escrevo desse dia, logo hoje? Porque me recordei da tua entrada pela porta tão discreta. Porque, após anos e anos de sofrimento e batalha, jamais deixarei que se apague em mim o teu Sorriso, enquanto fechavas os olhos. 

E não chorei. Não me entristeci por um merecido descanso. Disseram-me algo sobre o brilho verde dos meus olhos e ainda algo mais sobre a raridade do meu sorriso, nesses instantes. Já não me recordo. Não me interessa. Recordo-me antes de uma última lição e reverência minha, ao olhar a própria face imaculada da Verdadeira Libertação. Nossa. Intocável. Digna. Decidida por Nós! 

 

... E a canção preferida.

 

Fleuma,

 

///

Está lá, sabes? Quase etérea, no canto do olhar submisso; quase ao alcance de um salto sem falhar. Como um truque de luz e em absoluto repouso, basta um pequeno ruído para que se erga e tudo se transforme. Ainda assim, jamais perde a beleza. Nunca consigo abrandar o meu coração. E os meus punhos permanecem cerrados e brancos. Recordo-me porque não é necessário um deus quando as palavras são segredadas ao ouvido e seladas com um beijo, as mãos nas minhas mãos, as unhas que traçam feridas que eu não sinto, o suspiro quente no meu pescoço. O sabor da saliva. O mais perfeito alinhar de sensações. A certeza de que somos escuridão. Que a noite é nossa. Nossa. 

Orgulhosamente nós neste chão. Além dos olhares e de outras palavras. Animais em observação. Brilhando sufocado na tua luz planetária, e nesses momentos de rara transfiguração os nossos olhos são jóias, e tudo o que fazemos é uma perfeição espontâneas. Onde os deuses gemem temerosos.

Deito-me naquele cansaço de quem batalhou durante horas. Com o coração demente e a arremessar-se contra a parede das minhas costelas. Preso ao toque. Crispado nas saudades e finalmente junto a ti. Deixando desfiar os teus dedos para que o nosso toque seja a alquimia e a paixão que faz explodir, rebentar em fogo primário ou queimar até às cinzas.

O resto não me interessa. 

Que tudo se evapore e negue a si próprio no partilhar deste som doce e melancólico. 

Que este fogo jamais se extinga. 

 

 

///

Demasiadas são as vezes em que as certezas dos outros não são uma resposta, uma entrada  serena para uma outra jornada. São muitas as horas onde parece estalar o chicote de uma razão que não canta a melodia da luz ao fundo, onde acabamos a mergulhar, braços abertos,  numa mentira. Talvez seja esta a verdadeira justificação para prosseguir por outros labirintos, tão estreitos que rasgam os pensamentos mais indomáveis. A amargura que aceita outra verdade, deliciosamente única aos olhos do caminhante, insiste tirana, que voltemos  o rosto para um outro lado mais oposto - tão longe que força os olhos abertos, e acabamos por finalmente reconhecer o verdadeiro nome da escarpa onde terminam certos labirintos.

Por vezes é tão necessário como respirar para sobreviver, que se reconheçam as artes sombrias da punição pessoal escritas numa espécie de catecismo imundo de sangue, onde cada página é nossa - traiçoeiramente pessoal e com as palavras que escolhemos. O meu catecismo é o meu corpo. Os traços do meu caminho estão aí cravados. O nome da escarpa onde terminam muitos dos meus labirintos não aceita apenas a sua casa no pensamento. Não. Comanda que me recorde dele quando me  dispo e deixo que o espelho seja o reflexo de esquissos; memórias e chaves que me recuso a voltar e a usar. Pedaços de escuridão,  pequenas luzes de lembrança onde falhei - mapas para escapar.

Aprendi a esquiva magia da pacificação aqui: no reflexo do corpo tracejado como uma armadura encantada. No uso do verbo como recurso para curar as feridas enquanto caminho no escuro. No escutar de outras melodias por vezes tão estranhas.

Aceitei o seu sabor. Quero deitar-me ao seu lado. Dormir silencioso e sonhar.

 

"Ninguém venceu a obsessão da morte pela lucidez e pelo
conhecimento. Não existia nenhum argumento contra ela. Ela não
tem do seu lado a eternidade? Só a vida tem que defender-se sem
trégua; a morte já nasceu vitoriosa. E como não vai ser vitoriosa se o
nada é seu pai e o horror,  a sua mãe? Só podemos vencer a morte
desgastando-a. A penetrante obsessão que sentimos por ela 
desgasta - nos e, por sua vez, se desgasta" (EMIL CIORAN)

(999)

 

O pesadelo está presente, resguardado num recinto escuro da mente; alerta e nunca dorme. Sistematicamente surdo às minhas tentativas para que adormeça, e finalmente se esfume no pó. Nunca mais, desde aqueles minutos iniciais de conhecimento e diagnóstico, fechou os olhos, por segundos que sejam, a uma vigia de surdina cinicamente empoleirada nos meus ombros.

