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Está lá, sabes? Quase etérea, no canto do olhar submisso; quase ao alcance de um salto sem falhar. Como um truque de luz e em absoluto repouso, basta um pequeno ruído para que se erga e tudo se transforme. Ainda assim, jamais perde a beleza. Nunca consigo abrandar o meu coração. E os meus punhos permanecem cerrados e brancos. Recordo-me porque não é necessário um deus quando as palavras são segredadas ao ouvido e seladas com um beijo, as mãos nas minhas mãos, as unhas que traçam feridas que eu não sinto, o suspiro quente no meu pescoço. O sabor da saliva. O mais perfeito alinhar de sensações. A certeza de que somos escuridão. Que a noite é nossa. Nossa. 

Orgulhosamente nós neste chão. Além dos olhares e de outras palavras. Animais em observação. Brilhando sufocado na tua luz planetária, e nesses momentos de rara transfiguração os nossos olhos são jóias, e tudo o que fazemos é uma perfeição espontâneas. Onde os deuses gemem temerosos.

Deito-me naquele cansaço de quem batalhou durante horas. Com o coração demente e a arremessar-se contra a parede das minhas costelas. Preso ao toque. Crispado nas saudades e finalmente junto a ti. Deixando desfiar os teus dedos para que o nosso toque seja a alquimia e a paixão que faz explodir, rebentar em fogo primário ou queimar até às cinzas.

O resto não me interessa. 

Que tudo se evapore e negue a si próprio no partilhar deste som doce e melancólico. 

Que este fogo jamais se extinga. 

 

 

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Demasiadas são as vezes em que as certezas dos outros não são uma resposta, uma entrada  serena para uma outra jornada. São muitas as horas onde parece estalar o chicote de uma razão que não canta a melodia da luz ao fundo, onde acabamos a mergulhar, braços abertos,  numa mentira. Talvez seja esta a verdadeira justificação para prosseguir por outros labirintos, tão estreitos que rasgam os pensamentos mais indomáveis. A amargura que aceita outra verdade, deliciosamente única aos olhos do caminhante, insiste tirana, que voltemos  o rosto para um outro lado mais oposto - tão longe que força os olhos abertos, e acabamos por finalmente reconhecer o verdadeiro nome da escarpa onde terminam certos labirintos.

Por vezes é tão necessário como respirar para sobreviver, que se reconheçam as artes sombrias da punição pessoal escritas numa espécie de catecismo imundo de sangue, onde cada página é nossa - traiçoeiramente pessoal e com as palavras que escolhemos. O meu catecismo é o meu corpo. Os traços do meu caminho estão aí cravados. O nome da escarpa onde terminam muitos dos meus labirintos não aceita apenas a sua casa no pensamento. Não. Comanda que me recorde dele quando me  dispo e deixo que o espelho seja o reflexo de esquissos; memórias e chaves que me recuso a voltar e a usar. Pedaços de escuridão,  pequenas luzes de lembrança onde falhei - mapas para escapar.

Aprendi a esquiva magia da pacificação aqui: no reflexo do corpo tracejado como uma armadura encantada. No uso do verbo como recurso para curar as feridas enquanto caminho no escuro. No escutar de outras melodias por vezes tão estranhas.

Aceitei o seu sabor. Quero deitar-me ao seu lado. Dormir silencioso e sonhar.

 

"Ninguém venceu a obsessão da morte pela lucidez e pelo
conhecimento. Não existia nenhum argumento contra ela. Ela não
tem do seu lado a eternidade? Só a vida tem que defender-se sem
trégua; a morte já nasceu vitoriosa. E como não vai ser vitoriosa se o
nada é seu pai e o horror,  a sua mãe? Só podemos vencer a morte
desgastando-a. A penetrante obsessão que sentimos por ela 
desgasta - nos e, por sua vez, se desgasta" (EMIL CIORAN)

(999)

 

O pesadelo está presente, resguardado num recinto escuro da mente; alerta e nunca dorme. Sistematicamente surdo às minhas tentativas para que adormeça, e finalmente se esfume no pó. Nunca mais, desde aqueles minutos iniciais de conhecimento e diagnóstico, fechou os olhos, por segundos que sejam, a uma vigia de surdina cinicamente empoleirada nos meus ombros.

Testemunho a sua existência com a resignação dos que tantas vezes se atiram a um muro sólido, na esperança (estupidamente!) de não esmagar o crânio, sempre que ultrapasso as portas giratórias, como olhos imensos de um mau sonho, na sua companhia, para mais um examinar minucioso. 