Testemunho a sua existência com a resignação dos que tantas vezes se atiram a um muro sólido, na esperança (estupidamente!) de não esmagar o crânio, sempre que ultrapasso as portas giratórias, como olhos imensos de um mau sonho, na sua companhia, para mais um examinar minucioso. 

Odeio portas giratórias com o vigor dos assassinos mais sádicos. Abomino paredes brancas, falsas profetas da ideia imbecil de repouso e pacificação.

A guerreira cresceu muito. Já não necessita de sair pelos seus pés e regressar ao meu colo por exaustão. Mas até a sua lendária  força de espírito oscila quando atravessamos aquele portal de recordações. 

Sei que sim.

Atravessa o seu braço no meu. Como suporte. E aperta. Pressinto-lhe uma força física que me surpreende sempre!

Somos reconhecidos. Tento encolher toda a minha massa corporal numa bola inútil. Desço os olhos para o chão. Mas sei que o cabelo puxado para trás das orelhas, o  casaco negro e longo e as botas pesadas da mesma cor, tornam inúteis as minhas dissertações sobre entradas e saídas discretas.

Ela também não consegue. Está como eu - alta mas mais sinuosa. O cabelo está mais longo que o meu. Mais esfuziante. Menos "castanho lixo" como gosta de me dizer enquanto olha para mim. 

O vestido longo que cobre o seu corpo, o rosto branco e delicado e os olhos de um verde mais escuro que os meus, tornam pois, impossível evitar o reconhecimento. Principalmente pelos que testemunharam o antes e o depois. 

Abismos entre anos.

Nestes minutos, enquanto corre livremente o pesadelo, aguardamos mais um resultado e a sua sentença. Vou  deixando que a razão se cale, persistindo teimosamente na ideia que, para ela, ainda é demasiado cedo para a Morte. Vou mantendo uma serena euforia pela sua extrema juventude. Mordo todos os meus conceitos para que esta juventude e suprema beleza resista.

Exijo morrer antes. Desde o principio que foi assim. E nunca mudará.

Entramos na pequena sala. Odiosamente branca. Eu e ela. Veteranos de mil batalhas em cinzas. No outro lado da mesa uma voz feminina e mascarada pergunta algo e apenas oiço a sua resposta firme com um sorriso sonoro - " Sim Dra. é mesmo a cor dos olhos dele!"; o surrealismo deste breve trecho de palavras entre máscaras e saudações banais, torna este pesadelo numa outra Besta;  como que revigorado e agora dotado de um sinistro sentido de humor.

Reparo, como nas outras sentenças, que a minha respiração está cortada. Reparo que se assim não fosse pura e simplesmente estrangularia a pessoa do outro lado da mesa: Pela perda de tempo e conclusão.

Noto que o pesadelo se alonga. Que os meus ouvidos crescem e que estou num limiar de exaustão que apenas se conseguirá desprender quando ouvir o que exijo escutar.

- " Está óptima! Não poderia estar melhor! Perfeita!", do outro lado da mesa. 

Na maldita sala branca.

E respiro então. O coração regressa ao seu passeio de  rotina. Os pensamentos alinham-se. Os ombros erguem-se e parecem deixar a senhora desconfortável. Acabo por sorrir debaixo da máscara, secretamente divertido com o seu embaraço.

Quando, mais uma vez, saímos pelas portas giratórias, toneladas retiradas de ambos, caminhamos de braço dado, ela rindo, enquanto sussurra as palavras da sua canção preferida, que eu fazia soar nos auscultadores enquanto ela permanecia deitada, exausta de olhos vermelhos,  e que glorifica tudo o que ela sempre será: Guerreira sem par de virtudes intocáveis. Sabendo o que venceu. Sabendo que quem ousar macular a sua integridade terá uma morte lenta e dolorosa. 

Garantidamente.

E eu uma vez mais consigo afastar o pesadelo para um outro labirinto até a um próximo confronto.

A pacificação nasce de novo com a partilha do seu pequeno prazer de eleição ...

Três bolas gigantes de gelado de chocolate com molho  de café a escorrer em cascata.

Pequeno troféu para o descanso da guerreira.

 

 

 






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