Odeio portas giratórias com o vigor dos assassinos mais sádicos. Abomino paredes brancas, falsas profetas da ideia imbecil de repouso e pacificação.

A guerreira cresceu muito. Já não necessita de sair pelos seus pés e regressar ao meu colo por exaustão. Mas até a sua lendária  força de espírito oscila quando atravessamos aquele portal de recordações. 

Sei que sim.

Atravessa o seu braço no meu. Como suporte. E aperta. Pressinto-lhe uma força física que me surpreende sempre!

Somos reconhecidos. Tento encolher toda a minha massa corporal numa bola inútil. Desço os olhos para o chão. Mas sei que o cabelo puxado para trás das orelhas, o  casaco negro e longo e as botas pesadas da mesma cor, tornam inúteis as minhas dissertações sobre entradas e saídas discretas.

Ela também não consegue. Está como eu - alta mas mais sinuosa. O cabelo está mais longo que o meu. Mais esfuziante. Menos "castanho lixo" como gosta de me dizer enquanto olha para mim. 

O vestido longo que cobre o seu corpo, o rosto branco e delicado e os olhos de um verde mais escuro que os meus, tornam pois, impossível evitar o reconhecimento. Principalmente pelos que testemunharam o antes e o depois. 

Abismos entre anos.

Nestes minutos, enquanto corre livremente o pesadelo, aguardamos mais um resultado e a sua sentença. Vou  deixando que a razão se cale, persistindo teimosamente na ideia que, para ela, ainda é demasiado cedo para a Morte. Vou mantendo uma serena euforia pela sua extrema juventude. Mordo todos os meus conceitos para que esta juventude e suprema beleza resista.

Exijo morrer antes. Desde o principio que foi assim. E nunca mudará.

Entramos na pequena sala. Odiosamente branca. Eu e ela. Veteranos de mil batalhas em cinzas. No outro lado da mesa uma voz feminina e mascarada pergunta algo e apenas oiço a sua resposta firme com um sorriso sonoro - " Sim Dra. é mesmo a cor dos olhos dele!"; o surrealismo deste breve trecho de palavras entre máscaras e saudações banais, torna este pesadelo numa outra Besta;  como que revigorado e agora dotado de um sinistro sentido de humor.

Reparo, como nas outras sentenças, que a minha respiração está cortada. Reparo que se assim não fosse pura e simplesmente estrangularia a pessoa do outro lado da mesa: Pela perda de tempo e conclusão.

Noto que o pesadelo se alonga. Que os meus ouvidos crescem e que estou num limiar de exaustão que apenas se conseguirá desprender quando ouvir o que exijo escutar.

- " Está óptima! Não poderia estar melhor! Perfeita!", do outro lado da mesa. 

Na maldita sala branca.

E respiro então. O coração regressa ao seu passeio de  rotina. Os pensamentos alinham-se. Os ombros erguem-se e parecem deixar a senhora desconfortável. Acabo por sorrir debaixo da máscara, secretamente divertido com o seu embaraço.

Quando, mais uma vez, saímos pelas portas giratórias, toneladas retiradas de ambos, caminhamos de braço dado, ela rindo, enquanto sussurra as palavras da sua canção preferida, que eu fazia soar nos auscultadores enquanto ela permanecia deitada, exausta de olhos vermelhos,  e que glorifica tudo o que ela sempre será: Guerreira sem par de virtudes intocáveis. Sabendo o que venceu. Sabendo que quem ousar macular a sua integridade terá uma morte lenta e dolorosa. 

Garantidamente.

E eu uma vez mais consigo afastar o pesadelo para um outro labirinto até a um próximo confronto.

A pacificação nasce de novo com a partilha do seu pequeno prazer de eleição ...

Três bolas gigantes de gelado de chocolate com molho  de café a escorrer em cascata.

Pequeno troféu para o descanso da guerreira.

 

 

 

 

Existem memórias impossíveis de cauterizar por mais que tente. São parte do inferno pessoal que me afasta do puritanismo dos que acreditam existirem virtudes inabaláveis na vontade de viver. São os retalhos que ficam plasmados a cinza e que persistem em sobreviver, como dedos apontados feitos de remorso.

Devia ter adivinhado porque estavam lá, claras e cristalinas, como o lago gelado em que gostava de se reflectir. Devia. Nos anos de amizade e  esforço para me arrancar do tufão em que gravitava - devia ter sido muito mais atento.

Mas não. Mesmo na minha consciência de astro menor na dimensão de um sol absurdamente brilhante, deveria ter olhado para cima, para longe da minha órbita. E é sórdida, esta necessidade que tenho de aceitar  este facto. Mesmo após tantos anos.

Deveria ter aberto mais os braços aos crescentes ódios e espasmos  de frustração que assombravam palavras e gestos; nunca deveria ter cerrado o pensamento às sombras que rodeavam aqueles olhos antes intensamente brilhantes, fulgurantes num mar de lógica imbatível, e pensar que tudo se iria resolver, enquanto a minha condição troçava dos meus pensamentos.

E tem graça, não é? Como poderia um naufrago em estertor de morte ajudar quem quer que fosse? Quase consigo rir-me desta piada!

De facto, somos nós que mantemos acessa a chama da vida. E somos nós que decidimos quando demais é demais. Mesmo que brilhantes como constelações, por vezes crescemos tanto, somos de tal forma colossais que este corpo deixa de conseguir comportar o nosso respirar. Tudo parece dispersar-se em nós. Deixamos de acreditar em salvação. A redenção está no fim que determinamos. 

Quem ainda decide continuar transporta consigo o fardo da perda. Seco de lágrimas inúteis. E só muito mais tarde surge a compreensão, astuta e fria. E isto nem sequer se revela uma penitência. Antes um veneno consumido com aquele requinte da mais absurda impotência e frustração.

Nem sequer se reveste de qualquer consolo concluir que assim acabou por ser melhor - que viver o resto de tempo como uma concha vazia é uma atrocidade pior. Porque é neste preciso instante de claridade que o desespero se revela na sua verdadeira essência cruelmente vermelha e tinta de arrependimentos.

Uma imensa porção da nossa alma desaparece. Permanece uma solidão órfã de riso e companheirismo nos momentos mais negros. Agita-se um desespero pelo súbito abandono nos pensamentos. Tudo nos recorda quem já foi. E já não é.

A Morte acaba por ser um estranho consolo. Mas para quem continua a respirar remorso por cegueira ficam as farpas que sistematicamente, pausadamente,  relembram outros dias de genuína felicidade.

 

 

 

Por vezes consigo pressentir-lhe o cheiro entre as correntes de ar que habitam entre nós. Mas depressa se evaporam as últimas réstias e sabores da minha boca. Porque se tratam apenas de reflexos de promessas feitas e nunca cumpridas. São como aquele toque final no truque que o mágico, uma vez mais, falhou.

Ficam apenas as intenções. As falsas noções de segurança e salvação.

Nunca  saberei o que dizer a quem promete e não cumpre. Entre a piedosa mentira e o conforto da desilusão e abandono nos últimos instantes da tempestade, creio que a distância se mede facilmente: Em metros de solidão.

E eu já reparei que a expressão mais dolorosa de olhar para uma promessa de companhia nos dias em que tudo está cego, surdo e mudo, se revela afinal, um fogo fátuo que pode muito bem aniquilar ou então, fomentar a semente do Orgulho.

Abana-se a cabeça diante deste Orgulho - monstro que vocifera impiedades, veneno que eleva a arrogância e a presunção!

Mas as longas conversas polvilhadas com a promessa solene de um ombro de apoio, trazem sempre consigo aquele travo insalubre da mentira. Reconhecer este sabor pode levar anos e por isso vai corroendo a alma e assassinando lentamente.

Enquanto vamos ficando mais sós. Reconhecendo o mundo como o que realmente é...

Ermo.

 

 

 

Imagine-se um espírito solitário, porque é sempre assim no principio: solidão.

Imagine-se que desde muito cedo, após os primeiro passos e consciência tangível de fragilidades, o pensamento questiona a prematura fraqueza física. Porque razão os movimentos são tão ásperos no seu mais profundo cansaço; porque se deveria elogiar o vigor e apenas se procuram mais métodos para facilitar os passos de quem quer apenas mover-se.

Imagine-se que o espírito envelhece nesta condição humana: endurecido pela batalha de quem, todos dias, consegue pequenos vislumbres de inferno pessoal nos vinte cinco minutos de caminhar tortuoso entre um quarto e uma banheira; que este espírito não se torna mais virtuoso na  descoberta de respostas, antes ermita de questões sem limite.

Imagine-se que a salvação é um soletrar sem melodia sobre a necessidade inadiável de uma cadeira de rodas, porque o corpo não suporta mais tensão e os músculos são o espelho de um Inverno que nunca terminará. Calculando com a precisão de um velho artesão a falta de esperança nos olhos do cientista que parece rendido ao destino do espírito em frente.

E se, como último fôlego de quem já mal caminha, a ideia fosse aquele suspiro necessário para gastar as reservas finais na viagem a um Norte mítico e sonhado? E quando já nada mais houvesse, morrer?

Imagine-se os passos dolorosos e curvos do espírito que batalha para mais um pouco de caminho na neve que escorre densa e branca, e decide entrar pelos portões onde soava o trovejar do ferro fundido, para conseguir descansar uns momentos.

Foram olhos azuis de gigantes nórdicos que brilharam, cabeças loiras  e longas barbas claras, que se aproximaram do espírito de olhos verdes prostrado e derrotado.

Imagine-se que o espírito jamais esquecerá quem o ergueu do pó com mãos rudes e braços fortes. Que sempre se recusará a esquecer as horas, os dias, os meses de esforço para fortalecer um corpo condenado, enquanto a mente reservará para si mesma a desilusão, o lamento da rendição, a reverência por quem, desde aquela noite de Inverno, nunca o abandonou. Ou abandonará. 

O  espírito cresceu e quer agora ser também gigante mesmo nos dias mais próximos do Abismo, enquanto vai aceitando o calor do caldo primordial de quem todos os dias se torna mais forte e consegue agora caminhar na condição ambicionada - erecto e  de queixo levantado.

Mesmo que vá marcando o corpo com traços de lembrança porque a mente é traiçoeira. Ainda que tema ser um sonho este. 

Poder existir pela sua decisão.

 

Demónios ...

 

A esperança é também um velho demónio.

 

Não existe melhor ponte para conhecer as suas margens do que o espelho dos olhos. Não é possível esconder dos olhos a esperança do verdadeiro sonhador, aquele que permanece num constante estado de perdição e ausência. Como se sonhar fosse alimento para  iluminar labirintos escuros.

Lembro-me deste velho demónio nos olhos de duas crianças deitadas de costas em camas separadas. Recordo-me dos motivos para estarem deitadas de costas e do que se alimentava dentro dos seus corpos. Ia deixando que lavrasse em mim a esperança de que a Mãe Natureza estivesse um pouco senil, esquecendo as crianças, apagando o sofrimento e o torpor da derrota.

Não. Porque é demasiado cabra e possessiva dos seus!

Os olhos são espelhos da alma. Mesmo do cego que tudo parece pressentir com dedos, odores e ruídos. Mas nas duas crianças  estavam cercados por tons negros e sombras. O brilho de uns e outros ficará gravado para sempre no meu catecismo de derrota pessoal.

Foi possível, cruelmente possível, vislumbrar o fim nos olhos de ambas crianças: porque numa raiava um brilho intenso de vontade de sobreviver, mesmo num corpo infantil magro e conhecedor do sabor da dor e limites humanos; na outra, deitada na mesma posição, os olhos estavam abertos, mas restava apenas uma pequena chama de esperança e o seu brilho era apenas uma muito pequena luz para uma tempestade que se aproximava. Sem a perdição dos que sonham alto. Cada vez que olhava para aquele rosto só conseguia sentir a minha própria morte.

Cinco dias depois a cama estava vazia e branca como farinha.

Tanto ódio e frustração sentida nunca deixou de me afogar e envenenar os pensamentos. Que um Universo inteiro se consiga detalhar nos olhos onde brilha a esperança, para depois mergulhar num buraco negro.

A minha impotência surgiu por esquissos raros e quase desconhecidos para mim naqueles tempos: senti que forçosamente e contra a minha mais férrea vontade, havia um liquido morno que escorria dos meus olhos para a face fria e com barba de várias semanas.

 

 

 

 

Eu ...

 

(999)

 

Todos nós vivemos um Inferno pessoal. Refugiados na inocência ilusória de pensar como se torna importante esconder a angústia, a indiferença mais absurda perante a nossa falta de beleza e o mais subtil dos reconhecimentos, a mais clara das noções. Sofrer é quase uma lei cósmica protegida pela iniquidade de um qualquer deus que apenas existe para o justificar. Por dentro as nossas crianças são fantasmas - aquelas pequenas cobiças que imaginamos pertencerem à nossa beleza interior, ao virtuoso acto de queremos ser belos e encantados. A uma extrema necessidade de pertencer a algo. E comandar algo.

 

Não existe realmente calor num Inferno pessoal.

 

E porque haveria de ser assim?

 

O meu Inferno alimenta-se da minha falta de beleza. Sobrevive em mim nos caminhos que escolhi. Estende a mão aberta para me erguer do solo porque aprendi a aceitar o que sou. Caminhos que sempre escolhi.

 

E é sempre estranha esta sensação que surge - primeiro na ponta dos dedos, sem barulhos. Um reconhecimento tácito de que sou violento comigo próprio, raspa suavemente na porta da realidade. Depois um segredo, sussurrado ao ouvido atento transforma os dias de falta de beleza, incapacidade de rir em todos os momentos, num labirinto. Creio que é por estes labirintos que percebo insignificâncias ensopadas nas pequenas glórias de mais uma vitória.

 

Deixei de contar quantas foram as vezes em que promessas foram quebradas. Como se tornou preciosa para mim a palavra confiança. Quantas foram as vezes que cimentei um certo Inferno pessoal - que é sempre minha culpa. É sempre culpa nossa.

 

Ao ponto de aceitar e até aprimorar a arte de entender os poucos que me olham com olhos de beleza. Inexplicavelmente, acho que se trata de aprender a conviver com demónios pessoais.

 

Iluminados por estes dias com o sonho de que estão domados. Amansados na ilusão de que sou importante para alguém.

 

 

 

 

Só muito tarde entendi algumas das suas paixões. Sempre me pareceu apaixonado - demasiadas vezes pelas preciosidades erradas. Tal como eu. Por isso entendi. Talvez demasiado tarde. Talvez fosse necessária a distância da morte para compreender.

 

Decidi apaixonar-me por outras notas que se tornaram reflexos do que sou. Contra a sua vontade; ainda que secretamente admirando - sei disso por estes dias. Sombras escuras acocoradas na franja mais extrema onde inevitavelmente nascem os monstros. Se calhar nem sequer decidi. Talvez afinal existam escarpas que nos pertencem e nem sempre terminem com as luzes do sol.

 

Mas não deixa de subsistir um sabor amargo durante estas minhas noites de insónia, que vou palmilhando entre os seus discos privados aprendendo pelos seus passos, como soa o Blues que encharca a alma. Uma  estranha besta que vai estrangulando lentamente as emoções, creio apenas assim conseguir definir a torrente de sentimentos  que vão ardendo.

 

O portento de finalmente conseguir assimilar a estranha melancolia que o envolvia sempre que escutava as notas que teciam a sua tristeza - porque afinal reconheço o Blues nos seus olhos cerrados e no corpo abandonado. Reconheço a paixão de quem me professou as primeiras notas na velha guitarra. Sempre com a aquela entoação na necessidade de "ver com a alma".

 

A manifestação mais crua da tristeza batida pelas notas desta música seria tudo o que se torna necessário como perfeito epitáfio, para revelar a solidão que muitas vezes morava dentro da sua alma. Mesmo que também fosse a expressão mais preciosa do seu amor pela mulher que me viu nascer. Intenso e demasiadas vezes perigosamente cego.

 

Para mim, enquanto vou desfiando memórias, este é o meu Blues - canções que me rasgam o pensamento e relembram o que são, afinal, as tardes longas de Outono: entardecer de horas cor de ouro quando a sua companhia envolvia a minha inocência.

 

Entre o seu café negro e as minhas bolachas de morango e canela.

 

Sinto-lhe a falta.

 

Na última viagem por Paris, mais apressada e nocturna do que nas outras duas passagens, uma espécie de epifania ocorreu nas memórias de uma cidade que não me são queridas - antes dolorosamente pacificadas. Porque se encerram ciclos, quebram amarras e sangram pensamentos, Paris nunca será minha anfitriã; apenas porto de abrigo por dias e noites de entrega a melodias que sei não serem do seu calor romântico.

 

A mulher acabara de virar as costas para mim. O longo vestido negro riscava os ombros redondos e o pescoço esguio, deixando a pele descoberta; e percorrendo a estrada de carne da ponta do ombro esquerdo ao extremo do direito estavam escritas palavras; artisticamente pontuadas em letras como serpentes - trabalhadas em detalhes negros como catedrais e vermelhos sangrentos como vinhos que turvam o pensamento - " Blut Des Lebens!".

 

" Je Ne Regrette Rien"

 

Estas palavras, orgulhosamente marcadas com tinta espessa, descodificaram recordações passadas, arquétipos sombrios ainda presentes. Pensamentos colhidos à beira do abismo, quando a expressão da cidade se  revelou pouco amante para os fracos. Dolorosa como o amargo das suas luzes. Carnívora na sua falsa ingenuidade.

 

" Je Ne Regrette Rien" foram palavras lidas e saboreadas naquele travo amargo e intensamente amoroso que por vezes se transforma num caldo niilista. Uma vénia submissa aos dias passados na mais intensa e reveladora escuridão. Uma passagem solitária onde apenas lamento reconhecer a minha derrota.

 






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